quinta-feira, 30 de abril de 2026

Zico, O Samurai de Quintino

 
No Brasil, é comum que pais e mães, quando grávidos, comprem a camisa do time do coração logo no nascimento de seus filhos. No Clube de Regatas do Flamengo, um dos maiores, senão o maior clube do país, essa tradição é quase um ritual. Ainda assim, muitos desses pequenos torcedores crescem sem conhecer a fundo a história do time ou de quem o transformou em gigante. É ai que entra: Arthur Antunes Coimbra, o Zico, nome consagrado entre gerações mais antigas, mas que nem sempre tão presente entre os mais jovens. E nesse contexto se faz importante o documentário "Zico - O Samurai de Quintino" estrear nas telas. O longa surge como uma ponte entre passado e presente, apresentando a trajetória do jogador a novas plateias. Algo que para muitos fãs revela uma história extraordinária, daquelas que, sem dúvida, merecem destaque, e para o jornalismo, engrandece uma jornada exemplar e que merece todo respeito.

Com direção de João Wainer e distribuição da Downtown Filmes, o filme faz com que o público entre dentro da casa do craque, conheça sua esposa, Sandra Carvalho, seus filhos, Júnior Coimbra, Bruno de Sá Coimbra, Thiago de Sá Coimbra, e também seus netos. Momentos raros da vida pessoal de Zico são vistos, como sua escolha por se casar cedo para se manter firme ao adentrar o mundo do futebol, além da relação com os filhos e o que eles tem para falar do pai, que precisou ficar muito tempo fora, muitas vezes, viajando para os jogos, e longe deles. Zico também aparece em um espaço que é similar a um "Hall da Fama" particular, um local simples, mas dedicado a seus prêmios e etc, onde joga "futebol de botão" com jornalistas, radialistas e amigos da imprensa ou ainda recebe os jogadores Ronaldo Fenômeno e Maestro Júnior e ainda o técnico Carlos Alberto Parreira para falar de sua trajetória no Flamengo e na Seleção Brasileira e de sua caminhada como um todo. 

De aparência franzina, mas forte, ainda garoto, Zico sempre foi o jogador capaz de construir e decidir partidas. No rubro-negro, atuou de 1971 a 1983, acumulando inúmeras vitórias e superando muitos desafios. O clube também foi o palco de sua aposentadoria, em 1989, após retornar em 1985, depois de uma passagem pela Udinese Calcio. Pela Seleção Brasileira de Futebol, não conquistou o sucesso esperado e viveu fases em que sequer foi convocado, mas disputou as Copas do Mundo de 1978, 1982 e 1986. Já nos anos 1990, o atleta voltou aos gramados para atuar no Kashima Antlers, no Japão. Com o tempo, criou uma forte ligação com o país e com a comunidade local, chegando a ser técnico da Seleção Japonesa de Futebol, em 2002, e mantendo-se sempre próximo das áreas técnicas dos clubes japoneses. Natural de Quintino Bocaiúva, bairro do Rio de Janeiro, Zico tornou-se um verdadeiro “samurai”: alguém que sempre demonstrou honra e dignidade, sendo merecedor de toda homenagem por sua incrível dedicação em tudo o que fez.

                                                   Crédito de Imagens: Miguel Vassy, Downtown Filmes - Divulgação
O documentário contou com pré estréias super antecipadas em Recife, Brasilia, Rio de Janeiro e São Paulo e Zico marcou presença em todas as ações


A presença relevante e imensurável de Zico no futebol brasileiro, no Flamengo e também em equipes no Japão revela um homem apaixonado pela família, pelo esporte e bastante consciente das dores e das belezas de sua trajetória. Durante os anos de chumbo da ditadura, ele e o irmão se viram vítimas, diretas e indiretas, daquele período tão sombrio, e, mais uma vez, o filme presta um importante serviço ao público que o assiste. Afinal, ao ouvir um ídolo reconhecer que tempos difíceis existiram e que muitas pessoas sofreram, talvez alguns passem a refletir melhor sobre o passado. A política também se faz presente no filme de forma quase onipresente, por meio de comentários e relatos de diversas situações vividas pelo jogador ao longo de sua carreira, desde momentos em que não foi escolhido para determinados times até decisões como atuar fora do Brasil.

O estilo do filme é simples, construído a partir de conversas despretensiosas, imagens de arquivo, fotografias e depoimentos de Zico em diferentes cenários do Rio de Janeiro e Japão, além de momentos em que aparece jogando futebol com os netos. Essa simplicidade está presente em todos os aspectos da obra, mas não impede que se compreenda a beleza da trajetória do atleta,  nem como seu caráter e sua força ajudaram a moldá-lo como uma figura tão importante para o esporte mundial.

João Wainer é diretor, fotografo e roteirista. Tem trabalhos em séries (Meu Ayrton, por Adriane Galisteu, 2025), videoclipes (Funk Rave, de Anitta, 2023) e foi responsável pelos filmes "Bandida" (2024)  e "A Jaula" (2022). Sua filmografia, como um todo, revela um percurso consistente e cada vez mais impressionante, e este trabalho é mais um exemplo disso.

