quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Zafari, de Mariana Rondón | Assista nos Cinemas


“O hipopótamo está com fome: ele está comendo terra!”


Um dos aspectos mais interessantes dos filmes com atmosfera distópica, situados num “futuro próximo”, é que aquilo que os seus enredos apresentam como atordoante pode estar acontecendo nos dias atuais, sendo válidas as comparações com situações contemporâneas. E, obviamente, a associação entre o que é mostrado em “Zafari” (2024) e o modo espalhafatoso com que as condições socioeconômicas da Venezuela são apresentadas em telejornais  surge como chamariz imediato. Ainda que a película prefira abordar a lógica política em seu aspecto mais elementar: o modo como as pessoas se relacionam com quem está ao seu redor… 

Dirigido por Mariana Rondón, responsável pelo famosíssimo “Pelo Malo” (2013), este filme possui outro aspecto que o diferencia positivamente em relação às tramas advertentes sobre algo prestes a acontecer: não explica em excesso, prefere que o espectador preencha as lacunas que desencadearam aquilo que é exposto no entrecho, prestando atenção ao desenvolvimento das relações entre os personagens. 

Nos créditos de abertura, a música suave da compositora Pauchi Sasaki é sobreposta à focalização de uma piscina idílica, num condomínio de luxo. Por razões que não compreendemos, cabe ao casal Ana (Daniela Ramírez) e Edgar (Francisco Denis) a administração desta piscina, e a mesma está quase sempre vazia, exceto por uma garotinha que nada sozinha. Até que algo inusitado acontece numa moradia ao lado, onde há um zoológico: chega um hipopótamo de oitocentos e oitenta quilos, o Zafari do título! 

Logo se compreende que aquelas pessoas vivem em estado de penúria: víveres, água potável e material de limpeza são escassos, e Ana vasculha os apartamentos vazios, em busca de algo que possa se apropriar, para alimentar a si mesma, ao marido e ao filho Bruno (Varek La Rosa). É quando, de repente, uma família extensa requer o direito de também nadar na piscina. É apenas o começo do acirramento de conflitos entre estas pessoas! 

Crédito de Imagens: Artefactos S.F, Klaxon Cultura Audiovisual, Paloma Negra Films, Quijote Films, Selene Films, Still Moving, Sudaca Films - Vitrine Filmes - Divulgação
O longa contou com passagens no San Sebastián International Film Festival e pela Mostra Internacinoal de Cinema, no último ano

De comportamento iracundo, Edgar recusa-se inicialmente a permitir que seus vizinhos usufruam da piscina, mas é obrigado a ceder, depois de uma votação interna entre os moradores do condomínio. Como e por que eles estão ali é algo que não sabemos direito, mas fica evidente que todos desejam fugir, o que é dificultado pela existência de gangues de motoqueiros que saqueiam a cidade de Caracas (nota: um dos motivos para as filmagens ocorrerem na República Dominicana). Por conta disso, Ana, Edgar e Pedro tornam-se cada vez mais confinados, demonstrando a validade de uma afirmação do marido da protagonista, que alega que “a fome prolongada faz com que as pessoas fiquem inicialmente ansiosas, e logo selvagens”. Infelizmente, procede! 

Dentre as pessoas com quem Ana interage no condomínio, estão Francisco (Juan Carlos Colombo), um senhor idoso que sofre de Mal de Alzheimer, e um jovem apelidado de Mata-Cachorros (Claret Quea), que confirmará a adequação de seu apelido numa seqüência atordoante, envolvendo uma zebra. O detalhe perturbador: por algum motivo, a família escolhida (pelo Governo?) para cuidar do zoológico possui alguns benefícios tangenciais, mas a maior parte da comida que eles recebem é direcionada apenas aos animais. Conforme se teme, esta também começa a rarear…

Trailer

Ficha Técnica


Título Original e Ano: Zafari, 2024. DireçãoMariana Rondón. RoteiroMariana Rondón, Marité Ugás. ElencoDaniela Ramirez, Francisco Denis, Samantha Castillo, Varek La Rosa, Claret Quea, Juan Carlos Colombo, Alí Rondón. Gênero: Drama. Nacionalidade: Peru, Brasil, Venezuela, México, França, Chile e República DominicanaFotografiaAlfredo Altamirano. MontagemIsabela Monteiro de Castro. SomFranklin Hernandéz, Graciela Barrault. Desenho de SomLena Esquenazi. MúsicaPauchi Sasaki. Design de ProduçãoDiana Quiróz. ProduçãoMariana Rondón, Sterlyn Ramírez, Giancarlo Nasi, Juliette Lepoutre, Pierre Menahem, Rafael Sampaio, Cristina Velasco L, Jorge Hernández Aldana, Marité Ugás. Produzido porSudaca Films, Paloma Negra Films, Klaxon Cultura Audiovisual, Still Moving, Quijote Films. Coproduzido porSelene Films, Artefactos Films, Spcine. DistribuiçãoVitrine Filmes. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 12 anos.


