segunda-feira, 31 de agosto de 2026

50ª Mostra anuncia o pôster da edição, com desenho exclusivo de James Gray

  • Cineasta dos Estados Unidos apresenta pessoalmente seu novo filme, Tigre de Papel, na abertura da Mostra para convidados, no dia 14 de outubro, na Sala São Paulo
  • O diretor de Os Donos da Noite (2007), Ad Astra - Rumo às Estrelas (2019) e Armageddon Time (2022) participa de conversa com o brasileiro Walter Salles no dia 15 de outubro na Sala Petrobras na Mostra, no Solar Fábio Prado
  • A 50ª Mostra homenageia Gray com o Prêmio Leon Cakoff e faz uma retrospectiva de suas obras 
 
James Gray criou especialmente para a ocasião o desenho que estampa o pôster da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que acontece entre 15 e 29 de outubro. Ele dirigiu Tigre de Papel, que abre a edição histórica no dia 14 de outubro, em sessão para convidados na Sala São Paulo, com a presença do cineasta.

Além de apresentar Tigre de Papel pessoalmente na abertura e assinar a arte do pôster desta edição histórica da Mostra, Gray recebe o Prêmio Leon Cakoff e participa de sessão dupla de filme e conversa com o cineasta brasileiro Walter Salles no dia 15 de outubro, na Sala Petrobras na Mostra, no Solar Fábio Prado, administrado pela Fundação Padre Anchieta. O evento será aberto ao público, mediante compra de ingresso. Os detalhes sobre a aquisição de entradas serão informados pela Mostra nas próximas semanas. A 50ª Mostra também promove uma retrospectiva com as obras de James Gray, com títulos a serem confirmados em breve.

Diretor de Os Donos da Noite (2007), Ad Astra - Rumo às Estrelas (2019) e Armageddon Time (2022), exibido na 46ª Mostra, Gray é um dos maiores cineastas norte-americanos contemporâneos. 
                                 
                                                  Pôster da 50º edição da Mostra Internacional de São Paulo 
                                                                 Por James Gray, Divulgação
 
Em seus filmes, quase todos passados em sua cidade natal, Nova York, ele trata de temas como relacionamentos familiares complexos, o senso de dever, as repercussões da história e a imigração — seus avós eram judeus russos —, de forma muito pessoal. Admirado por cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, com quem é constantemente comparado, faz obras que descreve como operísticas. Elas são realistas, mas sem medo da emoção genuína. 

Tigre de Papel, produzido pela brasileira RT Features, de Rodrigo Teixeira, em parceria com Leone Film Group e Keep Head Productions, foi exibido em competição no último Festival de Cannes. No Brasil, o longa é distribuído pela Diamond Films, com estreia comercial prevista para 7 de janeiro de 2027.

Estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o filme acompanha dois irmãos com perfis bem diferentes. Enquanto o engenheiro Irwin Pearl (Teller) construiu uma vida modesta com sua esposa Hester (Johansson) e seus filhos, seu irmão Gary (Driver) seguiu um rumo solitário e fez carreira no departamento de polícia. Seus caminhos voltam a se entrelaçar quando Gary apresenta uma oportunidade de negócios irresistível para o irmão. Porém, o que parecia a garantia de um dinheiro fácil se transforma em um pesadelo envolvendo a máfia russa, que colocará as vidas de quem amam em risco.

PATROCINADORES DA 50ª MOSTRA
Neste ano, a Mostra conta com o patrocínio master da PETROBRAS, o patrocínio do ITAÚ, a parceria institucional do SESC, a parceria da SPCINE e da Prefeitura de São Paulo, o fomento do ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, a colaboração da EMBRATUR e da NETFLIX, o apoio do PROJETO PARADISO, a promoção da GLOBOFILMES, do CANAL BRASIL, da FOLHA DE S.PAULO, da TV CULTURA, da ARTE 1, do INSTITUTO BANDEIRANTES e da REVISTA PIAUÍ, o apoio técnico da QUANTA e do CULTURA ARTÍSTICA. Realização: MINISTÉRIO DA CULTURA, através da LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA.  

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno, de Ridley Scott


O novo filme do renomado cineasta Ridley Scott, responsável por clássicos como "Alien, o Oitavo Passageiro" (1979) e "Gladiador" (2000), adapta para as telas o romance de estreia do escritor Peter Heller, "Na Companhia das Estrelas" (The Dog Stars, no original), publicado em 2012. A obra, que combina elementos de ficção pós-apocalíptica, sobrevivência e drama humano, foi reconhecida pela Forbes em sua seleção de "melhores livros distópicos de todos os tempos". O roteiro é assinado por Mark L. Smith, conhecido por trabalhos como O Regresso (Alejandro González Iñárritu,2015). No elenco, Jacob Elordi interpreta Hig, protagonista da trama, enquanto Josh Brolin dá vida a Bangley, seu parceiro na jornada de sobrevivência. Margaret Qualley vive Cima, Guy Pearce interpreta Pops, Allison Janney assume o papel de Darlene e Benedict Wong completa o elenco como Aaron.

