Infiltrado na Klan, Spike Lee


O Brasilia International Film Festival (BIFF) começou nesta última sexta-feira (09) e terá em sua programação cerca de quarenta filmes vindos de vinte e sete países diferentes até o próximo fim de semana. Durante o evento, o publico poderá conferir as mostras competitivas nas categorias de ficcção e documentário, também a mostra mundo animado que promete agradar a criançada, a mostra que se volta para a 'memória Biff' trazendo alguns dos filmes ganhadores das edições passadas e ainda uma mostra paralela em homenagem ao cultuado cineasta norte-americano Spike Lee

Na abertura, o filme escolhido para ser exibido foi o mais recente longa dirigido por Lee, ''Infiltrado na Klan''. A produção é uma adaptação do livro de Ron Stallworth (ver aqui) onde o mesmo revive suas memórias de quando entrou para o departamento de policia norte-americano e se infiltrou em um dos mais polêmicos movimentos daquele país, a Klu Klux Klan (KKK). Tida por seus membros como organização, a KKK defende teorias extremistas sobre o 'poder branco' e é contra todo o tipo de miscigenação, diversidade, migração e etc.

O longa já tem em sua prateleira quatro prêmios conquistados em festivais de cinema, um deles o honrado 'Grand Prix' do Festival de Cannes 2018. No Brasil, ele passou pela MOSTRA SP em meados de outubro, está em cartaz no Festival do RIO e estréia em circuito comercial no dia 22 de novembro em todo o país. No elenco, Topher Grace (That 70's Show) Corey Hawkins (Straight Outta Compton) Adam Driver (Star Wars: Os Últimos Jedi), Laura Harrier e John David Washington (Monsters and Men).


Trailer
 

Durante os anos setenta, o jovem Ron Stallworth (Washington) vê uma placa com um anúncio de trabalho no departamento de polícia e decide se inscrever. Na entrevista de emprego, ele precisa responder uma leva de perguntas que se definem a ''você consegue trabalhar em um ambiente onde vão te chamar de neguinho''? e ele responde que se for necessário, sim. Nos primeiros dias, Ron fica encarregado do arquivo e a todo momento tem de ouvir comentários racistas sobre ''as fichas dos criminosos'' que ele precisa repassar aos colegas de trabalho. Não demora e ele percebe que pode ir além e solicita ao seu superior uma chance para se tornar detetive. Seu pedido é atendido, mas em forma de teste.

Então ele se junta a dois detetives, um deles Flip Zimmerman (Driver) e começam uma investigação sobre a vinda do líder do movimento negro Kwame Tune (Hawkings) a cidade para falar em uma reunião de estudantes negros de uma universidade. Por lá, ele conhece a jovem Patrice (Harrier) e além de ficar interessado na moça, consegue as informações que precisa para realizar a missão que lhe foi dada com sucesso. 

Ron consegue então ser transferido para o departamento de inteligência e se torna detetive. Um belo dia sentado na cadeira lendo jornal enxerga uma mensagem subliminar posta ali pelo movimento KKK e fica instigado. Faz uma ligação à eles e obtêm resposta e é assim que se inicia a sua primeira investigação importante no trabalho, pois se infiltra no grupo e rastreia grande parte de suas operações.
 
'' - Você está pronto? - Bridges (Robert John Burke). 
- Nasci pronto. Ron Stallworth (John David Washington)
- Eu não estou pronto. Flip Zimmerman (Adam Driver) .''

O enredo aborda um tema importante nos Estados Unidos e no mundo, o racismo contra negros e também judeus. Envolvente, ele não só faz o público torcer pelo personagem de Washington como também vibrar com suas conquistas como detetive. 

Algo interessante também é que o filme faz o espectador analisar e comparar os discursos dos movimentos ali. De um lado, a fala de ódio usada pela Klu Klux Klan que chega a dar nojo quando cita o 'verdadeiro branco americano' e do outro o dos negros que não lutam para ser melhores ou superiores, mas para que todos sejam vistos como seres humanos e querem poder para todos e todas. 

Cenas do polêmico e racista 'O Nascimento de Uma Nação' (1915) são mostradas para contextualizar como se dão o reais encontros do grupo extremista e vemos o terror que seria ir a um desses eventos. Lee aproveita ainda para evocar um protesto extremista feito o ano passado, nos Estados Unidos, e juntar a fala do então presidente do Pais, Donald Trump. Mais aterrorizante ainda.
  
