quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Yes, de Navid Lapit


“É patético ser artista com mais de quarenta anos de idade”!

Filmes como “A Professora do Jardim de Infância” (2014), “Sinônimos” (2019) e “O Joelho de Ahed” (2021), todos ótimos e controversos, ajudam a entender o porquê do realizador Nadav Lapid ser considerado ‘persona non grata’ em Israel: em todas as suas obras, a necessidade de deserção militar e nacional surge como paradigma moral para os protagonistas, e isto retorna em seu mais novo petardo, “Yes” (2025), protagonizado por Ariel Bronz, em entrega absolutamente visceral…

Na primeira cena, ele – que interpreta um personagem nomeado apenas como Y – e sua esposa Yasmin (Efrat Dor) dançam freneticamente, num segmento intitulado “A Boa Vida”. Eles estão numa festa chique e “Be My Lover”, canção dançante da banda alemã La Bouche, é executada. De repente, em meio a um punhado de situações bizarras, o chefe do estado-maior israelense propõe um “duelo de canções”, arrastando consigo alguns puxa-sacos, que entoam “Love Me Tender”, na versão de Elvis Presley. Y canta mais alto, até ser convencido por sua esposa: “deixe o chefe vencer”. Sentimos, de imediato, a potência da tensão existente entre este casal e quem o circunda…

À medida que o filme avança, compreendemos que Y e Yasmin atuam como animadores de festas que, no afã por conseguirem dinheiro, eventualmente fazem sexo com os convidados. Afinal, “foder é fácil!”. Eles têm um filho pequeno para criar – nascido um dia após os eventos de 7 de outubro de 2023 – e amam-se legitimamente, o que percebemos pelo modo fulgurante com que eles acordam, dançando ao som de “Aserejé”, da banda Las Ketchup, ouvida de maneira altissonante, depois que eles constatam que não conseguirão relaxar e/ou ficar em silêncio no centro de Tel Aviv, onde moram. Há uma guerra acontecendo ali perto – ou melhor, um genocídio. E, mesmo sendo israelense, Nadav Lapid não é nada condescendente quanto às decisões bélicas de seu país.

            Crédito de Imagens:  Les Films du Bal e Chi-Fou-Mi Productions / Imovision, Divulgação
O filme estreou no Festival de Cannes, em 2025, na sessão "Cannes Director's Fortnight"

O tempo inteiro, Y é bombardeado, literalmente, por notícias sobre o massacre na Palestina, que chegam como notificações em seu telefone celular. Mas ele esforça-se para ignorar, pois precisa seguir com a sua vida. Até que recebe uma proposta tentadora do corrupto militar Avinoam (Sharon Alexander), num cruzeiro para o qual ele é convidado: ele deverá compor a música para um novo hino de vitória israelense, cuja letra exorta o extermínio dos palestinos. É a deixa para que Y seja submetido a um grave dilema existencial, que se intensifica quando ele reencontra Leah (Naama Preis), uma namorada da juventude.

Obcecado pelo músico Thelonius Monk, Y fôra um pianista precoce, mas precisou abandonar esta vocação, até receber o convite supracitado, que o atormenta progressivamente, sobretudo depois que ele testemunha os horrores perpetrados diuturnamente no território de Gaza, o qual observa num local em que as famílias costumavam acampar, “para ver as bombas sendo atiradas”, conforme explica um soldado. O modo como o filme denuncia a malevolência do exército israelense é inacreditável!

Se, no início, o filme entusiasma-nos pelo modo como insere uma canção contagiante atrás da outra e como metonimiza a cumplicidade romântica entre Y e Yasmin, quando Leah entra em cena, o tom torna-se melancólico, tormentoso, com alguns toques de realismo mágico, referentes à “ajuda” celestial da mãe falecida de Y, em momentos em que ele requer auxílio ou precisa de orientação, e à maneira como Avinoam transmuta o próprio rosto numa tela, para transmitir imagens da chacina contra os palestinos, as quais ele comemora como vingança “justa”. É um longa-metragem perturbador, que encara de frente as descrições mais dolorosas do genocídio, incluindo a absurda releitura de uma canção antiga, distorcida em hino de guerra, cantarolado por crianças. Numa das cenas mais surpreendentes, Avinoam, que jacta-se de seu bronzeado facial alaranjado, encara os espectadores e, apontando para a câmera, dispara: “cada um de vocês possui um segredo que o mataria, se este fosse trazido à tona”. A podridão de caráter deste personagem é diametralmente associada ao seu poderio militar, como sói acontecer em nações acostumadas à matança inclemente de seus opositores!

Trailer



Ficha Técnica
Título original e ano: Ken, 2025. Direção e Roteiro: Nadav Lapid. Elenco: Ariel Bronz, Efrat Dor, Naama Preis, Alexey Serebryakov. Gênero: Drama. Nacionalidade: França, Israel, Alemanha. Direção de fotografia: Shai Goldman. Música: Aviv Aldema. Direção de Arte: Pascale Consigny. Figurino: Sandra Berrebi. Edição: Nili Feller. Som: Dolev Raphaely. Produção: Maren Ade, Thomas Alfandari, Jonas Dornbach, Janine Jackowski. Empresas Produtoras: Les Films du Bal, Chi-Fou-Mi Productions, Bustant Films, AMP Filmworks, Komplizen Film. Distribuição: Imovision. Duração: 150 min. 
 
Genial do início ao fim, este filme confirma a habilidade do realizador ao abordar temas espinhosos de seu país natal, sem negligenciar a invenção lingüística, dado que a obra é mui original no modo como é montada, interpretada, musicada e roteirizada, sendo inúmeras as cenas em que ficamos angustiados perante o desprezo dos cidadãos de Israel quanto aos palestinos. Vide o modo concordante como a funcionária de uma fotocopiadora reage ao ler a letra violentíssima do hino que Y hesita em musicar ou as reações efusivas dos freqüentadores de um restaurante, quando ele e Leah tocam juntos “Mamãe, Eu Quero”, ao piano, enquanto ali perto, cadáveres de crianças são destroçados por cachorros. A despeito de ser um filme divertidíssimo, “Yes” é também muito violento no que propõe: “no mundo, há apenas duas palavras, ‘sim’ e ‘não’. Cabe a nós escolher uma delas”. Ao final, a responsabilidade ética acerca do que é exposto cinematograficamente, de maneira brilhante e acelerada, é-nos direcionada: erotizar o ato de lamber as botas de assassinos é uma opção exibida para o nosso escrutínio. De maneira nada sutil, Nadav Lapid confirma o laudo repetido entre os usuários conscientes das redes sociais: infelizmente, os judeus sionistas são os nazistas contemporâneos!

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

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