Hig e Bangley são sobreviventes de uma pandemia que dizimou boa parte da população mundial. O cenário pós-apocalíptico é impressionantemente realista, e justamente por isso, assustador. A produção apresenta um mundo devastado por uma doença que remete a algumas das maiores ameaças sanitárias enfrentadas pela humanidade, tornando sua atmosfera ainda mais próxima e inquietante. Os dois vivem em uma base aérea praticamente destruída, onde, apesar do abandono, algumas aeronaves ainda permanecem em condições de uso. Por sorte, Hig era mecânico antes de o mundo ruir, conhecimento que se tornou essencial para sua sobrevivência.

Antes da catástrofe, Hig também era casado e estava prestes a se tornar pai. Agora, sua única companhia constante é Jasper, seu fiel cão. Já Bangley, com experiência militar, utiliza seus conhecimentos e habilidades de combate para proteger a dupla e garantir que ambos permaneçam vivos em um mundo onde qualquer ameaça pode ser fatal.

           Crédito de Imagens: © 2026 20th Century Studios. All Rights Reserved.
O longa foi rodado em locações da Itália e também nos Studios Pinewood, em Londres na Inglaterra de abril a junho de 2025

A rotina dos dois é marcada por uma luta constante pela sobrevivência. Hig utiliza um pequeno avião para sobrevoar as cidades devastadas e, sempre que possível, recolher alimentos, medicamentos, combustível e outros itens indispensáveis. Bangley, por sua vez, permanece atento a qualquer possível ameaça. Tudo muda quando uma misteriosa transmissão de rádio chega até Hig. O sinal desperta nele a esperança de que ainda exista algum lugar onde a vida possa ter sobrevivido, um possível “oásis” em meio à destruição. A partir daí, ele começa a considerar a possibilidade de abandonar a relativa segurança de sua base e se aventurar pelo desconhecido em busca de respostas.

O filme parte de uma premissa bastante promissora, mas acaba tropeçando no próprio roteiro. Em determinados momentos, a narrativa se prolonga mais do que deveria e perde força, especialmente quando poderia explorar com maior profundidade as consequências daquele mundo devastado. Curiosamente, o filme não está tão interessado em mostrar como o planeta foi destruído, mas em investigar uma questão muito mais íntima: como continuar vivendo quando tudo aquilo que dava sentido à existência deixou de existir?

Trailer


Ficha Técnica

Título Original e Ano: The Dog Stars, 2026. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Mark L. Smith - adaptado da obra de Peter Heller. Elenco: Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin, Guy Pearce, Allison Janney, Benedict Wong, Ewen Bremmer, James Craze. Trilha Sonora Original: Harry Gregson-Williams. Edição: Sam Restivo e Claire Simpson. Fotografia: Erik Messerschmidt. Design de Produção: Chris Seagers. Empresas Produtoras: 20th Century Studios e Scott Free Productions. Distribuidora: 20th Century Studios Brasil. Duração: 01h58min.

A combinação de suspense, sobrevivência e elementos de drama emocional funciona como um entretenimento razoável, desde que o espectador não chegue à produção esperando uma grande experiência cinematográfica. Há boas ideias e momentos de tensão, mas o potencial de sua premissa é maior do que aquilo que o roteiro consegue entregar.

⚠️: pessoas sensíveis a cenas de sofrimento ou violência contra animais devem evitar o filme.

HOJE NOS CINEMAS

Nem Tudo É Paz e Amor, de Betão Aguiar


Nos anos 70, o mundo estava em ebulição. Em plena Guerra Fria, o mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos, contra o mundo socialista, comandado pela União Soviética; guerras como a do Vietnã dizimando milhares de jovens soldados e civis; ditaduras sanguinárias cerceando as liberdades civis e torturando e matando opositores, como o regime militar do Brasil. Neste universo comandado pela morte, surgiu o movimento da contracultura, a geração hippie, que pregava e punha em prática a liberdade total, o uso de drogas para expandir a mente, a revolução sexual e a vida em comunidade.

Era o desejo da "Era de Aquarius", em que a morte abandonaria os noticiários e a realidade seria invadida pelo amor e pela paz, entre cores psicodélicas e desbundes geniais. Independente de localizações geográficas, em todo o planeta calcinado pelo sofrimento, a juventude embarcou nessa proposta. Um destes ícones da mudança foi Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, uma importante banda da contracultura, que ainda reunia entre seus integrantes Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, e que foi responsável por clássicos da música popular brasileira, como "Preta, Pretinha" e "O samba da minha terra".

Paulinho Boca de Cantor teve entre seus filhos o diretor de cinema Betão Aguiar. O Betão, junto com sua amiga de adolescência e produtora cinematográfica, Jasmin Pinho, infelizmente falecida de câncer em 2020, teve a ideia de retratar a vida daqueles que fazem parte dessa geração do paz e amor, de criar um documentário dando voz a estas crianças que já nasceram livres, imersas em uma existência que era uma rebelião constante contra o status quo da realidade brasileira.