Trailer

Ficha Técnica

Título original e Ano: Zico, O Samurai de Quintino, 2026. Direção: João Wainer. Roteiro: Thiago Iacocca. Participações Especiais: Zico, Sandra Carvalho, Maestro Júnior, Paulo César Carpegiani, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo Fenômeno, José Carlos Araújo, Júnior Coimbra, Bruno de Sá Coimbra, Thiago de Sá Coimbra. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil, Japão. Fotografia: Miguel Vassy. Trilha Sonora Original: Tejo Damasceno. Supervisão de Som e Mixagem: Eduardo Hamerschlak e Israel Vieira.Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto. Montagem: André Felipe Silva e João Wainer. Produção: André Wainer, Bruno Tinoco, Gabriel Wainer, Luiz Porto, Pedro Curi. Produtores Associados: Bruno Wainer, Raul Schmidt, Nathalie Felippe. Produção Executiva: André Wainer, Camila Villas Boas, Luiz Porto. Coordenação de Produção: Julia Duarte e Catherine Beranger. Story Producer: Márvio dos Anjos. Diretor de Produção: Thiago Galdino. Pesquisa de Imagens: Julia Oliveira e João Rosas. Identidade Visual: Renato Forster. Patrocinio Master: Sicoob. Patrocínio: Austral/Re, Tim. Apoio: BRDE, FSA, Ancine. CoproduçãoGlobo Filmes,  Sportv,  Pontos de Fuga e Investimage. ProduçãoVudoo Filmes e Guará EntretenimentoDistribuidora: Downtown Filmes. Duração: 01h43min.

Fã ou não do Flamengo, gostando ou não de futebol, conhecer trajetórias de luta como a de Zico, um samurai inigualável, é algo extremamente necessário. Histórias assim ajudam a moldar comportamentos e oferecem como exemplo um homem de valor que, mesmo sendo de outra geração, demonstrou maturidade para não se enfiar em polêmicas comuns no meio esportivo e manter o foco no que realmente importa: a vida familiar e a arte de jogar.

O Diabo Veste Prada 2

 
Muitos filmes que são sucesso de crítica e bilheteria, anos depois ganham sequências que simplesmente não tem nada mais a acrescentar e existem só por pura nostalgia. Esse não é o caso de O Diabo Veste Prada 2, dirigido por David Frankel e roteirizado por Aline Brosh McKenna. A continuação do longa estreia vinte anos depois do filme de 2006 e o mesmo elenco de protagonistas e antagonistas que conquistou o público da primeira vez retorna a passarela: Anne Hathaway, Meryl Streep, Stanley Tucci e Emily Blunt. Entretanto, a produção trouxe desta vez uma trama que tem muito a falar: o esvaziamento do jornalismo hoje em dia, as revistas sendo substituídas por espaço em plataformas digitais e a formação dos leitores nesse formato de mídia, ou ainda, a pauta das escolhas femininas não serem mais sobre a constituição de famílias e sim o alcance de sucesso em suas próprias carreiras. Há também uma leve diversidade de corpos, sejam eles gordos ou de mulheres indianas, pretas, ou asiáticas, que revela o mundo contemporâneo (ou uma Hollywood mais inclusiva, por assim dizer).

É realmente surpreendente que a narrativa tenha conseguido superar a si mesma. A produção se preparou para o tempo atual e emplacou, por exemplo, rostos novos, como da atriz Simone Ashley (Bridgerton,2022-2026), que interpreta Amari, a fria e competente assistente número 1º de Miranda Priestly (Meryl Streep). Com o humor típico do original, o filme encontrou seu próprio ritmo e enxerga na figura de Andrea "Andy" Sachs (Anne Hathaway), aquele amor pelo jornalismo que dá orgulho e até incentiva muitos a ingressarem na carreira. Nesta continuação, ela mantem esta grande paixão pela profissão, embora agora tenha mais experiência no meio e esteja mais segura de si. Meio a decadência do campo em todo o mundo, com equipes sendo demitidas, reduzidas e desvalorizadas, Andy, quer lutar até o fim pela alma do jornalismo (e, olha que a área realmente está precisando de mais pessoas assim, que a defendam). Mas voltando, Andy é uma jornalista com uma carreira premiada. Inclusive, o filme abre com uma sequência quase que nostálgica dela nas ruas de Nova York a caminho de uma premiação de comunicação. No evento, ela e sua equipe são premiados, mas também recebem a drástica noticia que estão sem emprego a partir daquele momento.

