terça-feira, 1 de setembro de 2026

Pressão, de Anthony Maras

 
Em 1998, o mundo testemunhava no Cinema uma das reconstituições mais brutais da guerra com o celebrado drama de Steven Spielberg "O Resgate do Soldado Ryan". A cena do desembarque das nações aliadas na Normandia segue até hoje sendo considerada um grande exemplo de realização cinematográfica, tanto pela grandiosidade de sua escala quanto pela crueza chocante da violência alcançada na reprodução do episódio histórico, acentuada pela perspectiva imersiva da câmera tremida. Em meio a dezenas de figurantes e personagens que sequer possuíam nomes atuando na cena, estava um jovem e ainda desconhecido ator escocês chamado Andrew Scott, ele próprio interpretando um soldado anônimo. Desde então, Scott chegou a retornar à guerra outras vezes, como na minissérie "Band of Brothers" (Tom Hankds, 2001) e no filme "1917" (Sam Mendes, 2019). Tornou-se conhecido pelo público por seus papéis de destaque na TV, como em "Sherlock" (Mark Gatiss e Steven Moffat, 2010-2017), "Fleabag (Phoebe Waller-Bridge", 2016-2019) e "Ripley" (Steven Zaillian, 2024), além de estrelar o drama indie "Todos Nós Desconhecidos" (Andrew Haigh, 2023). Quase 30 anos depois de sua participação tímida no épico de Spielberg, e já com uma carreira estabelecida e reconhecida, o ator volta a se envolver com o chamado "Dia D" em Pressão. Ademais, o filme também promove um curioso reencontro. Scott volta a dividir a tela com Damian Lewis, seu colega de Band of Brothers, que aqui assume o papel do Marechal de Campo Bernard “Monty” Montgomery, um dos principais comandantes militares envolvidos na preparação da ofensiva aliada.

Nos momentos decisivos da Segunda Guerra Mundial, ainda assombrado pelo fracasso de um exercício de preparação para o Dia D que resultou na morte acidental de centenas de soldados, o General Dwight D. Eisenhower (Brendan Fraser) convoca James Stagg (Andrew Scott) para chefiar a equipe de Meteorologia das Forças Aliadas no planejamento da operação. O embasamento científico criterioso e realista de Stagg e sua equipe logo encontram resistência do Coronel Irving P. Krick (Chris Messina), que usa de métodos menos precisos e parece mais interessado em agradar seus superiores com panoramas confortáveis do que em considerar as possíveis imprevisibilidades climáticas enfrentadas durante a ação militar. O embate entre as diferentes perspectivas alimentam a apreensão conforme o momento ideal para a manobra se aproxima e fica claro que qualquer decisão tomada poderia decidir os rumos da guerra.
 
Baseado na peça homônima de David Haig, Pressão tem como diferencial em relação a outras inúmeras obras focadas na temática de guerra o fato de se concentrar mais na estruturação da estratégia militar do que no confronto armado em si. O roteiro coescrito pelo próprio Haig em parceria com o diretor Anthony Maras prioriza de forma muito segura os diálogos e a construção da tensão a partir de discussões e conflitos de versões. A direção ágil de Maras, que também é montador do filme, extrai ansiedade da incerteza e dos crescentes embates das reuniões nas quais os personagens de Scott e Messina expõem seus pareceres e suas visões aparentemente irreconciliáveis acerca da operação de guerra. Inspirado por Peter Jackson e seu documentário "Eles Não Envelhecerão" (2018), o diretor inclui imagens de arquivo originais da época restauradas e colorizadas junto ao material do filme, enriquecendo a experiência e aproximando o público dos personagens vistos em tela.
 
Crédito de Imagens:Courtesy of Focus Features/STUDIOCANAL © 2026 All Rights Reserved.
O longa foi exibido, em junho, no  e este mês no 

A atuação de Andrew Scott pesa perfeitamente uma frieza segura com uma sensibilidade vulnerável, bifurcação contraditória que faz total sentido com o personagem. Tal harmonia, contudo, não pode ser atribuída à interpretação de Brendan Fraser. Em sua performance-padrão desde seu comeback em A Baleia, o ator parece preso num estado permanente de caricatura, frequentemente atuando com todos os seus músculos faciais e por vezes descambando numa gritaria descontrolada. Os raros momentos de calmaria de sua atuação em Pressão mostram que sua versão do General Eisenhower, consumido pela culpa e pela responsabilidade de não sacrificar desnecessariamente mais vidas, poderia ter sido muito mais sutil e memorável. Outro atalho que o filme escolhe é transformar o personagem de Chris Messina numa espécie de vilão, alimentando uma rivalidade com o protagonista a fim de aumentar o grau de tensão, mas que acaba por sacrificar parte da complexidade da dinâmica entre os dois.
 
Trailer
 

 Ficha Técnica
 
Título Original e Ano: Pressure, 2026. Direção: Anthony Maras. Roteiro: Anthony Maras e David Haig - baseado na peça homônima de David Haig. Elenco: Andrew Scott, Brendan Fraser, Kerry Condon, Chris Messina, Damian Lewis, Tamsin Topolski, Jojo Macari, Com O'Neill, Con O'Neill, Alexander Hanson, Robert Portal, Joshua Hill, Toby Williams, Richard Clothier, Michael Benz. Gênero: História, Thriller, Ação, Guerra. Nacionalidade: Reino Unido, França e EUA. Fotografia: Jamie Ramsay. Trilha Sonora Original: Volker Bertelmann. Edição: Anthony Maras. Design de Produção: Daniel Taylor. Direção de Arte: Ashley Lynn James. Figurino: Liza Bracey. Empresas Produtoras: StudioCanal e Working Title Films. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 01h40min.
Pressão por vezes se vê diante de escolhas difíceis, tal qual o próprio episódio histórico que se propõe a recriar. Ao mesmo tempo que o roteiro opta por simplificações convenientes da história original para diminuir a quantidade de personagens em cena ou encurtar eventos, infla outros aspectos para trazer mais conflitos e melodrama à trama. A condução no geral é acertada e tais mudanças são compreensíveis para tornar a narrativa mais ágil, especialmente considerando a duração de apenas 100 minutos de duração. Entretanto, tais floreios talvez não sejam suficientes pra empolgar o público médio que vai ao cinema ver filmes de guerra esperando por explosões e reviravoltas ininterruptas. Ainda assim, nada disso diminui os méritos do novo longa de Anthony Maras. Conhecido por sua estreia impactante com o thriller "Atentado ao Hotel Taj Mahal" (2018), o cineasta não decepciona em seu retorno às telonas, construindo um drama contido e eletrizante dentro da escala de sua proposta. 
 
 03 de Setembro nos Cinemas