Mesmo com a morte prematura da amiga, o diretor prosseguiu com o projeto de retratar e eternizar em película estas vozes dissonantes, personagens estes que, como crianças e adolescentes na época, também queriam pertencer a uma maioria silenciosa. Dessa captura de vozes para a eternidade das telas de cinema saiu o documentário Nem Tudo É Paz e Amor, que estreia esta semana em várias cidades do país com distribuição da Pandora Filmes.

                 Crédito de Imagens: Pandora Filmes, Divulgação
O filme que conta com as participações de Anelis Assumpção, Beto Lee, Paulinho Boca de Cantor, Betão Aguiar, Nara Gil, Sarah Sheeva e Moreno Veloso estreou na Mostra "Panorama Brasil" do 18º In-Edit Brasil em junho

Com total liberdade de fala, os primogênitos destes revolucionários hippies rememoram o que era viver nestas comunidades, onde ter uma mesa de jantar era uma caretice total e a liberdade de ser o que se queria ser era a lei máxima da família, tudo emoldurado por casas em paradisíacas praias baianas, ao som de muita música dos anos 70. Mas essa cultura ao avesso da praticada pelo restante da população cobrava seu preço, e estas crianças às vezes se assustavam em ver como eram diferentes dos amigos de escola, de que usar maconha na varanda não era o comum em todos os lares e de que mesas de jantares e comer nelas era a rotina diária dos coleguinhas.

Esse choque de realidade é exposto em relatos saborosos dos filhos dessa geração fabulosa hippie que mudou os rumos das artes. Os traumas infantis da época, suavizados pelos cinquenta anos que já se passaram, e adoçados pelo amor incondicional dos pais famosos, recebem a luz do dia. Nem tudo era paz e amor, existia o sofrimento de se ser criança e não se enquadrar no “normal” da época.

Trailer



Ficha Técnica

Título original e ano: Nem Tudo É Paz e Amor, 2025. Direção: Betão Aguiar. Fotografia: Fabio Burtin e Bruno Graziano. Participações: Paulinho Boca de Cantor, Helena Ignez, Sarah Sheeva, Anelis Assumpção, Beto Lee, Nara Gil e Moreno Veloso. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração: 86 min.

Esse conflito de gerações é o tema do documentário. Aqui os pais famosos, como Baby do Brasil, Itamar Assumpção, Rita Lee, Gilberto Gil, Caetano Veloso, etc, não são os personagens principais, mesmo que alguns como Helena Ignez ainda falem. Ouvimos principalmente as crianças daquela época, hoje cinquentões, que dividem suas memórias afetivas, suas angústias e que fazem o espectador refletir sobre suas famílias e suas lembranças infantis. Entre eles, Sarah Sheeva, Anelis Assumpção, Beto Lee, Nara Gil e Moreno Veloso.

O diretor Betão Aguiar, também responsável pelo documentário "Samba de Santo – Resistência Afro-Baiana" (2020), cria um delicioso relato autobiográfico de sua infância e adolescência, optando pelo recorte geracional em vez de um relato íntimo. Essa multiplicidade de vozes, contadas paralelamente, e intermediadas por fotos, vídeos e filmes da época, é um poderoso lembrete de como as famílias são as dores e delícias de cada um, de como o ser atual é resultado desse passado, dessa história. Paz, amor, sofrimento e conflito, isso compõe cada um de nós, até os filhos da geração da contracultura. Obviamente que suavizado pelas canções maravilhosas compostas naquela época; a trilha sonora deste documentário é linda. 

Nota: 7/10

HOJE NOS CINEMAS

Coyote vs Acme, de Dave Green

 
Wile E. Coyote passou toda a sua existência perseguindo sua refeição, também conhecida como o incansável Papa-Léguas (bip-bip), e vendo cada um de seus planos mirabolantes para o pegar, fracassar, quase sempre graças aos produtos igualmente mirabolantes da ACME Corporation. Durante décadas, o grande público cresceu acompanhando suas desventuras e torcendo para que suas armadilhas finalmente funcionassem - e não, elas nunca funcionavam. E talvez esteja aí uma das grandes lições do personagem: por mais que tudo dê errado, é preciso continuar tentando. A ironia é que a própria produção acabou vivendo uma situação digna de uma das trapalhadas do Coyote. Depois de ser desdenhado pela Warner Bros. e ficar à beira de ser engavetado, o filme encontrou um caminho para existir além do imaginário do fãs por todo o mundo. Aliás, que bom que, desta vez, a história não terminou em queda livre!

Planejado originalmente para chegar aos cinemas em julho de 2023, o longa em live action e também animado finalmente ganha as telas após a compra de seus direitos pela Ketchup Entertainment. No Brasil, a Paris Filmes é responsável pelo lançamento. E há motivos para comemorar: o filme tem tudo para despertar a nostalgia dos antigos fãs dos Looney Tunes e, ao mesmo tempo, conquistar uma nova geração de espectadores. Logo, é fácil afirmar que a espera valeu a pena: Coyote vs. ACME é um exemplo de perseverança e de como a mobilização do público e da própria equipe de produção pode, sim, fazer barulho e atravessar as decisões de executivos de grandes corporações. Mais do que uma vitória contra o sistema, o filme chega às telas como uma produção genuinamente feita para todos os públicos.
 