Não muito longe dali, Miranda Priestly está envolvida em um escândalo que pode comprometer o nome da Runway, por ter elogiado uma marca que explora os trabalhadores. O CEO da empresa, Irv Ravitz (Tibor Feldman), para não deixar o caldo engrossar, resolve recontratar Andy como a nova editora de reportagens especiais e assim dar uma nova cara a revista, surpresa esta que Priestly não encara muito bem. As duas se reúnem junto com Nigel e precisam resolver a situação para assim não perderem os patrocinadores. Logo, decidem se encontrar com uma grande marca de moda para fazer um acordo e evitar grandes perdas. O momento exibe bem como revistas e jornais são o palco da publicidade. Uma realidade que tem lá seus pontos negativos, mas não deixa de entregar verdade. E é aí que entra a outra peça desse quarteto icônico dos anos 2000: uma das "Emily's", ou melhor Emily Charlton (Emily Blunt). A moça agora está a frente da Dior, marca de luxo, que como muitas, manda e demanda no mundo da moda. O quarteto se reencontra e Emily faz suas demandas para auxiliar a revista a sair do "possível cancelamento". Assim, enquanto Emily está chocada que Andy está de volta ao barco, a jornalista também tem seus enfretamentos com Miranda, que deixa claro que no primeiro erro, ela está fora.

Crédito de Imagens: © 2026 20th Century Studios. All Rights Reserved.
Rodado de junho a outubro de 2025, O Diabo Veste Prada 2 tem cenários que passam por Nova York e pela Itália.

O Diabo Veste Prada 2 não tem intenções sérias, mas ainda assim, discute de forma leva a mídia impressa em decadência e como se adaptar a um mundo cada vez mais digital, em que a moda e o jornalismo disputam a atenção dos consumidores e leitores. Ao mesmo tempo, a produção conversa sobre a relevância das mulheres e os papéis que elas assumem nessa guerra midiática. Como escrever sobre coisas que importam, quando na verdade, o jornalista deveria começar a escrever textos que geram cliques para a empresa?

Miranda, por exemplo, mesmo sendo conhecida como um monstro assustador por todos que trabalham para ela, ficou na sombra dos CEOs da Elias-Clarke em toda sua trajetória na Runway. Desde sempre, um cargo maior lhe é prometido, o cargo de editora global do conglomerado, mas de novo algo ocorre e tudo muda, neste caso, uma tragédia acontece nada mais será como antes. A toda poderosa se cala diante das mudanças que o filho de Irv, Jay Ravitz BJ Novak), quer trazer para a Runway, e tudo isso pode afetar o andamento dos trabalhos por ali. Assim, ela precisa decidir entre aceitar que é a hora de parar, ou se luta para permanecer na revista. E é aqui que entra Andy, que antes mesmo de Miranda despertar de sua inercia, já esta tentando tomar as rédeas dessa situação.

Dentro da discussão sobre a relevância de uma revista nos dias de hoje, o que é fazer jornalismo de verdade do ou trabalhar no mundo da moda, também existem as mulheres. Para alguns, se trata de mais uma transação bilionária, já para mulheres como Miranda e Andy, se trata de carreiras pelas quais vale a pena lutar. Por funções as quais, elas tem ainda muito a dizer e a fazer.

Na corrida pela evidência da Runaway, outra figura feminina tem relevância nesse contexto: Sasha Barnes (Lucy Liu), uma filantropa que anda sumida da mídia e sem dar entrevistas, pois não quer ser definida noticias sobre o fim de seu casamento com o milionário Benji Barnes (Justin Threoux). No entanto, em uma tentativa de conseguir um artigo que as pessoas realmente querem ler, Andy acaba conseguindo que Sasha fale com Miranda. A bilionária fará uma grande diferença, no fim das contas, ao ver que o que Miranda e Andy querem é devolver a Runway ao jornalismo e a moda e isto é o que realmente importa.


Trailer

Ficha Técnica

Título Original e Ano: The Devil Wears Prada 2, 2026. Direção: David Frankel. Roteiro: Aline Brosh McKenna, baseado nos personagens do livro de Lauren Weisberger. Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Simone Ashley, Kenneth Branagh, Lucy Liu Traci Thoms, Pauline Chalamet, Caleb Hearon, B.J.Novak, Patrick Brammall, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J. Shen, Amanda Morrow, Karolina Kurkova, Ciara, Naomi Campbell, Jon Baptiste, Tom Johnson, Vincent De Paul, Marc Jacobs. Gênero: Comédia, Romance. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Theodore Shapiro. Fotografia: lorian Ballhaus. Edição: Andrew Marcus. Design de Produção: Jess Gonchor. Direção de Arte: Christopher J. Morris. Figurino: Molly Rogers. Empresas Produtoras: 20th Century Studios, Wendy Finerman Productions, Sunswept Entertainment e Walt Disney Studios Motion Pictures. Distribuidora: 20th Century Studios. Duração: 1h59min.

A trilha de canções que abrilhantam o filme é um outro grande acerto. Algo digno dos filmes que marcaram os anos 2000. Dua Lipa, Olivia Dean, Laufey, RAYE e Lady Gaga, em um feat com Doechii, estão na lista. Lady Gaga assina outras músicas originais para o longa, como "Shape Of a Woman". Além disso, também tem Miley Cyrus em uma parceria com Brittany Howard, com a faixa "Walk of Fame". Madonna, que não pode faltar, está presente com o hit aclamado "Vogue", referência clara a revista de Anna Wintour. A banda Post Animal, do ator Joe Keery (Stranger Things), também está na seleção de músicas que tocam durante o filme.