Enquanto Edgar age de maneira progressivamente psicótica, alegando não mais amar a sua esposa (preferindo masturbar-se a fazer sexo com ela) e apropriando-se egoisticamente das latas de comida que ela esconde pela residência, Ana deambula sem parar pelo prédio, no afã por encontrar algo para suster a sua família. Sua magreza acachapante é exposta mais de uma vez, e o filme atinge píncaros assustadores, fazendo com que o longa-metragem seja assaz contundente em seu discurso de instauração de cautela, desenvolvido através das convenções de terror psicológico. Uma produção muito forte, que é hábil ao encerrar-se de maneira aberta, mais uma vez requerendo que o espectador preencha as lacunas tramáticas com a sua inteligência e sensibilidade. Trabalho excelente de uma realizadora versátil e habilidosa. Recomenda-se de maneira enfática: é ano eleitoral, afinal. É urgente prestar atenção a quem estará nos representando, na iminência de uma crise!

HOJE NOS CINEMAS

(Des)controle, de Rosane Svartman e Carol Minêm


Após retratar nos cinemas, de forma leve e reflexiva, a luta de uma mulher contra o câncer de mama em "Câncer com Ascendente em Virgem", Rosane Svartman, ao lado de Carol Minêm, responsável pela série da HBO lançada em 2025, "Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente", retorna às salas de cinema com outro tema igualmente relevante: a luta para vencer o alcoolismo. O drama (Des)Controle, mais uma vez, é vivido sob a perspectiva feminina. No papel da protagonista, Kátia Klein, está Carolina Dieckmann (O Silêncio do Céu, dir. Marco Dutra, 2016). O elenco conta ainda com Caco Ciocler, Júlia Rabello, Irene Ravache, Daniel Filho, Iafa Britz, Janamô, Felipe Haiut, entre outros nomes.

Trata-se do retrato de uma mulher à beira do abismo, pressionada pela necessidade de manter tudo sob controle: filhos, marido, carreira, casa, enquanto sustenta uma sobriedade de quinze anos. Kátia Klein, escritora de livros infantis de sucesso, carrega uma luta difícil cujos impactos reverberam não apenas em sua própria vida, mas também na de seus filhos e de todos ao seu redor. Em determinado momento, ela é encontrada deitada em um chafariz no meio de uma praça, vestindo um traje de festa, com o rosto manchado e uma garrafa de vinho na mão. Um despertar para a realidade que escancara suas vulnerabilidades. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr., desde os primeiros instantes, deixa claro a que veio, situando o espectador no universo proposto. Kátia não sabe como foi parar ali e, ao ser abordada por um guarda que afirma que ela está alcoolizada, reage prontamente: “Eu não bebo. Há quinze anos que eu não bebo.”

A trama apresenta, depois disso, essa mãe quase que rigida, certinha demais, que precisa dar conta de tudo. Ela está fazendo o café da manhã, ao mesmo tempo que auxilia o dever de casa do filho mais novo, e ainda faz uma encomenda em um sexshop. Muito atarefada, ela troca tudo que estava fazendo. No endereço da entrega, ela insere os dados do escritório da editora de seu livro. Já a vitamina que batia, joga itens do trabalho escolar do filho, e esse último é preenchido com morangos. Estes são alguns dos conflitos que a mulher vivencia. Aparentemente, casada com Zeca (Caco Ciocler), mas a parceria não se concretiza e ela tem que dar conta de tudo sozinha. Tendo ainda que ir à reunião de pais e escrever seu livro novo. O marido demanda dela atenção, mas não faz muito para tirar de suas costas alguma responsabilidade. Brigas vem à tona, principalmente, quando ela é surpreendida com uma festa de aniversário de casamento e uma viagem de casal. Zeca quer ser um dos itens na lista que demanda tanta atenção de Kátia, mas Katia quer tentar seguir com suas tarefas.

Crédito de Imagens: Migdal Films / Elo Studios, Sony Pictures Brasil - Divulgação
O transtorno vivido pela personagem de Carolina Dieckmmann no filme é um problema de muitas famílias brasileiras. Conhece alguém que precisa de ajuda? contate o A.A.

