Distribuição: Paris Filmes

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar


Seguindo uma referência cinematográfica de alta qualidade (, de Frederico Fellini), "Dolor Y Gloria", titulo original do novo filme de Almodóvar, faz um passeio pelas memórias de infância do diretor espanhol de maior sucesso no mundo e revela suas angústias e recaídas pessoais.

Escrito e dirigido por ele, o filme vem ainda para auto analisar uma carreira de sucesso que foi permeada por seus desencontros amorosos, a relação com a mãe e até com os atores de seus filmes. 

A produção contou com pré-estréia em Madrid, logo no inicio de maio, e no mesmo mês foi apresentada no Festival de Cannes onde concorreu a quatro prêmios: a Palme d'Or, Palm Queer, Melhor Trilha Sonora e também Melhor ator para Antonio Bandeiras, que vive Almodóvar no filme. Estes dois últimos, o longa venceu.

'Dor e Glória' chega hoje aos cinemas de todo o país.


Ficha Técnica
Título original e ano: Dolor Y Gloria, 2019. Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Antonio Bandeiras, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Rosalía, Nora Navas, Julieta Serrano, Asier Etxeandia, Raúl Arévalo, Cecilia Roth, Cesar Vicente, Agustín Almodóvar,. Gênero: Drama. Nacionalidade: Espanha. Trilha Sonora: Alberto Iglesías. Fotografia: José Luis Alcaine. Edição: Teresa Font. Direção de arte: María Clara Notari. Figurino:  Paola Torres. Distribuição: Universal Picures Br. Duração: 01h52min. 
Na trama, Almodóvar ganha o nome fantasia de Salvador Mallo  (Bandeiras). Mallo é um melancólico cineasta e um belo dia é solicitado para apresentar um de seus primeiros trabalhos ao lado do ator principal do filme, Alberto Crespo, personagem de Asier Etxeandia. O pedido lhe é estranho, pois na época do lançamento da produção o diretor e o ator se estranharam públicamente devido ao primeiro não ter gostado nada da pouca entrega de Crespo ao papel. Ainda assim, Mallo se põe a rever a película e acaba querendo não só apresentar, mas retomar o contato com o ator. A partir do reencontro, o diretor revisita seu passado quando criança, sua forte conexão com a mãe, interpretada por Penélope Cruz na fase jovem e por Julieta Serrano na fase mais velha, seus primeiros desejos sexuais e até o reaparecimento de um amor argentino, há muito esquecido, Leonardo Sbaraglia vive o personagem, as mudanças de endereço e cidade, sua força para criar, escrever e dirigir e também o inicio do vicio em heroína e seu problema constante em engasgar ao comer ou beber algo. 


O roteiro escolhe nos entregar uma trajetória sem exatamente seguir em linha reta. Assim, ao mesmo tempo que vemos Mallo passar por dificuldades na fase adulta também o assistimos voltar aos tempos de criança. Um uso reflexivo ainda que ele não esteja sobre o efeito de nada. Mas que de fato complementa as cenas onde este olha para a câmera pensativo ou até está na piscina nadando. Sua vontade em conversar novamente com Crespo o instiga a conhecer um novo mundo, mas também o faz mandar desculpas ao seu eu do passado, mesmo que o do futuro tenha muito a aprender e não tenha mudado tanto assim de opinião. 

De poucos amigos e amigas, ele quase sempre é visto em casa, escrevendo ou lendo. E tem ali apenas a empregada como companhia. A perda da mãe é feita com muita delicadeza ao mesmo tempo que ainda criança se assiste os encorajamentos da mulher ao filho inteligente. Há um jogo dramático altamente bem dosado a diálogos incríveis ou ainda a narração que Banderas executa. Vemos os pedidos de ida do cineasta famoso para lugares que nem ele sonha que seus filmes chegaram. E qualquer motivo para comédia se faz bem vindo.

Há muita sutileza em revelar as camadas desta vida tão artisticamente geniosa, até mesmo para falar da sexualidade do cineasta e também do vício em drogas que ele adquire mais velho ao se deparar com seus dilemas e traumas não superados. 


A técnica do filme é exemplar e não estaríamos falando de Almodóvar se não o fosse. Figurino, caracterização, direção de arte, fotografia, trilha sonora (ouvir aqui), edição, tudo é milimetricamente pensado para embasar cada escolha do roteiro. 

Bandeiras, que trabalha com Almodóvar pela oitava vez,  não só ganha roupas a cara do cineasta como também passa a usar os famosos óculos escuros e também aparece mais grisalho e com o cabelo bagunçado. Rola um beijo classudo entre este e o ator argentino Leonardo Sbaraglia que esquenta muito o clima do filme, mas não passa de um belo reencontro. Um retorno saudoso ao passado. Nas cenas com Etxeandia, há um crescimento óbvio dos dois. E palavras e ações contornam uma ligação que vence vinte anos de barreira. Penélope, em sua sexta colaboração com o diretor, encarna um papel lindo e que só ela teria espaço para o fazer. Mais a frente este mesmo personagem vem com a força de Julieta, que aliás já foi mãe de Banderas em outras películas, e um ciclo se fecha.  

Aos fãs do diretor, é um presente lindo. A quem sempre o achou polêmico demais aqui vai encontrar a dose certa para vir a admirá-lo.

Avaliação: Quatro pulos em si mesmo (4/5).


Hoje nos cinemas.

See Ya!

B-

Escrito por Bárbara Kruczyński

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