Dom | Amazon Prime Video

A plataforma Amazon Prime Video, investindo no crescimento do streaming e reconhecendo toda a América Latina como um mercado promissor e com forte aderência às tecnologias, apostou forte e, em em pouco tempo já apresenta um acervo consistente de produções próprias. Na última sexta-feira,  o público pôde conferir a estréia de mais uma história rica, envolvente e que apresenta personagens bem singulares. Estamos falando de Dom, série inspirada em fatos e que,  sem dúvidas, é um trabalho belíssimo para marcar presença do audiovisual brasileiro no exterior. 

O lançamento ocorreu de forma simultânea em mais de 240 países com dublagem e legendagem em inúmeras línguas o que abre alas a grandiosidade da série para corresponder não só as expectativas de sucesso da obra, mas também da imersão do público.

Os primeiros passos dessa trajetória aconteceram há 12 anos, quando o showrunner Breno Silveira teve os primeiros contatos com o pai de Dom na vida real. Esse pai bastante insistente e emocionado, queria contar detalhes íntimos de um amor sem igual pelo filho, que a mídia havia transformado em um ser sem sentimentos. Ele mesmo, um viciado em adrenalina, expunha uma paixão imensa pela história que seria sua última oportunidade de mostrar os dois lados de uma mesma moeda. Um pai dedicado se despedindo do amor de sua vida, enquanto escrevia toda essa jornada ainda no hospital.

Tempos depois, Victor que já enfrentava uma grave enfermidade devido ao excesso de tabaco, viria a falecer, deixando relatos preciosos que precisavam ser contados. O desafio: adaptar a vida real para um roteiro de ficção! E Breno Silveira e Vicente Kubrusly assumiram a tarefa. Teriam que ordenar uma série de fatos, que não aconteceram necessariamente em ordem lógica, e dar sentido para a compreensão do espectador. Com esse intuito foi formada uma sala de roteiro, onde olhares distintos, como a presença feminina e de minorias, deram vida aos personagens, partindo dos depoimentos de Victor, com auxílio do músico e escritor Tony Belotto, que viria a escrever um livro também, a partir da obra O Beijo da Bruxa.

Muito material e muito estudo depois, a equipe conseguiu criar uma teia que amarra os acontecimentos indo da infância de Dom até sua vida adulta, contando também detalhes da vida de Victor como policial civil. Trajetória profissional, aliás, que presenciou a entrada da cocaína no Brasil e nas comunidades do Rio de Janeiro. O roteiro bem costurado, vai e volta no tempo com fluidez e coesão. As épocas se comunicam e se explicam. É um trabalho artesanal, com um resultado excelente. Passado e presente desfilam em cada capítulo retratando detalhes de época nos figurinos, na coloração, na mudança de caracterização que vai desde 1970 até os anos 2000. Aproximadamente 170 locações e atores de idades diferentes formam um quebra cabeça gigante baseado em muita pesquisa. A trilha sonora original, composta por Antônio Pinto, é perfeita e envolvente transportando cada cena para sua época e lugar. A produção ficou a cargo de Renata Brandão e Ramona Bakker da Conspiração.

Não é mais uma série que aborda o narcotráfico, é um relato de vidas e, principalmente, uma declaração de amor desse pai ao filho, perdido tão prematuramente.


Pedro Machado Lomba Neto (1981-2005), o Pedro Dom (papel de Gabriel Leone). Jovem louro, bonito, foi um conhecido criminoso brasileiro de classe média carioca, chefe de uma quadrilha especializada em assaltar apartamentos de luxo no Rio de Janeiro. Filho do policial Victor Dantas interpretado na série por Flávio Tolezani, com forte envolvimento no combate às drogas, Pedro teve sua primeira experiência aos nove anos. A curiosidade infantil por algo que ele considerava apenas um "boberígeno", a maconha, foi uma viagem forte e marcante junto com seu melhor amigo e irmão de aventuras, Lico (Ramon Francisco). Dom passou a frequentar as ruas e as comunidades locais. Um mundo totalmente diverso de sua vida burguesa de classe média. A cocaína foi o passo seguinte.

Vieram as primeiras mentiras, pequenos furtos para financiar o vício e o desespero da família. Os pais, já separados, se empenhavam em tentar controlar as fugas de Pedro. Inúmeros tratamentos. longas internações e o famoso jeitinho do pai policial para livra-lo da prisão. Nada surtia efeito. O pai desesperado, permitiu que o filho fosse detido e mandado para uma instituição como última tentativa de mantê-lo longe das drogas. O que para uns funciona, para ele foi inútil. O local só serviu de escola e colocou Dom em contato com assassinos, traficantes, ladrões que se tornariam seus companheiros de quadrilha. Dali em diante, as mudanças fisionômicas do rapaz são nítidas.

