Depois A Louca Sou Eu | Assista nos Cinemas

 
A romancista, contista, cronista e roteirista brasileira Tati Bernardi já trabalhava com a diretora Julia Rezende quando estava escrevendo o livro ''Depois a Louca sou eu'' (ver aqui) e a idéia para o filme surgiu. Rezende até conta que a trama não vinha totalmente definida, com um fio narrativo contendo inicio, meio e fim, mas que sentia a potência da personagem e que a adaptação poderia ser sim realizada por tocar fundo em feridas sensíveis do mundo atual, os dramas de ansiedade e ataques de pânicos.

Rezende e a produtora Mariza Leão encararam o desafio de levar às telas o universo interno, caótico e intenso de uma personagem disfuncional e suas relações familiares e afetivas. O roteiro é assinado por Gustavo Lipsztein e este criou uma linha narrativa contínua e sagaz, que aborda um assunto dramático com leveza e pitadas de humor. Seguindo a premissa que, à medida que um fato, antes tenso e doloroso, é visto com distanciamento, é possível rir do mesmo e analisá-lo sob outro prisma, teremos uma história com idas e vindas e lembranças, como uma análise ou terapia.

A personagem central é vivida por três atrizes, Duda Batista, Beatriz Oblasser, Débora Falabella, e uma conexão perfeita se estabelece entre elas ao nos apresentar a vida de Dani, desde pequena enfrentando seus monstros interiores até os dias nebulosos da vida adulta. Dani se descreve como um frágil saco de bolinhas de gude, que pode se romper a qualquer momento, se perder ou se quebrar. A partir daí, temos um excelente trabalho de toda equipe, utilizando uma estética rica em cores, lentes especiais que se aproximam da face como se entrassem na mente da personagem e uma linguagem gráfica com detalhes primorosos. Teremos como resultado final uma obra que traz excelência e qualidade nos muitos detalhes que compõe as micro cenas da história.

Para entender como a fotografia trabalha no longa, basta percerber como o vermelho (momentos de crise) e o verde (momentos mais suaves) aparecem por todo filme e codificam as mensagens. O figurino bem pensado e estiloso da personagem traz uma mulher moderna e fashion, a trilha sonora bem como os efeitos de sonoros e as transposições feitas com animações nos transmitem o ritmo frenético das emoções de Dani. A edição tem um papel crucial para nos fazer imergir no fluxo de consciência e viagens da vida desta mulher tão fascinante. 

Trailer


Ficha Técnica

Título original e ano: Depois a Louca sou Eu, 2021. Direção: Julia Rezende. Roteiro: Gustavo Lipsezin - adaptação do livro homônimo de Tati Bernardi. Elenco: Debora Falabella, Yara Novaes, Gustavo Vaz, Debora Lamm, Beatriz Oblasser, Cristina Pereira, Romulo Arantes Neto, Evandro Mesquita, Duda Batista. Gênero: Comédia, Drama. Nacionalidade: Brasil. Trilha Sonora Original: Berna Ceppas. Técnico de Som: Felipe Machado. Fotografia: Pablo Baião. Edição: Maria Rezende. Figurino: Mel Akerman. Direção de arte: Fabiana Egrejas. Coprodução: Miravista e Globo Filmes. Distribuição: Paris Filmes e Downtown Filmes. Duração: 01h26min. Classificação: 16 anos.

Na trama temos a pequena Dani que desde criança demonstrava pequenas crises que não eram levadas à sério pela família. A mãe Silvia (Yara de Novaes), super protetora e também com questões pessoais não resolvidas, tentava amenizar as crises e resolvê-las com terapias alternativas, que só traumatizavam mais a criança. A Nona, numa bela participação especial de Cristina Pereira, achava que era bobeira. Por aí já se via na relação avó-mãe-filha as raízes da dependência e controle emocional tóxico. Uma família disfuncional gerando uma personalidade ansiosa.

Dani e Silvia carregaram pela vida essa relação de amor/não amor, com chantagens emocionais e dependência. Dani cresceu sem saber definir ao certo quando suas crises começaram. Mas o fato é que elas se intensificaram no decorrer dos anos e a constante busca por soluções milagrosas não surtiram efeito. O resultado foram relações amorosas problemáticas e sofridas. No campo profissional também se viam os efeitos da ansiedade.


O humor traz para a discussão um assunto que precisa ser encarado com seriedade. Logo, se torna difícil ver o filme e não se identificar ou lembrar de alguém em alguma situação. O fundo do poço chega com uma simples receita médica de uma pílula mágica. A primeira é pura euforia e felicidade, mas o excesso levará ao caos. Assim, durante as quase uma hora e trinta minutos de filme, acompanhamos a trajetória de uma escritora de talento tentando vencer seus fantasmas de estimação que a acompanham pela vida afora. Certamente o filme fará o público repensar relações, sentir como os momentos absurdos fazem sentido e refletir a partir dai sobre uma doença séria e verdadeira, que muitas vezes é sub valorizada. 

Depois a Louca Sou Eu teve sua estreia adiada devido à Pandemia, mas chega aos cinemas em um momento bem importante, onde o distanciamento social favoreceu o surgimento de novos casos e crises deste tipo.

Assista, reflita, converse a respeito e, se preciso, procure ajuda especializada.

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Helen Nice

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