Divertido na medida certa, arranca aquelas risadas ingênuas e deliciosas dos tempos em que acompanhávamos desenhos animados na televisão, e, para surpresa de quem espera apenas comédia, também reserva alguns momentos capazes de arrancar lágrimas de emoção. A combinação entre um elenco brabo de atores e animação funciona muito bem. A integração entre os dois universos é convincente e conduz o público para um mundo lúdico, absurdo e extremamente divertido, sem perder o espírito dos personagens clássicos.

Crédito de Imagens: Keylight Pictures, Troll Court Entertainment, Two Monkeys, A Goat and Another, Dead, Monkey, Warner Bros. Pictures Animation, Warner Bros. / Paris Filmes, Divulgação
       A produção foi exibida no último dia 22 de agosto no Melbourne International Film Festival


Na trama, depois de anos acumulando planos fracassados, Coyote reúne todos os aparatos da ACME em uma caixa e parte em busca do advogado picareta Kevin Avery (Will Forte) e de sua sobrinha, Paige Avery (Lana Condor). Sua intenção é processar a poderosa empresa ACME, representada pelo diabólico Buddy Crane (John Cena).

O roteiro se desenvolve como uma comédia de tribunal, colocando o ingênuo Coyote no papel de vítima. E é justamente aí que está o coração da história: sua maior virtude sempre foi continuar acreditando nos produtos da ACME e insistir, tentativa após tentativa, mesmo diante de fracassos retumbantes. Foram anos de vida e dinheiro investidos em produtos que, convenhamos, nunca pareceram muito confiáveis. Essa trajetória cria uma identificação imediata com o público e acrescenta ao filme uma camada emocional que vai além das tradicionais perseguições entre Coyote e Papa-Léguas.

Além da dupla principal, outros personagens do universo Looney Tunes fazem aparições, assim como alguns easter eggs para os fãs. Taz, Pernalonga, Vovó e Piu-Piu marcam presença, com este último assumindo, inclusive, um papel relevante como espião da empresa.

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Coyote vs Acme, 2026. Direção: Dave Green. Roteiro: Samy Burch, James Gunn, Jeremy Slater - baseado no artigo de Ian Frazier e nos personagens de Chuch Jones e Michael Maltese. Elenco e vozes originais: Will Forte, Lana Condor, John Cena, Tone Bell, Martha Kelly, Luis Guzmán, P.J. Byrne, John Early, Nancy Linehan Charles, Kenneth Choi, Ernie Vigil, Eric Bauza, Candi Milo, Jim Cummings, Hayes Hargrove. Dublagem: Felipe Grinnan, Reginaldo Primo, Flora Paulita, Alexandre Moreno, Márcio Simões, Manolo Rey, Sylvia Salustti, Mauro Ramos, Ricardo Juarez, Ronaldo Júlio, Marize Motta. Gênero: Animação, Aventura, Familia, Comédia. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Steven Price. Fotografia: Brandon Trost. Edição: Carsten Kurpanek. Design de Produção: Steve Arnold. Direção de Arte: Peter Borck. Figurino: Daniela Moore. Supervisor de Animação: Ben Anderson. Empresas Produtoras: Keylight Pictures, Troll Court Entertainment, Two Monkeys, A Goat and Another, Dead, Monkey, Warner Bros. Pictures Animation, Warner Bros.. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h41min.

A direção é de Dave Green e o roteiro conta com o super trio Samy Burch, James Gunn e Jeremy Slater, que fazem jus aos personagens clássicos. Há respeito pelo material original, mas também espaço suficiente para construir uma história própria, sem transformar o longa em uma simples coleção de referências nostálgicas.

O resultado é uma produção leve, divertida e nostálgica, que funciona tanto como entretenimento familiar quanto como uma carinhosa homenagem aos velhos tempos dos desenhos animados.

"Coyote vs. ACME" venceu a caneta dos chefões que tantas vezes determinam o destino de uma produção. E, entregando ou não números exorbitantes nas bilheterias, o filme já alcança uma de suas principais metas: chegar ao público e ser visto na tela grande, onde sempre deveria ter estado.
 
HOJE NOS CINEMAS 

Nosso Segredo, de Gracê Passô

 
“Tem gente preta com a pele clara!”
 
 Além de ser uma das atrizes mais potentes de sua geração, a mineira Grace Passô destaca-se também enquanto dramaturga: em sua estréia como diretora de longas-metragens, ela adapta a sua premiada peça “Amores Surdos”, ampliando o escopo teatral para o espaço das ruas de Belo Horizonte, onde Gilson (Robert Frank) dirige como motorista de aplicativo. Na primeira seqüência, ele transporta um senhor que reflete sobre a quantidade de trabalho em sua vida: “antes, eu era um maracujá luzidio; hoje, sou um maracujá maduro”. Ao perguntar se o aparelho de som do veículo de Gilson anda está funcional, este passageiro (interpretado pelo cantor Mateus Aleluia) entrega-lhe um CD: “eu gravo coletâneas”. Está estabelecido o tom misterioso e fascinante do filme… 
 
Ainda tentando compreender o sentido das frases que o passageiro lhe destina antes de entrar em casa, Gilson ouve o CD e depara-se com alguns funcionários da coleta urbana de lixo, que encaram a câmera de maneira sorridente. A música aumenta e pensamos que Gilson é o protagonista do enredo, mas uma gama de personagens é logo apresentada, todos fazendo parte da mesma família. Qual será o segredo anunciado desde o título? 
 