HOJE NOS CINEMAS

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Pinóquio, de Igor Voloshin

 

O italiano Carlo Collodi publicou seu livro “Pinóquio” em 1883, sete anos antes de sua morte, fato que ocorreu, inclusive, no auge de sua fama. A história se tornou um clássico e já conta com mais de vinte adaptações para o cinema, que transitam entre animações (como o clássico homônimo da Disney, de 1940, dirigido por Norman Ferguson, T. Hee e Wilfred Jackson), stop motion (como o filme de 2022 lançado pela Netflix, sob a direção de Guillermo del Toro) e versões em live action (sendo a mais recente o longa de 2022 da Disney, dirigido por Robert Zemeckis).

Na trama original, o carpinteiro Geppetto sonha em ter um filho e, ao esculpir um boneco, o nomeia de Pinóquio. Por um toque mágico da Fada Azul, seu desejo de paternidade se realiza quando o boneco ganha vida. No entanto, Pinóquio continua sendo um boneco de madeira, bastante diferente dos demais meninos da região. Seu crescimento é permeado por aventuras guiadas por um comportamento travesso, desobediente e impulsivo, muito semelhante ao de uma criança de verdade. O menino de madeira acaba sendo manipulado e lançado em armadilhas por personagens que representam como a vida humana funciona quando a mentira e a manipulação entram em cena. O “pseudo garotinho” também se mete em enrascadas e deixa de ir à escola ao se envolver com más companhias, e seu destino reage a essas escolhas, fazendo-o enfrentar graves consequências, como passar fome, ser preso e até ser transformado em burro. Um elemento emblemático da trama é que, ao mentir, o nariz de madeira de Pinóquio cresce. A fábula criada por Collodi conduz o leitor a acompanhar o personagem aprendendo, da forma mais dura, o que é ter responsabilidade, ser honesto e se esforçar para alcançar seus sonhos. Esse caminho nebuloso, no entanto, também o leva a bons lugares. Ao se transformar, o amor de Pinóquio por Geppetto o faz repensar sua própria história e agir para se tornar verdadeiramente bom, pois, no fundo, ele sempre foi um garoto ingênuo e de boa índole.

Partindo da história original, o cinema russo, uma indústria em plena ebulição, que tem apresentado ao mundo inúmeras produções de qualidade, traz sua própria versão da trama, com diversas alterações em relação ao material original, sem deixar de fazer alusão à fábula sobre como os seres humanos podem evoluir e crescer, ainda que passando por tantas inúmeras dificuldades, muitas vezes, auto infligidas. Aqui, o filme dá voz a três baratas, Alejandro (voz de Nikolay Drozdov), Toni (voz de Anton Shastun) e Giovani (voz de Ivan Dmitrienko), e estas tomam a rédea de conceder a Geppetto (Aleksandr Yatsenko) o sonho de ser pai ao usar uma chave mágica da Madame Tartaruga (Svetlana Nemolyaeva). O utensílio leva o homem a um quarto com uma voz falante onde ele tem a chance de fazer um desejo e um pedaço de madeira no chão se torna Pinóquio (voz de Vitaliya Kornienko). O garoto se mete em inúmeras confusões e até se envolve com uma trupe de teatro bem malandra liderada por Karakas Barabas (Fedor Bondarchuk). Aliás, a forma com que Pinóquio e Geppetto se desconectam por parte dessa aventura é bem distinta das outras adaptações e mostra um homem talvez ainda mais frágil perante as ameaças que enfrenta do mundo. Não temos o Grilo falante, como em outros filmes, mas as três baratinhas amigas farão essa conexão com o garoto por sua jornada, ainda que com outras nuances e não tão fortes quanto a original.

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano: Buratino, 2026. Direção: Igor Voloshin. Roteiro: Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev baseado na obra clássica de Carlo Collodi. Elenco: Vitaliya Konienko, Aleksandr, Fedor Bondarchuk, Viktoriya Isakova, Aleksandr Petrov, Anastasiya Talyzina, Mark Eydelshteyn, Stepan Belozyorov, Ruzil Minekaev, Lev Zulkarnaev, Svetlana Nemolyaeva, Nikolay Drozdov, Anton Shatun, Ivan Dmitrienko. Gênero: Fantasia, Familia, Aventura. Nacionalidade: Russia. Trilha Sonora Original: Aleksey Rybnikov. Fotografia: Maxim Zhukov. Design de Produção: Irina Belova e Vladislav Ogay. Figurino: Nadezhda Vasileva. Empresas Produtoras: Art Pictures Studio, NMG Studio, Studio Plus e Vodorod. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h42.

A principal referência do filme é a obra de 1976, dirigida por Leonid Nechaev, “Priklyucheniya Buratino”. Trata-se de uma adaptação musical baseada no livro do escritor russo Aleksey Tolstoy, “As Aventuras de Buratino ou A Chave de Ouro” (1936). Tolstoy concebeu sua versão do clássico inicialmente com a intenção de apenas traduzir a história para o russo, no entanto, o projeto acabou ganhando autonomia criativa e se transformou em uma releitura livre, com mudanças significativas em relação à narrativa original. O personagem rapidamente conquistou popularidade entre o público soviético e se consolidou como um dos ícones mais marcantes da literatura infantil russa.