A cena final do último episódio foi gravada dias antes do Rio se fechar, devido à Pandemia, em 2020.

A primeira namorada, também usuária, e uma 'amiga' incentivaram Dom a assaltar prédios de luxo, onde ele entraria sem suspeita por ser branco, desenvolto, bonito. As duas garotas, Viviane e Jasmin, papeis das atrizes Isabella Santoni e Raquel Villar, respectivamente, já eram parceiras de outro traficante e com astucia formataram um elemento forte e inteligente moldando-o para uma vida de crimes. Assim surgiu uma quadrilha bem organizada, onde cada um usava suas habilidades para determinadas ações. E a partir deste momento, Dom se distancia de seu amigo de infância.

Totalmente dependente, nosso protagonista vivia uma vida de luxo, com roupas de grife e ao mesmo tempo se refugiava na comunidade onde era conhecido e aceito. Gabriel Leone encarnou o trabalho com primazia e criou um personagem forte, bonitão e maior que o próprio roteiro. O ator soube explorar o silêncio como forma de expressão, criando tal intimidade, que convida o expectador a se colocar no lugar do personagem e sentir seu drama pessoal e dores. São ocasiões na quais onde nada precisa ser dito, a própria cena transmite a emoção. Pedro era dono de um sorriso carismático, um ser solar que se embrenhou em caminhos obscuros. Gabriel representou muito bem essa dualidade em sua personalidade. As cenas dos efeitos da cocaína e as crises de abstinência são impactantes. Vítor era uma montanha russa de emoções e os atores Felipe Bragança e Flávio Tolezani passam essa força nas diferentes fases da vida.

A trama não tem caráter documental, e aí está a beleza desta ficção que narra os fatos com responsabilidade. A relação pai/filho é descrita com detalhes durante os 8 episódios da série, como um elo impossível de se romper, apesar dos erros e acertos. Mesmo nos momentos de embate e desencontro, a conexão de amor e esperança de cura não se perde. Pai e filho eram muito parecidos, ambos tinham prazer de viver intensamente, apesar dos dilemas internos. Pagaram um preço alto por suas escolhas e tiveram ambos fins trágicos. A droga mata, seja ele legal ou proibida. 

Trailer

Ficha Técnica
Título original e ano: DOM, 2021. Direção: Breno Silveira, Vicente Kubrusky. Roteiro: Fabio Mendes, Higia Hikeda, Marcelo Vindicato, Carolina Neves,  Breno Silveira. Elenco: Gabriel Leone, Flávio Tolezani, Filipe Bragança, Laila Garin, Wilson Rabelo, Fábio Lago, Mariana Cerrone, Isabella Santoni, e Raquel Villar. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Edição: Renato Itaboray. Fotografia:  Leo Resende Ferreira, Daniel Primo e Adrian Teijido. Produção: Amazon Studios. Disponível no Amazon Prime Video. 8 Episódios com duração de 61min. Classificação Etária: 18 anos. 
Uma série com linguagem instigante, que conversa com o universo do cinema à medida que cria uma coesão entre lugar, tempo, paisagens, ambientes e trilha sonora. Preocupada com a ordem cronológica e editada a partir de cenas construídas dia a dia, em ambiente real, guardados os devidos desafios de se filmar dentro das comunidades, com locações de difícil acesso, sem contar os mais de 500 figurantes. O resultado são cenas vivas, com a câmera se movendo em planos soltos em um processo dinâmico que traz mais riqueza de pormenores.

Prepare-se para mergulhar em um mundo pesado, denso, complexo e com um nível de realismo impressionante. Que acima de tudo fala de uma tragédia familiar, de laços que vão além da violência e que poderiam ter acontecido em qualquer lugar do mundo, com qualquer um de nós. Outro acontecimento relevante é conhecer a trajetória da droga que transformou socialmente o Rio de Janeiro é universal e isso faz com que as identificações com os personagens se deem muito naturalmente, permitindo que a obra seja levada a outros países e outras línguas e transmita um outro olhar sobre a realidade brasileira. Por fim, vale saber que Dom é uma história que emociona, pois fala de seres humanos, sem julgamento ou apologia as drogas.

Oxalá tenhamos uma segunda temporada!

Assista no PRIME VIDEO (clique aqui).

última edição em 07/06/21

Escrito por Helen Nice

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