Um dos grandes méritos de "Nosso Segredo" é a importância emocional concedida a situações circunstanciais, como a dificuldade de um casal em desligar uma caixa de som em altíssimo volume ou a conversa embriagada entre Guto (Flip) e uma mulher que ama. Porém, quando o garotinho Tutu (Efraim Santos) entra em cena, ele torna-se o elo em torno do qual os demais personagens transitarão… 
 
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes / Wilssa Esser - Divulgação
O primeiro longa-metragem de Grace Passô conquistou os Kikitos de "Melhor Fotografia", "Melhor Direção de Arte" e "Melhor Filme" no Festival de Gramado deste ano.

 

Interpelando os seus parentes com frases assaz melancólicas (“o mundo é injusto?”, por exemplo), Tutu deixa de ir à escola por estar doente. Conversa em voz baixa com alguém que não vemos e passeia pelos cômodos da casa carregando frutas. Em determinada ocasião, deixa cair uma melancia. Já mencionamos que a diretora é extremamente sagaz ao fazer com que pequenas situações sejam agigantadas emocionalmente, não é? Eis, novamente, um destes casos! 
 
A câmera do filme acompanha os personagens de maneira furtiva, como se estivesse receosa de descobrir o que eles escondem, ainda que a curiosidade seja retroalimentada de maneira inteligente. Neste sentido, a direção fotográfica de Wilssa Esser merece elogios pelo modo como se conjuga à trilha musical de Amaro Freitas, fazendo com que ambos os elementos técnicos assumam-se como personagens acessórios, tanto quanto a direção de arte, que expande os ambientes – e, por extensão, os mistérios – da residência em que todos estão confinados. 
 
O roteiro escrito pela própria diretora é tão efetivo na construção de diálogos que quando descobrimos o segredo – intrigante, mas não tão impactante quanto se imaginava –, o filme perde um pouco do ritmo seguro que demonstra na primeira hora de projeção. Não obstante este decréscimo rítmico, é justamente depois que surge a hipopótama que deparamo-nos com o ritual de repetição de um áudio de WhatsApp, no qual uma lista de materiais de construção é erigida à função de comunhão familiar com alguém que não está mais presente… 
 
Por motivos óbvios, visto que a diretora é mais conhecida como atriz, o elenco afina-se de maneira homogênea, recitando as suas falas de maneira tão solene quanto espontânea. Outro ponto alto: quando Sidney (Juan Queiroz), cunhado de Tutu, explica-lhe a partir de qual momento passou a sentir-se como um rapaz bonito, depois de sofrer ‘bullying’ onde estudava. Nas entrelinhas, os efeitos dolorosos e traumatizantes do racismo enfrentado cotidianamente por aquelas pessoas, em situações anteriores, a ponto de, em reação, Tutu irritar-se com uma vizinha (Gláucia Vandeveld) e explicar que o paquiderme alojado no quarto de cima “só faz mal às pessoas brancas”. No desfecho poético, Gilson reassume algum protagonismo, deitando-se nu numa cama. Filme adulto e aberto a múltiplas interpretações psicanalíticas e também sociológicas. Uma estréia mais que promissora para uma artista completa! 
 
Trailer 

 
Ficha Técnica
 
Título Original e Ano: Nosso Segredo, 2026. Direção e Roteiro: Grace Passô. Elenco: Ju Colombo, Robert Frank, Flip, Jessica Gaspar, Marisa Revert, Efrain Canino Santos, Gláucia Vandeveld, Juan Queiroz. Mateus Aleluia. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Wilssa Esser, DAFB. Direção de Arte: Lucas Osório. Edição: Gabriel Martins, Eva Randolph. Som: Gustavo Fioravante. Trilha Sonora Original: Amaro Freitas. Design de Som e Mixagem: Tiago BelloProdução: Ricardo Alves Jr. (Entre Filmes). Coprodutores: Rachel Daisy Ellis (Desvia Filmes), Julia Alves. Empresa produtora: EntreFilmes. Empresas coprodutoras: Globo Filmes, Desvia Filmes, Quarta-Feira Filmes, Foi Bonita a Festa e Grãos da Imagem. Produtora executiva: Julia Alves. Gerente de Produção: Luna Gomides. Distribuidora: Vitrine Filmes por meio da "Sessão Vitrine Petrobras". Duração: 01h47min.
 
