quinta-feira, 11 de junho de 2026

Dia D, de Steven Spielberg

 
Um dos diretores mais prolificos da indústria e que arrasta os moviegoers sempre que retorna às telas é na certa Steven Spielberg. Seu primeiro longa-metragem, lançado há sessenta e dois anos atrás, "Firelight", assim como seus três primeiros curtas "The Last Gun" (1959), "Fighters Squad" (1961) e "Escape to Nowhere (1961)", também são provas de que se manter ativo é essencial para exercitar a mente criativa e explorar ideias originais. Como um bom vinho, seu talento e seu apurado senso artístico apenas se aprimoraram com o passar do tempo. Transitanto por diversas temáticas ao longo de sua carreira, mas retornando vez ou outra à ficção científica, Spielberg é frequentemente visto como um verdadeiro “embaixador da causa alienígena”. Essa relação começa com "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", de 1977, se consolida com o clássico "E.T. - O Extra-Terrestre", de 1982, e ganha outra dimensão com "Guerra dos Mundos", de 2005. Mas, se o tema dos extraterrestres sempre encontrou terreno fértil em sua filmografia, por que não retornar à estaca zero e explorar as teorias sobre os acontecimentos que teriam ocorrido na realidade, ainda que sob uma perspectiva dramática e ficticia? É aí que entra Dia D, uma jornada que conduz o espectador a um encontro direto com seres alienígenas e às consequências de sua presença na Terra, enquanto os Estados Unidos iniciam um processo de ocultação e sigilo em torno dos arquivos relacionados ao fenômeno.

Na trama, Josh O'Connor vive Daniel Kellner, um especialista em dados confidenciais que trabalha na equipe de Hugo Wakefield, personagem do excelente Colman Domingo, líder das operações biológicas da empresa Wardex, parceira do Departamento de Defesa do governo estadounidense. Kellner possui acesso irrestrito aos arquivos que documentam experiências e contatos de agentes com seres de outros planetas, e tanto ele quanto Hugo integram uma operação independente e secreta destinada a revelar ao mundo verdades mantidas em sigilo há décadas. O problema é que Kellner não quer colocar em risco sua namorada Jane, interpretada por Eve Hewson. Ex-freira e completamente alheia à dimensão dos acontecimentos, ela acaba fugindo com Daniel na tentativa de escapar da perseguição implacável de Noah, o poderoso chefe da Wardex, vivido por um Colin Firth sabor vilão todo poderoso. Enquanto isso, a jornalista e apresentadora da previsão do tempo Margaret Fairchild, papel da incrível Emily Blunt, começa a experimentar mudanças inexplicáveis após um estranho encontro, durante o café da manhã, com um passáro cardeal-do-norte que é espantado por seu namorado Jackson, interpretado por Wyatt Russell. A partir desse momento, Margaret passa a falar idiomas que nunca aprendeu, sem sequer perceber o que está acontecendo. Durante uma transmissão ao vivo da previsão do tempo, ela trava diante das câmeras e, em vez de concluir sua apresentação, emite uma série de sons que parecem compor uma linguagem codificada. O episódio desperta imediatamente o interesse do governo e da Wardex, que passam a monitorá-la e enviam agentes para localizá-la. Não demora para que Margaret perceba outras habilidades incomuns. Ela começa a enxergar fragmentos da vida das pessoas ao seu redor, oferecendo conselhos e informações capazes de ajudá-las a evitar problemas ou resolver conflitos familiares. Em meio a essas visões, um nome surge repetidamente em sua mente: Daniel Kellner. Convencida de que ele é a chave para compreender o que está acontecendo, Margaret abandona tudo, inclusive o namorado, e parte em busca do rapaz. Juntos, eles tentam encontrar Hugo Wakefield e desvendar os segredos por trás da misteriosa operação que está em andamento.

O longa contou com sessões antecipadas nesta quarta-feira (10), em horários noturnos, em todo o país e em cerca de outras dezesseis capitais ao redor do mundo. No entanto, sua estreia oficial lá fora acontece em 12 de junho, marcando o pontapé inicial da temporada das grandes estreias do verão norte-americano.

Crédito de Imagens: © Universal Studios. All Rights Reserved.
Spielberg contou em diversas entrevistas que foi fortemente inspirado por relatos de supostos “UAPs” feitos por pilotos da Marinha, nomenclatura mais recente usada para se referir a "OVINI" e é o termo do qual o diretor admite ter mais familiaridade