Representando a mulher moderna, que equilibra todas as esferas da vida com aparente perfeição, a escritora se encontra em uma situação delicada. Ela também precisa de ajuda, mas reluta em pedir, seja por se considerar independente, seja por não querer expor suas fragilidades. Por outro lado, quando o parceiro acredita que é necessário ser solicitado para cumprir qualquer tarefa, até mesmo algo simples como participar de uma reunião dos filhos, acaba por desempenhar o papel de um marido aquém do esperado, ao não compartilhar de forma equitativa as responsabilidades inerentes ao casamento. Os dois sabem que o relacionamento acabou muito antes disso. Amigavelmente decidem se separar. E pronto. Katia precisa redescobrir a vida sexual. Mas essa liberdade recém ganhada não afasta dela a rigidez de sempre e a necessidade do controle. De pouco em pouco, a pressão que ela se impõem vai aumentando, assim como a vontade de sucumbir ao álcool. 

Entre os preparativos para o Bat Mitzvah do filho mais novo, reuniões de pais, o bloqueio criativo, a vida sexual e tantas outras coisas, Katia encontra conforto no copo. E depois vai partindo para a noitada, tentando equilibrar a vida da mulher respeitada, com uma reputação a perder e filhos para cuidar, na sua versão bêbada. Inclusive, decide gravar vídeos para a sua versão sóbria e controlada, com “conselhos” debochados sobre como viver a vida e ser mais relaxada.  Tudo isso enquanto nega que é viciada. 


Trailer

Ficha Técnica
Título original e Ano: (Des)controle, 2025. Direção: Rosane Svartman e Carol Minêm. Roteiro: Felipe Sholl, Rosane Svartman e Iafa Britz. Colaboração no roteiro: Bia Crespo e Gabriel Meyohas. Argumento: Iafa Britz. Elenco Carolina Dieckmmann, Caco Ciocler, Júlia Rabello, Irene Ravache, Daniel Filho, Betina Vianny, Rafael Fuchs Mûller, Manu Guimarães, Assucena Assucena, Hugo Camizão, Thierry Tremouroux, Karla Tenório, Gabriela Sandoval, Mouhamed Hardfouch. Gênero: Drama. Nacionalidade: Braisl. Trilha Sonora Original: Ruben Feffer e Gustavo Monteiro. Direção de Fotografia: Mauro Pinheiro Jr, ABC. Direção de Arte: André Weller. Figurino: Márcia Tacsir e Mel Akerman. Montagem: Marcelo Moraes, edt.. Produção: Iafa Britz e Sabrina Nudeliman Wagon. Produção Executiva: Bárbara Isabella Rocha e Mauro Pizzo. Produção: Migdal Filmes. Coprodução: Elo Studios, Sony Pictures Brasil, RioFilme. Apoio: Globo Filmes. Distribuição: Elo Studios, Sony Pictures Brasil. Duração 

Carolina Dieckmmann está muito bem na pele dessa mulher que luta contra seus demônios e tem horror a pedir ajuda. Ela se orgulha de dizer que parou de beber há 15 anos sozinha, sem precisar ir a um grupo de "Alcoólicos Anônimos". As tremedeiras e os momentos de vulnerabilidade são arrasadores e o público sente toda a virada de chave na cabeça dessa personagem que só quer saciar a vontade de beber e acaba consumida por um monstro. Metáfora utilizada por ela em uma cena linda com os filhos, em que depois de um acidente, admite que está doente.

O texto e a condução notável das diretoras consegue evidenciar como alguém pode chegar a tal situação no decorrer da vida. É emocionante, honesto e sensível ao abordar os dilemas vividos por quem passa por tais momentos e se sente aprisionado. Também leva em conta como quem está perto pode ser atingido e sofrer junto visto o desespero de acompanhar certas cenas e acontecimentos. Assim, ao mesmo tempo que parece que o alcoólatra tem a situação sob controle, pode estar perdido, e, por ser mulher, a personagem chega a por sua vida e bem estar em risco diversas vezes.

Depois de um incidente causado por sua versão bêbada, Katia chega a dolorosa conclusão de que precisa sim, pedir ajuda e vai parar em uma reunião do A.A. No lugar, depoimentos impactantes e delicados, revelam que o alcoolismo é a “doença da negação”. Por fim, o filme é concluído não com as respostas para o vício da protagonista, mas com ela encontrando apoio familiar e uma vida em que a luta contra o vício será diária, mas será vivida um dia de cada vez.

(Des)Controle estréia em todo o Brasil na aguardada "Semana dos Cinema" onde a audiência poderá acessar a produção ao preço de R$ 10,00. A película, que passou pelo Festival do Rio no último ano, tem realização da Migdal Filmes, em parceria com a Elo Studios, Sony Pictures e Rio Filme, apoio da Globo Filmes e chega aos cinemas pela Elo Studios e a Sony Pictures Brasil. A película conta também com Fundo Setorial do Audiovisual.

HOJE NOS CINEMAS