Crédito de Imagens: Art Pictures Studio, NMG Studio, Studio Plus e Vodorod - Paris Flmes, Divulgação
A trilha sonora de Aleksey Rybnikov para o filme de 1976 “Priklyucheniya Buratino” foi rearranjada para caber no longa e impressiona pela sonoridade


A proposta ousada e criativa da película se arrisca a ser diferente e, talvez por trazer tantas modificações em relação à trama original, não conquiste a todos, mas certamente dialoga com aqueles que apreciam adaptações mais autorais e diversas. Ainda assim, o filme apresenta um enredo envolvente e preserva alusões ao processo de aprendizado vivido por Pinóquio ao longo de sua jornada.

Igor Voloshin assina a direção, mas é também roteirista e produtor em sua carreira, e já soma mais de vinte trabalhos ao todo. Seu projeto mais recente é também uma versão russa de “O Mágico de Oz”, lançada no Brasil em 2025. Tecnicamente, seu novo filme impressiona: há grande qualidade nos figurinos, no design de som, no CGI do personagem central, assim como nas baratinhas, além de um cuidado evidente com os efeitos visuais como um todo. O elenco se destaca pela atuação potente de atores como Fedor Bondarchuk, que interpreta um psicopata extremamente calculista, construindo um vilão com história de fundo, o que o torna uma figura ao mesmo tempo fascinante e perturbadora. A dublagem de Vitaliya Kornienko também merece destaque, ao dar vida a um Pinóquio expressivo e cheio de falhas. Já Aleksandr Yatsenko entrega uma performance melancólica e humilde, e esta versão de Geppetto se mostra tão marcante quanto a de Tom Hanks no filme de Robert Zemeckis (2022).

A dica é: ouse conhecer o cinema russo, mesmo com o áudio original dublado, apreciar as canções apresentadas pelo filme e se permitir explorar novos caminhos dentro do audiovisual.

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Rio de Sangue, de Gustavo Bonafé


Após uma operação fracassada contra traficantes em São Paulo, a policial Patrícia Trindade (Giovanna Antonelli) é afastada de suas funções. Em meio à frustração, decide viajar até o alto do rio Tapajós para visitar a filha, Luiza (Alice Wegmann), uma jovem médica que atua em uma missão humanitária ao lado do namorado Edenir (Rui Ricardo Diaz).

Na região, comunidades indígenas enfrentam abandono e escassez de assistência, dependendo do apoio da FUNAI e de ONGs para acesso a vacinas, exames e cuidados básicos, situação que desagrada profundamente os grandes proprietários de terras e exploradores ilegais da área. Entre eles está Polaco (Antônio Calloni), um poderoso líder ligado ao garimpo ilegal. Ao descobrir, por meio de infiltrados nos conselhos indígenas, que o grupo de liderado por Edenir busca fortalecer as comunidades locais e denunciar seus crimes ambientais e sociais, ele decide agir.

Polaco pressiona o filho Jadson (Ravel Andrade) a assumir mais responsabilidades nos negócios da família, incentivando-o a resolver o que considera “problemas menores”, embora, na prática, isso envolva violência e intimidação. Enquanto isso, o controle das operações parece, por ora, mais nas mãos do primo impulsivo e brutal (Rodrigo Simas). A situação escala rapidamente quando Jadson, acompanhado de capangas, entre eles Wanderson (Vinicius de Oliveira), invade a aldeia com o objetivo de eliminar o grupo de Edenir. Durante o confronto, Jadson é gravemente ferido e precisa ser socorrido por Luiza, que acaba sendo sequestrada para cuidar do herdeiro enquanto ele se recupera.

Nesse momento, Patrícia já está a caminho da região e se desespera ao descobrir o desaparecimento da filha. Determinada a resgatá-la por conta própria, ela encontra apoio no indígena Mário (Fidelis Baniwa), que a ajuda a se infiltrar disfarçada no território dominado pelos criminosos. Sem poder contar com a ação das autoridades, que permanecem inertes, Patrícia segue sozinha em uma missão arriscada. Sua única ajuda vem do amigo e policial Chagas (Sérgio Menezes), que se aventura pela mata para encontrá-la e tentar tirar mãe e filha daquela situação extrema.

A produção da Star Distribution chegará aos cinemas esta semana e conta com direção de Gustavo Bonafé (O Doutrinador, 2018) e também é distribuído pela Buena Vista International.