HOJE NOS CINEMAS

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coração Partido, de Michael Vaynberg

 
A jovem Polina (Veronika Zhuravleva) muda-se com a mãe (Evgeniya Loza) para uma nova cidade. Recém-casada, a mãe desconhece que o novo marido, Otchim (Pavel Kuzmin), tem filhos de um relacionamento anterior, entre eles Ruslan (Ivan Trushin), um jovem motociclista que mantém uma intensa rivalidade com Bars (Daniel Vegas). Na nova escola, Polina torna-se alvo de perseguições e bullying, que misteriosamente conta com a participação de Ruslan. Enquanto Dilara (Alua Mayer) é uma de suas poucas aliadas, Lika (Margarita Dyachenkova) e Egor (Anton Solomantin) fazem de tudo para atormentá-la. A situação muda quando Bars intervém e anuncia que ele e Polina estão namorando. Ela aceita sustentar o relacionamento de fachada em troca de proteção, mas logo se vê abalada pelos beijos, amassos e passeios com o enigmático motociclista. Vizinho de Polina e sempre cercado por mulheres, Bars desperta nela sentimentos que tornam o acordo cada vez mais difícil de fingir. Os conflitos aumentam quando Polina salva Sasha (Alexandra Tikhonova) de uma situação de perigo. Mais tarde, ela descobre que Sasha é irmã de Ruslan e ex-namorada de Bars. A chegada de Speranskiy (Andrey Kazakov), pai de Bars, traz novos problemas e revela aspectos dolorosos da vida do rapaz, que se sustenta sozinho e carrega profundos traumas ligados ao passado familiar. Em meio a segredos, rivalidades e conflitos com Ruslan e Sasha, Polina precisará lidar com o bullying e descobrir se sua relação com Bars ainda é apenas um acordo.

O drama teen russo, dirigido por Michael Vaynberg, destaca-se por sua belíssima fotografia: os tons rosados traduzem a doçura do primeiro amor e das novas descobertas, enquanto a transição para paletas sombrias e acinzentadas sinaliza com precisão os momentos de dor e conflito no arco de Polina e Bars. 

A produção chega ao Brasil esta semana com distribuição da Paris Filmes.

              Crédito de Imagens: All Media, Sverdlovskaya Kinostudiya e Yello, Black & White / Paris Filmes, Divulgação
               Mundialmente, o longa ultrapassou a marca de 13 milhões de dólares em bilheteria

A edição dinâmica e jovial do filme aposta em videochamadas integradas à tela, conversas em aplicativos de mensagens e um figurino despojado, alinhando-se perfeitamente à proposta de se conectar com o público jovem. A produção russa carrega os melhores elementos de melodramas e doramas, costurando seus conflitos com fluidez.

Daniel Vergas e Veronika Zhuravleva entregam muita química e este é o ponto forte do longa, com destaque para Veronika, cujo semblante lembra bastante o da atriz inglesa Emilia Clarke (Como Eu Era Antes de Você). Por outro lado, o filme carece de diversidade no elenco, apostando em um padrão estético eurocêntrico tanto para protagonistas quanto para antagonistas. Isso fica evidente até mesmo no apelido carinhoso que Bars dá a Polina, centrado em seus olhos azuis, o que reforça o apelo visual focado em traços predominantemente brancos.

O texto é baseado no livro de Anna Jane (ver original aqui) que atingiu enorme sucesso de vendas na Russia. Aliás, a autora é conhecida por pioneirismo digital, pois iniciou sua carreira publicando suas histórias em foruns independentes e plataformas na internet. Infelizmente, a autora faleceu em 2023, aos 35 anos.


Trailer

Ficha Técnica

Título Original e Ano: Tvoyo serdtse budet razbito / Your Heart Will Be Broken, 2026. Direção: Michael Vaynberg. Roteiro: Mariya Elisovetskaya, Marianna Kadrzhanova, Evgeniya Nazipova e Ulyana Zvereva - Baseado no bestseller de Anna Dzheyn. Elenco: Veronika Zhuravleva, Daniel Vegas, Andrey Kazakov, Margarita Dyachenkova, Alya Mayer, Maksim Saprykin, Evgeniya Loza, Anton Solomantin e Pavel Kuzmin. Nacionalidade: Rússia. Gênero: Drama, Romance. Fotografia: Konstantin Postnikov. Design de Produção: Vadim Shafranskiy e Tatyana Zinchenko. Figurino: Darya Vorontsova. Efeitos Especiais: Pavel Parshutkin. Empresas Produtoras: All Media, Sverdlovskaya Kinostudiya e Yello, Black & White. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 02h14min.
Com uma trilha sonora predominantemente de canções russas, o drama teen entrega uma combinação envolvente de romance, conflitos por bullying e reviravoltas que mantêm o ritmo ao longo de suas duas horas e quatorze minutos. Contudo, a decisão de exibi-lo exclusivamente com cópias dubladas compromete parte de seu apelo, privando o público da sonoridade marcante do idioma russo, que confere mais intensidade e charme à narrativa.

