Ménage, de Luan Cardoso

A Política em muito se assemelha ao gênero do Horror. Um conceito familiar que se reinventa em meio ao uso exagerado de clichês e que sempre nos surpreende quando menos esperamos. Ambas ideias carregam um peso abstrato de ambiguidade e conflito, um jogo no qual a moralidade nem sempre é palavra de ordem. Muito pelo contrário: tanto a Política quanto o Horror se alimentam de um aparente fascínio pela figura vilanesca, cuja ética flexível lembra as demais pessoas que uma simples escolha pode transformar mártires em antagonistas. Ménage, primeiro longa ficcional do cineasta paulista Luan Cardoso, não é um filme de Horror. Mas este inquietante thriller que usa a política brasileira como pano de fundo usa elementos suficientes do gênero para soar como se fosse.

No enredo, três políticos desbocados acabam envolvidos num crime acidental que pode vir a afetar suas carreiras. Para que o “mal entendido” não venha a público, uma série de decisões questionáveis são tomadas, e uma intrigante trama repleta de drogas, corrupção e paranoias se desdobra diante do trio.

Ménage não faz muita questão de se explicar. A narrativa não-linear de seu roteiro, potencializada pela frenética montagem que entrecorta imagens de forma desconcertante, parece querer justamente desorientar o público, usando cada cena para despreparar para a seguinte. O desenvolvimento tanto do enredo quanto dos personagens é permeado de constante construção e desconstrução, de modo que sua história aparentemente previsível ganha tons surreais e absurdos a cada virada.
 

Esta não é uma história de heróis. Os personagens de Ménage são criaturas características de seu mundo feio: desprezíveis, corrompidas, seduzidas pelo poder. A Política é usada como plataforma de ganho pessoal; mulheres são meras figurantes, tratadas como objetos descartáveis. Não espera-se que se tenha empatia por nenhuma destas pessoas, mas isso não impede que o público se identifique em algum nível com elas. A construção destas personas faz questão de deixar claro que seu egoísmo não é algo inerentemente derivado do sistema político, mas sim de uma estrutura de privilégios nepotistas que vive para manter o jogo de cartas marcadas que beneficia poucos.
 

Cardoso é novato na ficção de longa-metragem, mas veterano no audiovisual. Esta experiência fica explícita em tela. Com uma direção segura e cheia de personalidade, o diretor cria uma ambientação desconfortável, dando toques de bizarro dentro do familiar. Suas escolhas estéticas nunca são óbvias, o que se traduz numa coletânea de cenas assombrosas e criativas que apenas expandem e aprofundam as possibilidades narrativas de sua estrutura complexa. Ainda que sua história nem sempre pareça coerente, os sentimentos despertados pela potencialidade imagética da obra de Cardoso guiam o público no escuro por este universo de intrigas e traições. Em sua conclusão, uma aterrorizante alegoria de cunho social, lembrando como a vida real pode ser lida como assustadora e imprevisível. Mais uma vez: Ménage não é um filme de Horror. Mas, assim como a Política, por vezes faz parecer que é.
 
Trailer

 Ficha Técnica
 
Título original e ano: Ménage, 2022. Direção: Luan Cardoso. Roteiro: Luan Cardoso, Lucca Bertollini, Ana Souto - a personagem Maria Critstina é uma idéia original de Nanna Ajzental e seu conto ''Escroto''. Elenco: Vinícius Ferreira, Francisco Gaspar, Lino Camilo, Elisa Telles, Ana Souto, Lorena Anderaos. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Trilha Sonora Original: Kiko Dinucci, Rodrigo Campos. Direção de Fotografia: Luan Cardoso, Vinicius Duran. Edição: Luan Cardoso. Direção de Arte: Gustavo Musteikis. Design Gráfico: Will Costa. Figurino e Maquiagem: Alice Martins. Casting: Leonardo Medeiros, Francisco Gaspar. Som Direto: Arthur Thiesen. Finalização e Desenho de Som: Pedro Vinci e Luan Cardoso. Colorização: Duda Malburg. Produção: Luan Cardoso. Produção: Ana Souto, Daniella Origuela, Lucca Bertollini. Co-Produção: Leonardo Medeiros, Pedro Vinci, Fernando Rischbiter. Produção Executiva: Paulo Rocha, Thais Campos, Rapael Ricci. Distribuição: Lira Filmes. Duração: 86min.

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Escrito por Petterson Costa

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