“Às vezes, ficar quieto é o que mata a gente”…
Revezando a sua carreira de curta-metragista entre as colaborações com Jorge Furtado e as tramas sobre interações geracionais, a cineasta gaúcha Ana Luíza Azevedo estreou em longas-metragens justamente com um simpático filme sobre as entrelinhas de um relacionamento paterno-filial ausente, “Antes que o Mundo Acabe” (2009), o que também surge como tema transversal em “Aos Olhos de Ernesto” (2019). É algo que ela persegue de maneira vocacionada, não obstante ainda não ter engendrado a sua obra definitiva na abordagem deste assunto...
Em “Medley” (2026), ela retoma algumas de suas marcas registradas enquanto roteirista, mesmo que o roteiro esteja a cargo de outra profissional, Keka Reis, que adapta o seu próprio romance, “Medley ou os Dias em que Aprendi a Voar”, publicado pela editora Plataforma21 em agosto de 2021, sobre uma nadadora adolescente que esforça-se para desvendar as circunstâncias do desaparecimento de seu pai.
A trama, passada no início da década de 1990, apresenta-nos a Lola (Mel Maia), que não se dá muito bem com a mãe ‘workaholic’ Catarina (interpretada por Mariana Lima). Na primeira cena do filme, Lola está recebendo uma medalha de ouro num campeonato, mas, exceto por sua treinadora, não tem ninguém para comemorar consigo. Sua solidão é evidenciada, ao mesmo tempo em que a treinadora comenta: “tu precisarás de um armário inteiro para guardar tantas medalhas”.
Após discutir com a sua mãe por algo corriqueiro – a utilização de um condicionador capilar –, Lola decide viajar sozinha para a chácara de um tio, no município ficcional de Salto Bonito, no noroeste fluminense. Lá, ela se apaixona pelo filho de uma quitandeira, Gabriel (Guthierry Sotero), e lida com um trauma antigo, referente à impossibilidade de nadar na modalidade borboleta, pois era justamente assim que seu pai a chamava, “borboletinha”. Mas um desentendimento com Linda (Alana Cabral), a filha também nadadora do treinador Érico (André Ramiro) – que depende de Lola num torneio regional de natação –, a motiva a enfrentar o que, até então, nem ela sabia porque a atormentava…
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes, Divulgação
A película integrou a programação da 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada em outubro.
Por vezes, a própria direção do filme – ainda que competente – parece se confundir com a idade da protagonista, visto que há uma inconstância no modo como são deslindadas as situações paralelas ao amadurecimento da protagonista, que fica sozinha numa chácara, depois que sua mãe viaja para os EUA. Uma destas situações é o relacionamento entre Catarina e o marido da prefeita Marineide (Leona Cavalli), que não é devidamente esclarecido. É como se compreendêssemos os fatos do filme a partir do olhar de Lola, virgem, ainda em formação de personalidade, o que pode ser tanto um mérito quanto um defeito, a depender de como os espectadores se identifiquem com a personagem em questão, emocionalmente instável como qualquer adolescente.
O filme termina de maneira anticlimática, mas isto é interessante, enquanto proposta, pois completamos intimamente o modo como Lola lida com as descobertas acerca do passado de sua mãe, de seu próprio e da própria interação com as nadadoras, até então desmotivadas, de Salto Bonito. A reconstituição de época é bem-feita, mas há alguns inevitáveis anacronismos na abordagem do cotidiano daquela cidade, em que diferentes classes sociais convivem harmonicamente, não se reclama de quaisquer problemas financeiros, e canções como “Codinome Beija-Flor”, de Cazuza, e “Quase Se Querer”, de Legião Urbana, eclodem na banda sonora, enquanto a trilha incidental fica a cargo de Leo H, que compõe acordes efusivos de cariz publicitário.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Medley, 2026. Direção: Ana Luiza Azevedo. Roteiro: Keka Reis. Elenco: Mel Maia, Guthierry Sotero, André Ramiro, Alana Cabral, Mariana Lima. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Lílis Soares. Montagem: Giba Assis Brasil. Desenho de som: Bernardo Uzeda. Música: Leo H. Direção de elenco: Yolanda Rodrigues. Direção de arte: Monica Palazzo. Produção: Mara Lobão, Rodrigo Montenegro. Produzido por: Panorâmica. Distribuição: Vitrine Filmes. Duração: 01h34min.
Gostando-se ou não de Lola, ela consegue se firmar como uma personagem crível e merecedora de afeto, por causa da maneira delicada com que a diretora aproxima-se dela, através da encenação, e pelo afeto indisfarçado que a roteirista lhe dedica. Os comentários metalingüísticos de Gabriel sobre o gênero do filme que ele e Lola estão vivendo nem sempre são funcionais, mas, para quem assiste a “Medley” sem muitas expectativas, esta obra proporciona uma diversão agradável e impulsiona boas conversas entre pais e filhos – em especial, mães e filhas – após a sessão. Não estará nas listas de melhores lançamentos brasileiros do ano, mas merece um voto de confiança. E sigamos atentos aos próximos trabalhos de Ana Luíza Azevedo, assaz coerente na escolha de seus enredos!
EM CARTAZ