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Só Por Uma Noite, de Will Gluck

 
Em “Uma Noite de Crime”, de James DeMonaco (2014), filme que deu origem a uma enorme franquia e que também ganhou uma série de televisão entre 2018 e 2019, os norte-americanos têm uma única noite para expurgar toda a sua vontade de cometer crimes sem serem punidos. Assim, não importa se você tem ou não a ficha limpa: naquela noite, todos precisam lutar para sobreviver. As mensagens da produção podem ser diversas, mas o longa-metragem de terror fala bastante sobre essa era do ódio em que vivemos atualmente. Já o mais novo filme do diretor de Todos Menos Você” (2023), Will Gluck, exalta o afeto e se propõe a falar justamente o contrário. “Apenas Uma Noite” repensa a ideia do filme de DeMonaco como um momento em que a sociedade, na terra do Tio Sam, tem apenas um dia do ano para viver noites casuais, enquanto, no restante do tempo, somente os casados podem exercer livremente o direito de transar com seus parceirxs. Assim, solteirxs de todo o país, mas principalmente de Nova York, saem à caça de alguém para passar uma noite.

A narrativa nos apresenta o bonitão Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria na big apple, que não vê a hora de encontrar a noiva, Malika (Maya Hawke), para um jantar romântico e, quem sabe, fazer umas coisinhas a mais na noite liberada pelo governo para isso. Enquanto isso, em outro canto da cidade, a cantora de jingles hilários Allie (Monica Barbaro) se prepara para encontrar a amiga Jacinta (King Princess) e, juntas, tentarem achar um cara legal em alguma festa. Allie reforça para a amiga que não necessariamente pretende transar, mas que gostaria de encontrar uma conexão mais forte do que apenas uma noite com alguém. Ao mesmo tempo em que Owen leva um baita fora da noiva, que decide abrir a relação justamente naquele momento e sair para se divertir em uma noite casual com o vizinho, Allie também leva um toco da amiga. Jacinta é rápida no gatilho e encontra um par simplesmente ao ir ao banheiro, abandonando Allie, que rapidamente resolve voltar para casa. Porém, ambos acabam confessando a pessoas queridas o ocorrido e estas os incentivam a sair e buscar diversão. O homem é motivado pela mãe, Linda (Molly Ringwald), enquanto a aspirante a cantora ganha um novo vestido e até um salto alto da jovem com quem divide o apartamento, Arya (Quintessa Swindell). Aliás, Arya, que é LGBT, não está exatamente preocupada em encontrar alguém para sair. A mãe de Troy (Mateo Roy), um garoto muito esperto e piadista que mora em frente ao prédio das duas, pagou para que ela o vigiasse durante esse dia completamente maluco na cidade. 

Quando Allie decide sair novamente, acaba dando de cara com Owen, mas não é de primeira que os dois vão se dar bem. A longa noite proporcionará encontros inusitados, desde uma ida à farmácia em uma corrida maluca por preservativos até um encontro tête-à-tête na delegacia, depois que ambos são ludibriados em dates que dão muito errado. Há ainda o momento em que os dois deixam de lado toda a correria dos encontros para simplesmente comer pizza juntos já no fim da noite. A verdade é que as horas vão passando, os encontros e reencontros vão acontecendo, e uma conexão fofa entre os dois começa a se estabelecer em meio a situações super engraçadas, nas quais todos estão cheios de tesão, mas também têm muito carinho para dar.

O roteiro de Travis Braun apareceu, em 2024, na “Lista Negra de Hollywood”, que reúne alguns dos melhores scripts ainda não produzidos. Dizem por aí que Gluck de uma pincelada no texto final, mas é Braun quem aparece como autor original da obra. O resultado é um filme leve, divertido e com humor na medida certa para fazer o espectador rachar o bico no cinema, ao mesmo tempo em que se envolve e se emociona com o casal sexy e fofissimo que se forma ao longo da história. A produção é da Universal Pictures e da Olive Bridge Entertainment, enquanto a Universal também é responsável pela distribuição do filme em inúmeros países.

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano: One Night Only, 2026. Direção: Will Gluck. Roteiro: Travis Braun. Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, King Princess, Molly Ringwald, Quintessa Swindell, Mateo Roy, Levar Burton, Pete Davidson, Bobby Cannavale, Este Haim, Ziwe, Charlie Gillespie, Ella Loudon, Jake Bakirdan, Flavor Flav, Okieriete Onaodowan, Keizo Kaji. Gênero: Comédia, Romance. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Este Haim, Christopher Stracey. FotografiaYaron Orbach. Edição: Robert Nassau e Tia Nolan. Design de Produção: Scott Kuzio. Figurino: Jacqueline Demeterio. Casting: Kathleen Chopin e John Ort. Empresas Produtoras: Universal Pictures e Olive Bridge Entertainment. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 01h42min.
É quase surreal a maneira como a comédia romântica retrata as reações das pessoas a partir do momento em que o relógio é acionado e o decreto que libera que as transas casuais entrem em vigor. De repente, toda a cidade passa a expor deliberadamente a própria libido e sai às ruas em busca de festas e de um parceiro para aquela noite. Com o exagero proposital dessas situações, o filme faz uma crítica leve e bem-humorada à vida moderna, em que homens e mulheres recorrem cada vez mais a aplicativos de namoro, pagos ou gratuitos, em busca de parceiros sexuais ou afetivos. Em determinado momento, inclusive, vemos Owen tentando encontrar alguém por meio de um app e percebendo, da pior maneira, a roubada em que acabou se metendo. 

