Apresentar um clássico repaginado a uma nova geração, alterando parte do que a obra original entrega, pode ser um risco considerável para artistas contemporâneos. Esse é o caminho que a diretora inglesa Emerald Fennell escolhe seguir em “O Morro dos Ventos Uivantes”, uma adaptação livre do texto de Emily Brontë. A diretora do empolgante “Bela Vingança” (2020), contudo, revela traços muito importantes da época em que a obra foi escrita e publicada (1847): um tempo em que classe social e gênero ditavam as regras, mas também era situado pela escassez de alimentos e pela pobreza extrema, quando doenças se proliferavam rapidamente devido à falta de estrutura, água potável e higiene das famílias que viviam nas cidades ou no campo. A essência da história, o amor autodestrutivo entre Heathcliff e Cathy, vividos aqui pelos atores australianos Jacob Elordi e Margot Robie, ainda está presente. No entanto, perde parte das camadas da narrativa quando a adaptação opta por um recorte mais restritivo e se limita aos capítulos que envolvem o desabrochar da relação, uma agora que destaca o libido aflorado.
Para os leitores, as aspas no título já entregam aquilo que o filme evidencia desde seu trailer: o abandono do tom gótico em favor de uma abordagem mais sensual, algo pouco explorado em adaptações anteriores. Ademais, há uma exclusão clara de personagens, situações e acontecimentos. Para os cinéfilos que se recordam das versões passadas - como o filme de 1992, dirigido por Peter Kosminsky, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, ou a aclamada minissérie de 2009 do canal britânico ITV, protagonizada por Tom Hardy e Charlotte Riley - a mudança de tom também é evidente. A escolha estética do novo filme remete bastante às produções eróticas que ocupavam as madrugadas da TV aberta nos anos 90, estas últimas com grande embasamento na literatura de banca.
Nesta nova releitura, que a princípio pode parecer menor por não destrinchar tudo o que envolve os amantes atormentados, há também sensatez ao propor humanidade, instinto, desejo e vontades que habitam o imaginário e fazem parte da vida de homens e mulheres, mesmo em tempos antigos. O casting, assinado por Kharmel Cochrane, que já havia trabalhado com Fennell em “Saltburn” (2023), traz certa diversidade ao escalar a atriz asiática Hong Chau no papel da governanta "Nelly" e o ator britânico de origem paquistanesa Shazad Latif como "Edgar Linton", o segundo interesse amoroso de Cathy. Nesse aspecto, porém, Cochrane não acerta plenamente e acaba causando certo constrangimento ao parar por aí e ignorar a polêmica em torno das descrições de Heathcliff no rascunho original. Ali o personagem é frequentemente lembrado como um homem de pele parda ou escura, de origens ciganas. Talvez coubesse, como fez a adaptação de 2011, assinada por Andrea Arnold, com Kaya Scodelario e James Howson no elenco, a escolha de um ator negro para o papel.
Crédito de Imagens: Photo Courtesy Warner Bros. Pictures. / © 2026 Warner Bros. Ent. All Rights Reserved
"Wuthering Heights" , título original em inglês da película, foi o único livro escrito por Emily Brontë. Ainda assim, a narrativa já inspirou mais de 30 adaptações ao longo dos anos, entre filmes e séries de televisão.
A película se inicia com um enforcamento em praça pública. O destino trágico daquele que está amarrado é acompanhado por dezenas de pessoas ferozes, que clamam por punição. A pequena Cathy (Charlotte Mellington) não tira os olhos do morto. Em seguida, a câmera destaca o recorte das partes íntimas enrijecidas do falecido, e ela e Nelly (Vy Nguyen), sua dama de companhia, apenas poucos anos mais velha, correm de volta para casa: um casarão antigo no alto de um morro. Seu pai, o Sr. Earnshaw (Martin Clunes), é viúvo e também perdeu um filho, o que talvez explique sua decisão de comprar um menino de um cigano que passava pela cidade e agredia a criança. O pequeno Heathcliff (Owen Cooper) surge como um bicho do mato, e o senhor de Wuthering Heights entrega o garoto à filha como uma promessa de que ele será seu “pet”. Ele chega ferido, com marcas na cabeça, e é posto no sótão. Cathy o trata com desdém, mas tenta ensiná-lo a ler e passa boa parte do tempo o irritando, até que, pouco a pouco, laços começam a se formar e Heathcliff finalmente começa a falar. Certo dia, as crianças saem para brincar e acabam presas, esperando a chuva passar. O episódio rende a Heathcliff cicatrizes causadas pelas mãos do Sr. Earnshaw, e o garoto prefere apanhar para que nada aconteça a Cathy. Assume a culpa pela demora para retornar para casa.
Eles crescem juntos, vagam pelos campos e passam a se olhar de forma diferente, sobretudo depois que Cathy presencia os serviçais do pai, Joseph (Ewan Mitchell) e Zillah (Amy Morgan), em momentos íntimos. O que antes era irritação, implicância e brincadeiras infantis se transforma em paixão, desejo e contenção. Nelly chega a ter uma conversa com Cathy sobre Heathcliff, sabendo que ele está ouvindo, mas ele não escuta tudo: apenas a parte que o fere. A jovem confessa que eles não podem ficar juntos, pois o status e nome que faltam à ele mancharia a reputação dos Earnshaw. A fala, ouvida às escondidas, leva o rapaz a partir amargurado, com o coração estraçalhado e enciumado, ainda mais ao perceber a empolgação de Cathy com a chegada de novos vizinhos, entre eles o riquíssimo Edgar Linton e sua pupila, Isabella (Alison Oliver). Após um acidente enquanto bisbilhotava as propriedades refinadas dos Linton, Cathy é acolhida por eles e permanece alguns dias na casa.
