quarta-feira, 13 de julho de 2022

Autodeclarado, de Mauricio Costa


Autodeclarado é um documentário dirigido por Maurício Costa que busca questionar os métodos de aplicação dessa política de acesso a instituições públicas. O diretor é diplomata por profissão e construiu carreira no cinema a partir dos documentários ''A Era dos Gigantes'' (disponível no Prime Video) e ''UberxTáxis'' (leia texto aqui). Costa financiou toda a produção de ''Dear Brown People'', título da película em inglês, de forma independente em parceria com Richard Brandes e Phil Miler. Apenas com essas informações introdutórias do longa-metragem já temos algumas pistas de qual filme poderia vir a se desenvolver. Analisando melhor, temos a) um filme documentário, o que já indica algumas formatações possíveis; b) um filme sobre uma política pública, o que já localiza a discussão num terreno institucional, formal e oficial; c) uma política pública direcionada às minorias, o que aponta a um debate social destinado, pelo menos em teoria, à diminuição das desigualdades; d) um diplomata, o que designa, até certo ponto, um lugar de fala ativo e definido, ou seja, de que lugar o autor dessa obra observa a questão; e) um filme financiado de forma independente, sem recursos de editais públicos ou privados.

Cada uma dessas questões se apresenta e dialoga entre si na condução do documentário. A ver, sendo produzido de forma independente, o diretor ou não colocou seu filme a ser examinado em bancas, ou não foi aceito por elas. A independência na produção deixa o cineasta aberto a elaborar caminhos alternativos na criação e na distribuição de seu filme, além de evitar a burocracia exaustiva da captação de recursos, prestação de contas e janelas de exibição, às vezes exigidas contratualmente.

Mas também não se beneficia de um circuito institucional da cena cinematográfica tradicional. Soma-se a isso a exibição em salas comerciais, com uma sessão em Brasília e uma em São Paulo que se deram esta semana, e levanta-se a dúvida sobre se a ausência em festivais nacionais foi escolha ou circunstância. Autodeclarado foi exibido como série e premiado no Catalyst Content Festival, evento internacional direcionado a séries independentes. Mas mesmo retratando um contexto brasileiro, não foi exibido em larga escala no país. Isso também diz algo sobre como Autodeclarado se encaixa, ou não, no debate do audiovisual brasileiro.

O circuito de festivais dita algumas tendências de um cinema brasileiro contemporâneo em termos não apenas estéticos, mas principalmente políticos, e antes de os elogiarmos por isso, precisamos entender que política dos filmes é essa que dita os caminhos do cinema no Brasil. Como ela se dá na cadeia da indústria? É um território em disputa, como todos os territórios políticos, e uma disputa de pertencimento e voz nos ambientes de poder. Fora do filme, um cineasta está agora dialogando com todo o maquinário audiovisual, onde a política das relações com toda a cadeia (do financiamento, produção e distribuição até o público) demanda uma movimentação política, num sentido muito mais de negociação entre as partes envolvidas do que num sentido ideológico. Não ser exibido no Brasil nesses termos adiciona camadas de interpretação de como o filme pode ser recebido pelo circuito hegemônico.

O influencer digital e apresentador da MTV Spartakus Santiago é uma das vozes no filme

Voltamos, então, às bancas examinadoras e vemos um reflexo concreto na estruturação do filme. Dedicado a investigar a política de cotas em concursos e vestibulares, o filme encena uma reunião online de heteroidentificação de uma jovem que deseja entrar na universidade. A heteroidentificação é a etapa que o candidato que se inscreve pelas cotas precisa passar em algumas instituições na tentativa de evitar fraudes. Se Autodeclarado se submeteu a seleções em mostras e festivais e não foi aceito ou se escolheu não percorrer esses espaços não sabemos enquanto assistimos, mas o fato é que ele não passou por esses espaços. De um jeito ou de outro, o filme em si estabelece uma relação própria com suas possíveis bancas examinadoras.

À medida que os entrevistados do filme conduzem as pautas da discussão, a encenação com a jovem ilustra os argumentos da banca de heteroidentificação. Esse é um dispositivo que se apresenta, de início, com caráter ilustrativo, mas logo vai mostrando uma perspectiva formadora para o filme. Quando falarmos sobre o aspecto documental, voltaremos a isso. Sendo aspectos subjetivos (o produto de cinema e o racismo), ou seja, fenômenos sociais e não naturais nem metrificados, o filme exprime uma preocupação pelos pontos que uma análise técnica não consegue resolver, e nem deve: Aquela pessoa é negra o suficiente?