Crédito de Imagens: Photo by Rafael Martinelli, Milena Seta e Kaue Zilli - Star Distribution e Buena Vista International © 2025 Star Distribution e Intro Pictures. All rights reserved.
O filme contou com apresentação na "D23 - Uma Experiência Disney", em novembro de 2024, e só agora está estreando nas telas de todo o país


Com passagens como assistente de direção e roteirista, Gustavo Bonafé já demonstrava domínio narrativo em trabalhos como Chocante (2017) e "Legalize Já: Amizade Nunca Morre"(2017), ambos codirigidos por ele. Aqui, no entanto, o diretor dá um passo adiante e entrega um thriller de ação vigoroso, centrado em uma protagonista feminina que não hesita em fazer justiça com as próprias mãos para garantir a segurança da filha. Acerta em cheio e se o público comprar a ideia, tem tudo para ser sucesso.

O filme se sustenta em um ritmo ágil e envolvente, que mantém a tensão mesmo quando certos elementos do roteiro sugerem o destino de alguns personagens. Ainda assim, isso não compromete a experiência; ao contrário, reforça a condução segura de Bonafé, que, junto à equipe, entrega um longa eficiente e instigante. O diferencial está na escolha de colocar mulheres no centro da narrativa, em papéis ativos e estratégicos, dentro de uma dinâmica de ação que soa inteligente e necessária.

O roteiro, assinado por Lucas Vivo García Lagos, Dennison Ramalho, Felipe Berlinck, José Luiz Magalhães e Gustavo Rademacher, oferece bases sólidas para o desenvolvimento dos personagens, permitindo que o elenco construa figuras consistentes e convincentes. Há um bom equilíbrio entre os diferentes núcleos, com destaque para as nuances que emergem tanto entre protagonistas quanto antagonistas. O elenco responde à altura. Desde os atores indígenas até nomes mais conhecidos do grande público, há um trabalho coeso. Giovanna Antonelli, frequentemente associada a papéis mais leves ou românticos, surpreende ao interpretar uma mulher forte, resiliente e movida por um instinto de proteção inabalável. Alice Wegmann, por sua vez, foge do arquétipo da jovem ingênua e compõe uma médica firme, capaz de reagir com coragem diante das adversidades.

No campo dos coadjuvantes, Sérgio Menezes imprime presença mesmo com menos tempo de tela, adicionando peso à narrativa. Entre os antagonistas, Ravel Andrade se destaca ao construir um personagem mais ambíguo, enquanto Rodrigo Simas e Vinicius de Oliveira representam um núcleo mais brutal e direto. Há, contudo, diferenças sutis interessantes: o filho de Polaco surge como uma figura mais deslocada, inclinada ao escapismo e aos excessos, enquanto seu primo e os capangas já estão plenamente assimilados à lógica violenta e degradante do garimpo. A boa atuação de Fidélis Baniwa em entregar um personagem coringa na trama é a cereja do bolo.

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano:  Rio de Sangue, 2026. Direção: Gustavo Bonafé. Roteiro: Lucas Vivo García Lagos, Dennison Ramalho, Felipe Berlinck, José Luiz Magalhães, Gustavo Rademacher. Colaboradores do texto: Rubens Marinelli e Gabrielle Siqueira. Elenco Giovanna Antonelli, Alice Wegmann, Felipe Simas, Antônio Calloni, Sérgio Menezes, Fidélis Baniwa, Ravel Andrade. Gênero: Ação, Thriller, Drama, Crime. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Rafael Martinelli, Milena Seta e Kaue Zilli. Edição: Paulão de Barros, Leticia Giffoni e Marcelo Junqueira. Direção de Arte: Marcos Carvalheiro e Maira Suzuki. Figurino: Alice Canella. Empresas Produtoras: Star Original Productions e Intro Pictures. Distribuição: Buena Vista International e Star Distribution. Duração: 01h46min.

Rio de Sangue deveria ter chegado aos cinemas em 2025, mas seu atraso não inferiu em sua potência e o público poderá conferir nas telas uma super produção com elenco, narrativa e direção afiadas. A própria trilha sonora também joga bem e o resultado final do conjunto é envolvente e impressiona e cativa quem assiste.

Os Testamentos: das Filhas de Gilead


Já está disponível no Disney+ a série Os Testamentos: das Filhas de Gilead, inspirada no romance homônimo, escrito em 2019 por Margaret Atwood (ver aqui). O spin-off expande o universo de “O Conto da Aia” (2017-2026, Bruce Miller) e se passa anos após os eventos da obra original, ambientada em Gilead, um regime teocrático e totalitário que tomou grande parte dos Estados Unidos, onde as mulheres são privadas de qualquer direito. Bruce Miller também está no comando do show.

A série estrelada por Elizabeth Moss foi ganhadora de 15 Emmys e 2 Globos de Ouro, ao longo de seis temporadas, e chegou ao seu fim nas últimas semanas. O enredo apresentou ao público um mundo distópico devastado por uma crise de fertilidade onde algumas mulheres são forçadas a se tornarem Aias e são ainda submetidas a um sistema brutal que utiliza seus corpos para gerar filhos para a elite dominante ou satisfazê-los como profissionais do sexo, ou em outra função de servidão. Em “Os Testamentos”, esse regime já começa a apresentar sinais de decadência.

