quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Odisseia, de Christopher Nolan


Após a parceria bem-sucedida com a Universal no lançamento de Oppenheimer (2023), que rendeu a Christopher Nolan o Oscar de Melhor Filme, o diretor retorna com sua nova proposta: uma releitura épica e dramática de "A Odisseia", sequência dos acontecimentos narrados em "A Ilíada", de Homero. O longa acompanha a conturbada jornada de retorno do rei grego Odisseu (Matt Damon) e de seus homens, obrigados a enfrentar deuses e criaturas míticas durante a travessia pelo mar. A produção incorpora um elemento recorrente na filmografia de Nolan: a narrativa não linear. A brincadeira temporal, que apresenta as consequências antes das causas, cria um constante efeito de antecipação da tempestade antes da calmaria.

Anos após o desaparecimento de Odisseu, sua rainha, Penélope (Anne Hathaway), governa Ítaca de forma "temporária". Diversos pretendentes ao trono ocupam os salões do palácio, enquanto ela é pressionada pelos anciãos a escolher um novo marido. Seu filho, Telêmaco (Tom Holland), ainda alimenta a esperança do retorno do pai, embora não guarde qualquer lembrança dele. O jovem príncipe também sofre pressão dos pretendentes para romper com as leis de hospitalidade de Zeus e enfrentá-los, correndo o risco de ser exilado e deixar o caminho ainda mais livre para aqueles que desejam usurpar o reino. À frente desse grupo está Antínoo (Robert Pattinson), um homem astuto que foi poupado da Guerra de Troia ainda na infância, quando seu irmão Sinon (Elliot Page) foi enviado em seu lugar. Manipulador, ele atua constantemente para desestabilizar Telêmaco e alcançar seus próprios interesses. Cercados por ameaças, mãe e filho continuam acreditando no improvável retorno de Odisseu.

Enquanto isso, a narrativa apresenta Odisseu perdido, sem memória, vivendo em uma ilha paradisíaca ao lado da ninfa Calipso (Charlize Theron). Aos poucos, ele reconstrói os acontecimentos que o levaram até ali, enquanto suas escolhas continuam produzindo consequências para aqueles que ficaram em Ítaca. A deusa da sabedoria, Atena (Zendaya), surge ocasionalmente para instigá-lo a recordar seus infortúnios, quase como uma personificação do próprio trauma. Essa maneira curiosa de abordar os deuses gregos é uma diferença marcante no senso comum sobre eles. Nolan transforma a figura de deuses com corpos e desejos humanos em “forças” da natureza ou elementos etéreos e afastados da realidade. Essa visão monoteísta do divino desfigura todo o propósito que os deuses têm dentro da narrativa original e transfere para os humanos o papel de agente ativo nas mazelas do mundo, ficando prejudicada a profundidade da rica discussão que entrelaça deuses e humanos como reflexos de si mesmos.

Ao mesmo tempo que desfigura, essa visão anacrônica serve ao grande propósito primordial do roteiro, também assinado por Nolan, de trazer uma discussão sobre o fim de uma ordem vigente e o começo de uma nova. Os valores, costumes e a cultura de uma determinada época sempre alcançam um apogeu e chegam a um fim inevitável. Uma nova ordem não surge sem que faça ruir de forma catastrófica a anterior. Está impressa aqui a visão romantizada de que o ponto de não retorno para aqueles povos ocorreu após os gregos enganarem os troianos com o falso presente de rendição para depois invadirem, saquearem e pilharem a cidade. Essa abordagem substitui o feito como uma tática ousada de guerra por uma traição vil e desleal. O roteiro perde força nesse sentido por desconsiderar que táticas desleais sempre existiram e continuam a existir hoje em muitas partes do mundo. As guerras nunca foram ganhas com justiça ou igualdade de forças. O diretor parece querer dizer que as sociedades humanas são cíclicas e precipita (talvez, sem intenção consciente) que o fim agonizante de um império nem sempre vem para o bem. Um possível reflexo de um sentimento coletivo da sociedade estadunidense no século XXI.

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: The Odyssey, 2026. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan - adaptação do livro homônimo de Homero. Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, Zendaya, Charlize Theron, Elliot Page, Samantha Morton, Jon Bernthal, Himesh Patel, Mia Goth, Josh Stewart, Benny Safdie, Logan Marshall-Green,John Leguizamo, James Remar, Travis Scott, Corey Hawkings. Gênero: Ação, Épico, Aventura,Drama. Nacionalidade: Reino Unido e EUA. Trilha Sonora Original: Ludwig Göransson. Fotografia: Hoyte van Hoytema. Edição: Jennifer Lame. Design de Produção: Ruth De Jong. Empresas Produtoras: Universal Pictures, Syncopy e Wildside. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 02h52min.