Embora o casal que está prestes a se formar também queira extravasar sua energia sexual, existe, da parte de ambos, um desejo maior de estabelecer uma conexão verdadeira com alguém. Owen está arrasado com a atitude da noiva, enquanto Allie realmente quer encontrar um amor. Em uma conversa, ela revela que considera muito raro duas pessoas realmente se conectarem em uma relação casual e que, muitas vezes, acaba se sentindo vazia depois desses encontros. A moça também acaba caindo em alguns golpes justamente por tentar enxergar o melhor nas pessoas. É somente quando o dia de liberdade sexual está chegando ao fim que ela percebe que, durante todo aquele tempo, estava construindo algo muito mais genuíno com Owen. A descoberta conversa diretamente com o desfecho do filme e com as resoluções para os arcos dos dois no ato final.

O texto também consegue apresentar diferentes tipos de encontros de casais e as maneiras como eles se relacionam uns com os outros. Há um desejo despertado por uma conversa triste, outro por uma conversa política e outro simplesmente pela liberdade espontânea proporcionada por aquele dia. Assim, com muita leveza, o longa nos faz rir das mil e uma situações em que os dois protagonistas se metem. A proibição do sexo naquela Nova York, de certa forma conservadora, também tenta jogar verde e  mostrar que alguns problemas, como a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças, foram reduzidos nesse universo. Ao mesmo tempo, porém, a narrativa ressalta o quanto aquelas pessoas estão cheias de vida, desejo e vontade de se relacionar. Lembrando como homens e mulheres, similares a Owen e Allie, querem mais do que apenas uma transa: querem construir uma conexão verdadeira e, quem sabe, formar um casal. Isso, entretanto, não diminui o desejo sexual nem a força vital dos outros personagens que aproveitam a noite de maneiras diferentes.

Portanto, fica claro que a busca por romance é o grande tema do filme. Isto porquê por trás de toda a loucura, do desejo e da liberdade sexual daquela noite, existe uma provocação sobre algo que parece estar cada vez mais raro: a conexão verdadeira entre duas pessoas

                                           Crédito de Imagens: © Universal Studios. All Rights Reserved.
O filme foi rodado em Nova York entre setembro e dezembro de 2025, e a cidade acaba sendo muito mais do que um simples cenário: ela ganha vida ao acompanhar e direcionar os personagens ao longo de suas jornadas.
 
O casting de Kathleen Chopin e John Ort é grandioso e bastante diverso. Não apenas pela escolha certeira dos protagonistas, Callum Turner e Monica Barbaro, mas também por reunir coadjuvantes de peso, como Maya Hawke e a estrela dos filmes oitentistas Molly Ringwald. Os personagens de Mateo Roy e Charlie Gillespie também funcionam muito bem como alívios cômicos e garantem boas risadas ao longo da trama. A participação dupla de Este Haim, baixista da banda Haim, também é um agrado. Ela não apenas aparece como atriz, interpretando uma recepcionista na entrada de uma boate, como também assina a trilha sonora ao lado de Christopher Stracey. A música, aliás, desempenha um papel importante na trama. Allie é cantora, mas carrega medo e vergonha de se apresentar no palco, ao mesmo tempo em que admira profundamente o cantor interpretado por Gillespie. E é justamente aí que o casting de Callum Turner ganha uma camada curiosa: na vida real, o ator é casado com a cantora Dua Lipa. Uma dessas coincidências que tornam a escolha ainda mais interessante. Além disso, o filme apresenta uma trilha sonora recheada de nomes como Robyn, Air Supply, Sara Bareilles, Winona Fighter, Arlo Parks e King Princess, que também integra o elenco. As músicas ajudam a construir a atmosfera da história e acompanham bem os diferentes momentos vividos pelos personagens.

Will Gluck, que vem do estrondoso sucesso de “Todos Menos Você”, segue aqui uma fórmula bastante conhecida e eficiente das comédias românticas: o casal que está destinado a se formar passa por uma verdadeira maratona de desencontros, situações absurdas e encontros inesperados até finalmente encontrar o caminho um para o outro. O sucesso anterior do diretor também ganha uma espécie de menção honrosa no filme, com a aparição de fotografias de Glen Powell e Sydney Sweeney em alguns momentos. Gluck também revelou que, embora o filme apresente nudez, ela foi utilizada de maneira mais moderada. Segundo o diretor, a intenção seria não afastar as novas gerações, que, segundo ele (e a internet), parecem estar transando menos. É uma declaração curiosa e que conversa diretamente com a própria proposta do longa, que brinca justamente com uma sociedade em que o sexo é, ao mesmo tempo, extremamente desejado e rigidamente controlado.

No fim dessa, talvez, longa leitura, a dica é simples: junte as amigas, os amigos, esposas, esposos, namoradas, namorados, ou quem você quiser, e se jogue no cinema. Apenas Uma Noite é aquele tipo de entretenimento despretensioso que funciona especialmente bem quando a intenção é rir, se envolver com um casal fofo e simplesmente aproveitar algumas horas de cinema.

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