Logo no primeiro episódio, titulado "precious flowers", o que se traduz para "flores preciosas"em português, somos apresentados a Agnes (Chase Infiniti), uma adolescente parda criada dentro de Gilead, que segue rigidamente as normas impostas, embora, em seu interior, já exista uma semente de dúvida e rebeldia. Ela estuda em uma escola comandada pela infame Tia Lydia (Ann Dowd), responsável por preparar as jovens para seu destino: tornarem-se esposas de Comandantes.

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: The Testments, 2026. Direção: Mike Barker. Roteiro: Bruce Miller - baseado no livro de Margaret Atwood. Editores de narrativa executivos: Nate Burke, Sam Rubinek e Elise Brown. Elenco: Chase Infinity, Lucy Halliday, Mabel Li, Brad Alexander, Isolde Ardies, Rowan Blanchard, Mattea Conforti, Zarrin Darnell-Martin, Eva Foote, Kira Guloien, Ann Dowd. Gênero: Drama. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Adam Taylor. Fotografia: Greta Zozula. Edição: Wendy Hallam Martin. Design de Produção: Martha Sparrow. Figurino: Leslie Kavanagh. Empresas Produtoras: HULU, MGM Television. Distribuidora: Disney+. Duração por episódio: 44min.

A simbologia das vestimentas segue sendo um elemento importante: Agnes veste roxo, indicando que ainda não menstruou; após a puberdade, passa a usar verde, sinalizando que está pronta para o casamento.  trama ganha novos contornos com a chegada de Daisy (Lucy Halliday), uma jovem “pérola” vinda de fora do sistema. Criada em liberdade no Canadá, ela é vista como insurgente e potencial ameaça. Agnes recebe a missão de orientá-la e ensiná-la a obedecer às regras, embora qualquer laço de amizade entre elas seja estritamente proibido.


Crédito de Imagens: Photo by Disney/Disney - © 2025 Disney. All rights reserved.
O livro apresenta uma narrativa que se desenvolve 15 anos após os ocorridos de "O Conto da Aia". No entanto, a Série de Bruce Miller, acontece apenas 4 anos após a finalização do enredo de June Osborne, que está intrinsecamente ligado ao das protagonistas.


Tia Lydia, figura já conhecida do público, funciona como elo direto entre “O Conto da Aia” e esta nova narrativa. É ela quem mantém o controle e a disciplina dentro da estrutura educacional de Gilead, moldando as jovens para perpetuar o sistema. No entanto, Lydia, Agnes e Daisy acabam se tornando peças-chave em uma possível ruptura. Juntas, representam uma força de resistência capaz de desafiar a ordem vigente, expondo as fragilidades de um regime profundamente misógino e opressor.

Os Testamentos traz a estrela em ascenção Chase Infiniti que esteve no premiadíssimo "Uma Batalha Após a Outra", de Paul Thomas Anderson, além do retorno de Ann Dowd como tia Lidia. Elizabeth Moss quase chegou a dirigir os primeiros episódios da série, mas com o super trabalho de finalizar "O Conto da Aia" não teve tempo para ingressar por trás das câmeras aqui. No entanto, é algo que pode rolar no futuro com o caminhar do show.

Os três primeiros episódios já estão disponíveis na plataforma, com novos capítulos sendo lançados semanalmente, sempre às quartas-feiras.


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domingo, 12 de abril de 2026

O Estrangeiro, de François Ozon



“A doença verdadeira era a velhice. Não nos curamos disso!”

O cineasta François Ozon é um dos realizadores mais prolíficos da atualidade, lançando praticamente um filme por ano (às vezes, mais de um) e entremeando a sua já vasta filmografia com chistes experimentais de gênero e releituras atualizadas de obras dos autores que mais o influenciaram. Na primeira categoria, destacamos o extraordinário “8 Mulheres” (2002), o estiloso “Angel” (2007), o hilário “Ricky” (2009) e o metalingüístico “Dentro da Casa” (2012); na segunda, títulos como “Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes” (2000), baseado numa peça teatral fassbinderiana, e “Frantz” (2016), regravação de um clássico dramático lubistchiano. Entre uma e outra categoria, trabalhos menos pretensiosos, porém inspirados, como “O Amor em 5 Tempos” (2004), “Jovem e Bela” (2013) e “Verão de 85” (2020). Nem sempre ele acerta, mas consegue estimular debates…

O Estrangeiro” (2025) faz parte do grupo das adaptações: ao converter em material cinematográfico a novela publicada por Albert Camus [1913-1960] – publicada em 1942, mas já levada às telas, no ano de 2001, por Zeki Demirkubuz na Turquia, e por Luchino Visconti [1906-1976], em 1967, e transformada em canção pela banda britânica The Cure, em 1979, que aparece nos créditos finais do filme ora resenhado –, o diretor francês adiciona algumas de suas marcas registradas (o homoerotismo demarcante, no modo como são enquadrados os corpos dos atores, por exemplo), mas respeita de maneira até surpreendente o texto original. E com resultados irregulares.