O elenco estrelado é um deleite à parte apesar de alguma fadiga com certos atores que parecem estar presentes em todos os grandes filmes produzidos em Hollywood. Ninguém pensa seriamente em um descanso de imagem? São questões que vêm à mente involuntariamente nesse caso. Observando os trabalhos em si, a atuação mais destacada é, sem dúvida, a de Matt Damon com sua expressão enigmática e onipresente. Astuto e sagaz em suas poucas palavras de grandes impactos, a construção causa simpatia quase que imediata. O drama do pai que precisou se afastar dos filhos para cumprir uma missão maior que ele e agora tenta retomar esse tempo perdido ainda é um tema central dentro dos filmes de Christopher Nolan. O mesmo não pode ser dito dos outros personagens, apesar de intrigantes, não é possível estabelecer uma conexão emocional com eles. Os diálogos entre Anne Hathaway e Tom Holland carregam as cenas mais dramáticas e políticas e dão a eles a oportunidade de atuar bem quando necessário. Os personagens secundários são igualmente marcantes em cada uma de suas aparições. Mesmo aqueles com pouca participação como Lupita Nyong’o, no papel de Helena de Tróia, ou Samantha Morton, interpretando Circe, causam uma impressão duradoura, mas jamais a simpatia de quem as ouve. São personagens que facilmente dariam um longa próprio com igual profundidade temática, porém isso é um grande mérito das atrizes em traduzir emoções não comunicadas pelo roteiro. É perceptível que estamos acompanhando um simples recorte de um mundo muito mais amplo e rico do que o mostrado em tela, cuja amplitude parece sem precedentes e cuja emoções o diretor parece incapaz de aprofundar da maneira correta para além de seu protagonista.

O filme não é apenas amplo em seus personagens etéreos ou comentários temáticos, mas também em sua realização. Os cenários abertos e grandes tomadas aéreas ajudam a construir a profundidade épica necessária para tragar de forma irreversível quem o assiste para dentro da narrativa. Um grande mérito da fotografia de Hoyte van Hoytema. O orçamento de 250 milhões se justifica em cada cena na grandiosidade das locações utilizadas e na conhecida aversão ao uso de CGI por parte do diretor. É quase possível sentir na própria pele a fúria das tempestades e a brisa dos ventos salgados. Poucos longas têm essa capacidade de criar sensações próximas do real apenas com imagem e som, tornando quem o assiste um participante ativo da trama e não apenas um mero espectador. Essa experiência sensorial profunda é o grande ponto alto do filme.

Outro aspecto técnico assustadoramente perfeito aqui é a trilha sonora composta por Ludwig Goransson. As batidas fortes e tensas penetram de forma intensa nas cenas e, em muitas situações são capazes de criar uma sensação de inquietude e ansiedade desesperadoras. Nas cenas finais quando a timeline do passado do protagonista se mescla com o seu retorno heroico para Ítaca, a trilha se torna praticamente um personagem próprio, amplificando em muitas vezes as emoções dos atores, ajudando a construir a profundidade épica da situação e os empurrando ao limite de um penhasco de emoções sem controle.

                                            Crédito de Imagens: © Universal Studios. All Rights Reserved.
O épico foi filmado em locações na Grécia, Marrocos, Islândia, Escócia e Itália, além de estúdios na Califórnia, nos Estados Unidos.

As semelhanças de forma e estrutura com Oppenheimer mostram que há uma tentativa de replicar o que deu certo no filme anterior. A Odisseia repete a narrativa do homem excepcional atormentado por seus próprios pecados, intencionais ou não. É como se Nolan tivesse finalmente captado a fórmula mágica que faz um filme cair nas graças da academia: na primeira vez transformando uma história pessoal em um épico trágico e agora indo além e traduzindo um clássico em um épico ainda mais trágico. Talvez isso mostre o amadurecimento do cineasta ou só reforce suas próprias amarras enquanto realizador. O tempo dirá. O fato é que, mais uma vez, ele acerta em cheio nesse tipo de estrutura.

A discussão proposta, a trilha sonora, a fotografia e cenários grandiosos ajudam a construir os méritos positivos do filme enquanto que as atuações extremamente competentes parecem presas a um limitador emocional dos personagens, muitos deles um mundo em si mesmos. A reimaginação da obra clássica retira todo o aspecto de aventura rumo ao desconhecido e a transforma em uma saga de purgação. Nesse sentido, A Odisseia apresenta um épico de redenção de um ponto de vista etéreo e busca discutir temas já amplamente explorados em outras obras do realizador, deixando um gosto de quero mais, mas não pelos motivos certos.

HOJE NOS CINEMAS

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