Mesmo exibindo um momento sério da história norte-americana, o longa contem muito humor e não se desequilibra em nenhum momento. Há tempo para muita ação e pitadas leves de romance e bromance, afinal, Ron e Flip acabam quase virando uma dupla quando um deles se passa pelo outro ao entrar para o KKK.


O elenco vem cheio de boas surpresas. David John Washington é filho de Denzel Washington. Tem experiência na indústria como produtor e algumas como ator. Esteve em curtas, séries e até tem no currículo a produção Malcom X, também dirigida por Spike Lee com seu pai e avó no elenco. Aqui ele brilha sem se quer lembrar Denzel e convence a quem assiste que é sim um ótimo ator. Adam Driver, que recentemente se juntou ao cast da nova retomada dos Jedis no cinema, esteve também na série Girls (HBO) e em diversos filmes indies como ''Frances Ha'',  ''Patterson'' e o recente ''Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe'' (disponível na Netflix) faz uma ótima dupla com Washington e entrega todas as características que seu papel pede. A lindíssima Laura Harrier, do teen Homem Aranha: De Volta ao Lar, é o interesse amoroso de Ron e tem destaque não por isto, mas por trazer uma mulher forte e que luta pelo movimento sem parar. Corey Hawkings faz uma pequena participação, mas também deixa seu recado.  
  
Topher Grace, Jasper Pääkkönen, Ashlie Atkinson, Ryan Eggold e Paul Walter Hauser, são alguns dos atores que interpretam os membros da KKK e o fazem com primazia. Grace abraça a causa de um norte-americano político e defensor dos brancos como a figura pública David Duke, Pääkkönen interpreta o revoltado Félix e Atkinson sua esposa devota já Ryan vive o líder do grupo Walter e Paul o bobão Ivanhoe que é, de certa forma, um alivio cômico bem torto para o filme.        

 Nas cenas finais do filme, é realizada uma cerimônia de batismo na KKK.

O longa é produzido pelo ator, diretor e roteirista Jordan Peele (Corra!) e também pelo produtor Jason Blum da Blumhouse Productions. Peele foi quem, na verdade, apresentou a história a Spike Lee e este aceitou, pois queria conta-la com várias sub-camadas e usando o humor. O diretor é também roteirista em parceria com o trio David Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmott e juntos, eles preferiram alterar dados que estão no livro para engrandecer a linguagem cinematográfica. E mesmo que usem de 'conveniências' para dar base a escolha não deixam de utilizar elementos surpresas.

Com muita técnica e coragem, a condução de Lee utiliza câmera em mãos, faz takes com enquadramentos mais tortos e, claro, coloca sua marca ao trazer a movimentação dos personagens como se estivessem flutuando ao se aproximar da tela. Apenas espetacular.

 A trilha sonora é assinada por Terence Blanchad (escute) e há uma seleção de músicas no filme que fazem toda a diferença (disponível aqui). Em certo momento, antes de tudo ficar muito sério ouvimos ''Oh, Happy Days''. Na balada dos estudantes universitários, o soul domina a pista e ao fim dos créditos ouvimos a inédita ''Mary Don't You Weep'', um Jazz esperto cantado pelo falecido Prince.

 Figurino, direção de arte, fotografia e todos os aspectos técnicos da produção são essenciais para nos fazer voltar no tempo e adentrar a década de 70.

Ficha Técnica
Titulo original: BlacKKKlansman, 2018. Direção: Spike Lee. Roteiro: David Watchel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee - baseado nos livro de memórias de Ron Stallworth. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Isiah Whitlock Jr., Robert John Burke, Brian Tarantina, Ken Garito, Michael Buscemi, Ryan Eggld, Corey Hawkins, Jasper Pääkkönen, Paul Walter Hauser, Ashlie Atkinson, Topher Grace, Laura Harrier. Gênero: Biografia, crime, policial, drama. Fotografia: Chayse Irvin. Trilha Sonora: Terence Blanchad. Edição: Barry Alexander Brown. Distribuidora: Universal Pictures do Brasil. Nacionalidade: Eua. Duração: 135min.

 Daqueles filmes que fazem o coração pulsar, o estômago se retorcer e que não deixam de te fazer gargalhar.

Avaliação: Três mãos ao alto e setenta e nove brothers e seus 'black powers' (3,79/5).
 
22 de novembro nos cinemas!

Consulte a programação oficial do BIFF em: www.biffestival.com
See Ya!

-B

Escrito por Bárbara Kruczyński

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