O filme inicia-se como ‘flashback’, diferenciando-se da famosa abordagem subjetiva que, no livro, demarca a apatia emocional do protagonista Meursault  (Benjamin Voisin), através da perturbadora frase de abertura: “mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei”. No filme, Meursault explica para os companheiros de cela as circunstâncias, puramente casuais, que levaram-no a assassinar um árabe, em Argel, no final da década de 1930.

Crédito de Imagens:  Manuel Dacosse - FOZ e Gaumont / Califórnia Filmes, Divulgação
O longa foi apresentado no Festival de Veneza, em setembro do ano passado, e também chegou a passar pelo Festival do Rio, em outubro do mesmo ano


Depois de um curto documentário de época, percebemos Meursault dormindo, até ser despertado por alguém que bate à sua porta, e entrega-lhe um telegrama, com a notícia fatídica. Tal qual acontece no livro, ele pede dois dias de folga e participa dos ritos fúnebres ansiados por sua mãe, que era interna num asilo. Entretanto, ele não demonstra emoção quanto ao que efetiva, o que chama negativamente a atenção dos presentes no velório, incluindo um velhinho que alega ser o noivo da falecida.

Encerrados os ritos fúnebres, mas ainda em folga de seu trabalho, Meursault resolve banhar-se, e encontra Marie (Rebecca Marder), indisfarçadamente apaixonada por ele. Vão juntos ao cinema, onde assistem à comédia “Schpountz, o Anjinho” (1938, de Marcel Pagnol), e, depois transam. Meursault continua com a sua vida corriqueira, incomodando a alguns por seu jeito taciturno. Interage com o vizinho Salamano (Denis Lavant), que passeia constantemente com um cachorro idoso, a quem agride, e com o cínico Raymond (Pierre Lottin), que espanca a amante argelina (Hajar Bouzaouit) e pede que Meursault testemunhe em seu favor. Tudo isso voltará num julgamento, na segunda metade do filme…

Trailer




Ficha Técnica

Título original e ano: L'Étranger, 2025. Direção : François Ozon. Roteiro: François Ozon, com colaboração de Philippe Piazzo, baseado no livro homônimo de Albert Camus. Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Mireille Perrier, Christophe Malavoy, Nicolas Vaude, Jean-Charles Clichet, Hajar Bouzaouit. Nacionalidade: França, Bélgica, Marrocos. Gênero: Drama, Crime. Casting: Anaïs Duran, Hossein Sabir. Fotografia: Manuel Dacosse. Montagem: Clément Selitzki. Direção de Arte: Katia Wyszkop. Figurino: Pascaline Chavanne. Maquiagem: Nathalie Tabareau. Música Original: Fatima Al Qadiri. Som:  Emmanuelle Villard, Jean-Paul Hurier, Julien Roig, Benjamin Viau. Produção: François Ozon. Empresas Produtoras: FOZ e Gaumont. Coprodução: France 2 Cinema, Macassar Productions, Scope Pictures. Apoio: Canal+. Em associação: Cinéventure 11, Indéfilms 14, Cinémage 20, Cofinova 22. Participação:  Ciné+OCS e France Télévisions. Distribuição: Califórnia Filmes. Duração: 02h02min.
 
Em pouco mais de duas horas de duração, acompanhamos Meursault personificando crises de existencialismo que têm tudo a ver com a filosofia camusiana, mas as seqüências passadas na prisão não são tão assertivas quanto os passeios e lidas ambivalentes com os prazeres, por parte do protagonista, visto que o olhar intencionalmente inexpressivo de Benjamin Voisin desperdiçam o potencial dramático de cenas fortes, como a visita de Marie, em meio à algaravia de outras mulheres, por detrás de grades, e a insistência de um padre (Swann Arlaud) em conceder uma bênção a Meursault, que afirma não acreditar em Deus e declara que, pela primeira vez, está permitindo abrir-se à “terna indiferença do mundo”.

Muitíssimo bem fotografado, em preto-e-branco, por Manuel Dacosse, colaborador habitual do diretor, e musicado por Fatima Al Qadiri, “O Estrangeiro” respeita as idiossincrasias da narrativa original, sendo fiel ao desenrolar dos eventos e à caracterização dos personagens, ainda que, conforme dito, François Ozon faça questão de demarcar as suas obsessões eróticas (vide o ‘close-up’ marcante numa das axilas de Abderrahmane Dekhani, antes do personagem Moussa ser assassinado, e a acolhedora troca de olhares entre Meursault e um de seus colegas de cela). Trata-se de uma adaptação respeitosa, que faz uma válida autocrítica ao colonialismo francês e apresenta-nos às mazelas associadas à dificuldade em demonstrar sentimentos – ou, ainda pior, à incapacidade de sentir alguns deles, como acontece ao protagonista. O cenário dominante do tribunal, na segunda metade da trama, não fascina tanto quanto a reconstituição citadina da primeira metade, mas é um filme que merece aplausos pelos excelentes atributos técnicos e pela eficiente indução contemporânea das preocupações filosóficas da obra original. Não chega a recuperar o elã da fase exordial da filmografia ozoniana, mas possui vários méritos. Recomendamos!