A partida de Heathcliff e as novas conexões transformam a vida de Cathy. Logo, ela se vê casada com Edgar, usando vestidos pomposos que jamais teria condições de comprar. Enquanto isso, seu pai afunda cada vez mais no álcool e na miséria, algo que o leva a morte, inclusive. Anos depois, porém, Cathy, que nunca esqueceu seu primeiro amor, é atormentada pelo retorno dele. Heathcliff reaparece bem vestido, claramente com posses, a ponto de comprar a antiga casa de Cathy das mãos do Sr. Earnshaw. Essa virada revela que ele volta ao lugar não apenas para causar impacto com sua transformação, mas também para se vingar da amada e se casar com outra mulher, no caso, Isabella, atingindo igualmente Edgar, a quem vê como o ladrão de sua Cathy. Esse relacionamento conturbado entre os dois acaba se consumando em momentos que estão a sós e longe de todos. No entanto, aos poucos, Cathy, grávida de Edgar, percebe que Heathcliff e seu comportamento não lhe fazem bem, e o esposo também passa a exigir que ela se afaste do estranho homem.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Wuthering Heights, 2026. Direção: Emerald Fennell. Roteiro: Emerald Fennell - livremente adaptado do livro homônimo de Emily Brontë. Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver, Shazad Latif, Martin Clunes, Ewan Mitchell, Amy Morgan, Jessica Knappett, Charlotte Mellington, Owen Cooper, Paul Rhys. Gênero: Drama, . Trilha Sonora Original: Anthony Willis. Fotografia: Linus Sandgren. Edição: Victoria Boydell. Designer de Produção: Suzie Davies. Direção de Arte: Caroline Barclay. Figurinista: Jacqueline Durran. Empresas Produtoras: Lie Still, LuckyChap e MRC Film. Distribuidora: Warner Bros. Pictures. Duração: 02h16min.
O texto, também assinado por Fennell, investe na essência petulante de Cathy e nos mistérios, além do comportamento perverso, de Heathcliff. O público percebe que a dupla é atormentada por demônios próprios, e a retratação do relacionamento se alinha àquilo que muitos já viram ou leram em outras versões da história. O recorte, porém, reduz o tempo de sofrimento de ambos e das relações entrelaçadas nas quais acabam se envolvendo ao longo dos anos. No livro, a morte de Cathy ocorre em decorrência do parto; aqui, Fennell opta por alterar esse acontecimento. Isabella também chega a ser mãe na obra literária, e Heathcliff, que permanece vivo e assombrado por um amor que não se concretizou, passa a buscar formas cada vez mais cruéis de perseguir os Linton. A diretora não avança até esse ponto, e a audiência acaba perdendo essas camadas da trama, assim como sente a ausência de personagens, como Sr. Lockwood, ou ainda Hindley, o irmão de Cathy. Brontë erá avida leitora de Lorde Byron e Shakespeare, e de certa forma, isso impacta sua escrita e como seus personagens seguem seus destinos assombrados.
As referências cinematográficas que Fennell usa para ampliar sua visão do enredo são inúmeras: “…E o Vento Levou” (Victor Fleming, 1939), “Drácula de Bram Stoker” (Francis Ford Coppola, 1992), “Romeu + Julieta” (Baz Luhrmann, 1996), entre muitas outras. O design dos sets, o figurino e a direção de arte são vitais para construir essa percepção carnal, feminina e cheia de experimentações. Há um olhar visivelmente empoderador e moderno, principalmente nas escolhas feitas para construir e caracterizar Cathy, ainda que algumas soem à frente de seu tempo. As atuações são pontuais, e a beleza dos atores contribui para o encantamento pelos personagens. Jacob Elordi é o astro do momento (há quase quatro anos) e vem conquistando bons papéis em séries e filmes de gêneros variados. Neste ano, conseguiu indicação por sua interpretação da criatura em “Frankenstein”, de Guillermo del Toro. Margot Robbie tem equilibrado bem sua carreira e vale lembrar que apareceu em um drama de época como Rainha Elizabeth I em “Duas Rainhas” (Josie Rourke, 2018). Ambos já trabalharam outras vezes com Fennell: Robbie produziu seus filmes e foi sua colega de cena em “Barbie” (Greta Gerwig, 2023), enquanto Elordi aparece em “Saltburn” e neste longa, sinalizando uma parceria que se consolida com os anos.
A trilha sonora do filme, assinada por Anthony Willis, aposta em sons retumbantes em momentos que nem sempre parecem se encaixar. Além disso, a popstar Charli XCX é responsável por canções temáticas pensadas especificamente para o filme. Algo que não compete com o clássico emblemático “Wuthering Heights”, de Kate Bush, lançado em 1978, mas que, de certa forma, dialoga com a juventude.
O apelo visual aqui é criativo, talvez já uma marca registrada da diretora, e sua condução consegue eternizar a humanidade de Cathy e Heathcliff, mesmo sem entregar uma obra-prima.
12 de Fevereiro nos Cinemas










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