O ex-secretário da SEPPIR, Mário Theodoro, traz análise sobre violência policial no país

Daqui, qual processo de ação ou reflexão sobre o assunto que o filme seguirá? Para abraçar a complexidade do tema, composto por inúmeros fatores sociais, históricos e econômicos, o filme traz diversos olhares para compô-lo: relatos pessoais, memórias de movimentos sociais, pensadores. Mas o aspecto jurídico é o que ganha mais peso porque ele estrutura as preocupações do filme. Ou seja, o filme mostra as contradições do cenário e pergunta como podemos resolvê-lo. Como diminuir a ocorrência de erros com a implementação da lei de cotas?

A profissão de Costa pode ajudar a especularmos a escolha de perspectiva. Sendo um oficial do governo, o cineasta lida com o fluxo institucional de informações. Vemos então uma postura prática na forma de abordar o tema, confinada a um trâmite legal da implementação das cotas. De novo, mesmo que seja mais do que isso, o trâmite legal é como o filme elege seu modo de atuação.

É assim que Autodeclarado vai se construindo e vemos isso na forma do filme. Como documentário, ele se organiza a partir da fórmula clássica de entrevistas (os famosos talking heads) entremeado pela encenação que comentamos. Guiando as pautas de uma para a outra muito bem, Costa também tenta colocar opiniões opostas juntas na tentativa de abrir um debate. O diretor também parece interessado em não deixar respostas corretas e convida o espectador de forma direta a tirar as próprias conclusões. O filme busca abrir essa discussão e convidar quem o assiste a refletir sobre o assunto através justamente da encenação.

Winnie Bueno, socióloga e Influencer,  é um dos grandes destaques em ''Autodeclarado''

Depois da apresentação da jovem, vemos a banca deliberar sobre sua inclusão ou não nas vagas cotistas. Mas como é usada para ilustrar situações citadas pelos entrevistados, os argumentos da banca contrários à inclusão da jovem surgem como exemplos dos casos de racismo, ou até mesmo injustiça, sofridos pelos entrevistados. Dessa forma, apesar de buscar um resultado que fosse um produto dialético resultado do processo ativo do espectador (e para isso, usar a oposição de argumentos), o filme estrutura sua visão de forma bastante explícita. E nesse ponto, talvez desmorone. Ao ser um produto correndo por fora dos circuitos mais tradicionais, o comercial ou de festivais, ele se torna em si mesmo um objeto a ser examinado assim como a jovem do concurso.

A forma do filme documentário pode assumir diversas maneiras de apresentar acontecimentos de fora do terreno da ficção justamente por assumir para si uma ficção própria. E é aqui que Autodeclarado não acontece porque opta por assumir a complexidade do tema em sua inteireza para não pecar pela omissão, mas também nenhum de seus pontos recebe a profundidade narrativa necessária para guiar a investigação do filme. Não temos nem leitura fria estruturada dialeticamente, nem uma investigação sob o viés pessoal e intrincado das contradições na vida particular de uma personagem.

De qualquer forma, Autodeclarado é um documentário que funciona para o que se propõe: levar em consideração, e de forma séria, uma discussão para dentro do movimento negro. O filme, através de seus entrevistados, deixa muito clara a intenção de convocar a resolução dos impasses dentro do grupo por inteiro, evitando que forças que buscam acabar de vez com a política tomem de vez o domínio da narrativa.

Mesmo com os vários acidentes de percurso, especialmente quando tenta fazer as pontes da estética para a política, e das condições de produção e lugar de fala dos envolvidos, trabalhadas com menos nuances que o almejado, Autodeclarado é um filme que decide apontar um problema de forma firme e direta. Cabe a nós entendermos o que fazer com ele.

Trailer


Ficha Técnica

Título original e ano: Dear Brown People - Autodeclarado, 2022. Direção, roteiro e produção: Maurício Costa. Com: Winnie Bueno, Spartakus Santiago, Frei Davi, Benedito Gonçalves, Herbert Araújo, Demétrio Magnoli, Natalino Salgado, Prof. José Vicente, Barbara Kruczynski, Roseli Faria, Luan Myque Figueira da Silva, Paulo Neves, Luciene Guimarães de Faria, Cristina Souza, Janedson Almeida, Mário Theodoro. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil e Eua. Trilha Sonora: Ramiro Galass. Direção de Fotografia: Matheus Bastos. Desenho de Som: Maurício Fonteles. Montagem, animação, design gráfico e VFX: Pedro Neto. Produção: Richard Brandes, Phil Miler. Distribuição: Bretz Filmes. Duração: 01h50min.

atualizado às 18hrs - 13/07/22 

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