Com uma narrativa intensa e extremamente sensível, Spielberg retorna aos cinemas após seu belíssimo e autobiográfico "Os Fabelmans", de 2022. Aqui, ele constrói uma história centrada na jornada de um homem e uma mulher, ou, em outro plano narrativo, de uma menina e um garoto, cuja conexão se torna essencial para que a humanidade compreenda que formas de vida inteligente vêm tentando estabelecer contato, mas têm sido mal interpretadas e, em grande parte, silenciadas pelo governo dos Estados Unidos, que acredita que “o mundo não está preparado” para lidar com tais revelações. Margaret, marcada por sua sensibilidade e inquietação, sente-se deslocada e constantemente em busca de algo maior, seja em sua vida pessoal ou na carreira como jornalista. Em determinado momento, acorda com a necessidade de mudar novamente sua trajetória. Seu parceiro, um namorado autocentrado e acomodado, insiste em permanecer no Kansas, satisfeito com sua rotina de apresentações musicais e resistente a qualquer mudança. Em paralelo, Daniel surge como uma figura de racionalidade e lógica. Excelente em matemática, ele enxerga o mundo sob uma perspectiva científica e objetiva, mas entende que o conhecimento que detém não pode permanecer oculto. Por isso, decide compartilhar o segredo com sua namorada, ciente da gravidade e das consequências do que está revelando. Ela, por sua vez, carrega uma trajetória marcada por sua passagem pela vida religiosa como ex-freira, o que adiciona uma dimensão espiritual às suas dúvidas e escolhas. Ainda assim, sua visão se afasta de qualquer disputa por poder, focando mais na busca por sentido do que em controle ou dogma. Essas relações se espelham com força em tela, oferecendo reflexões profundas a partir da construção cuidadosa de cada personagem. O conflito central também se expressa no embate entre os líderes Noah e Hugo, representando, respectivamente, o controle e a liberdade do conhecimento. Trata-se de uma metáfora potente sobre a forma como a informação é gerida e disputada no mundo contemporâneo.

As nuances e detalhes intrínsecos da história são apresentados de forma profundamente spielberguiana, e o público tende a se maravilhar com as escolhas do diretor, mais uma vez sensível e atento ao que é ser humano e ao papel de “vaso para o bem”, e não para o seu oposto. Ademais, trata-se de uma das experiências cinematográficas mais envolventes dos últimos anos, em que a duração é bem calibrada e tudo no filme prende a atenção. Há ritmo nas perseguições, surpresas ao longo dos atos e também um desfecho consistente. Além disso, é possível perceber traços e referências a "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", ainda que não haja conexões narrativas diretas.

Trailer


Ficha Técnica

Título Original e Ano: Disclosure Day, 2026. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Koepp - com argumento original de Steven Spielberg. Elenco: Emily Blunt, Josh O'Connor, Colman Domingo, Colin Firth, Eve Hewson, Wyat Russell, Elizabeth Marvel, Tommy Martinez, Priyanka Kedia, Elliot Villar, Clarke Thorell, Elizabeth Stanley. Gênero: Ficção Cientifica. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: John Williams. Fotografia principal: Janusz Kaminski. Fotografia secundária: Patrick Capone. Edição: Sarah Broshar. Design de Produção: Adam Stockhausen. Supervisão de Direção de Arte: Deborah Jensen. Figurino: Paul Tazewell. Efeitos EspeciaisLindsay MacGowan. Empresas Produtoras: Amblin Entertainment e Universal Pictures. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 02h25min.

Com uma trilha sonora original assinada pelo mestre John Williams, a pedido especial de Steven Spielberg, o filme se desenvolve de maneira elegante, e as emoções surgem como reflexo de composições bem arranjadas, menos extravagantes e mais singelas.

O elenco é notável. Colin Firth interpreta um homem rígido que encontra sua própria forma de redenção, funcionando como contraponto ao personagem vivido por Colman Domingo, que traz uma liderança mais afetuosa, sábia e equilibrada. Josh O'Connor, que vem se destacando em filmes recentes como "Rivais" (Luca Guadgnino, 2024), "A História do Som" (Oliver Hermanus, 2025) e "The Mastermind" (Kelly Reichardt, 2025), entrega uma atuação precisa, marcada por escolhas sutis e, ao mesmo tempo, intensas ao longo de sua trajetória. Emily Blunt, ainda em cartaz com a continuação de O Diabo Veste Prada, reafirma sua força dramática ao longo de uma carreira marcada por papéis exigentes e variados, sendo, entre os colegas britânicos do elenco, aquela que melhor domina os sotaques norte-americanos. O casting também reúne dois nomes frequentemente associados ao rótulo de “nepo babies”, mas que vêm consolidando suas carreiras com talento crescente: Eve Hewson, filha de Bono Vox, e Wyatt Russell, filho de Goldie Hawn e Kurt Russell. Eve iniciou sua carreira em 2008 e trabalhou pela primeira vez com Spielberg em "Ponte dos Espiões" (2015), além de ter participado de filmes como "This Must Be the Place" (Paolo Sorrentino, 2011) e "Papillon" (2017), bem como diversas produções da televisão britânica. Wyatt, por sua vez, atua desde 1996, e ganhou notoriedade em produções ligadas ao universo Marvel como o novo Capitão América, junto ao pai, integra o elenco da série "Monarch: Legado de Monstros" (Apple TV+, 2023–atual), e estrelou filmes como "Mergulho Noturno" (Bryce McGuire, 2024).

Aqui temos o sci-fi que emociona tanto pela história quanto pela condução magistral de Steven Spielberg, consolidando-se como um forte rival de "Devoradores de Estrelas" (Phil Lord, 2026) na disputa pelo título de melhor do gênero em 2026.

HOJE NOS CINEMAS

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