domingo, 12 de julho de 2026

Uma Infância Alemã, de Fatih Akin

 
“Se tu bebes bastante, ficas bêbado; se tu lês bastante, torna-se culto”! 

Quem está acostumado ao ritmo frenético [manifesto em diversos momentos de “Contra a Parede” (2004) e “Do Outro Lado” (2007)], às pesquisas musicais [importantíssimas em “Atravessando a Ponte – O Som de Istambul” (2005) e “Soul Kitchen” (2009)] ou à estética do choque [evidente nas progressões narrativas de “Em Pedaços” (2017) e principalmente, “O Bar Luva Dourada” (2019)] que demarcam a ótima filmografia do cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, talvez estranhe o ritmo plácido e a fotografia paisagística de “Uma Infância Alemã” (2025). O título original, “Amrum”, menciona a região insular onde se passa a trama, na qual o garotinho Nanning (Jasper Billerbeck), membro da Juventude Hitlerista e filho de um membro importante do Partido Nazista, é obrigado a rever as crenças políticas que lhes foram incutidas, quando a Alemanha perde a II Guerra Mundial, no primeiro semestre de 1945… 

No início do filme, encontramos Nanning e outros garotos trabalhando na fazenda de Tessa (Diane Kruger, em mais uma colaboração com o diretor), que é francamente anti-hitlerista. Ela ensina os garotos a plantarem e colherem batatas e, assim, eles recebem algumas provisões alimentícias, visto que o dinheiro está exíguo e desvalorizado na ilha onde eles vivem. Mas a mãe de Nanning, Hille (Laura Tonke), que está grávida, não aprova esta colaboração empregatícia: ela considera Tessa uma traidora e a denuncia ao líder local, deixando Nanning impedido de conseguir manteiga e outros víveres. 

No dia 30 de abril de 1945, Hille e sua irmã Ena (Lisa Hagmeister), mais cética que ela, escutam a notícia do falecimento de Adolf Hitler, aos 56 anos de idade, sem que sejam esclarecidas as condições de sua morte. Emocionada, Hille dá a luz imediatamente, e recusa-se a comer os produtos que estão disponíveis em sua residência. Ela deseja ingerir um pão branco com manteiga e mel, o que faz com que Nanning empreenda uma peregrinação local, a fim de conseguir os ingredientes… 

Com cada pessoa que conversa, Nanning escuta uma impressão diferente acerca da situação da Alemanha sob o nazismo: a família de seu melhor amigo Hermann (Kian Köppke) revela-se fascinada pelos valores democráticos dos aliados anglofílicos, enquanto um soldado a quem ele chama de tio Onno (Jan Georg Schütte), só lhe entrega uma porção de açúcar se ele recitar os valores da Juventude Hitlerista. Em meio a tudo isso, alguns imigrantes poloneses chegam à ilha, em busca de refúgio. 

Crédito de Imagens: Karl Walter Lindenlaub, Bombero International, Rialto Film, Creative Europe Media, Warner Bros. Pictures Germany - Imovision, Divulgação
  O longa-metragem foi exibido na sessão "Cannes Première" durante a edição de 2025 do festival

Fotografado de maneira deslumbrante por Karl Walter Lindenlaub, “Uma Infância Alemã” possui diversos enquadramentos abertos, que emolduram tanto a beleza da praia que circunda a ilha quanto os perigos associados ao aparecimento de cadáveres trazidos pela maré. Assustado, Nanning chega a ser perseguido por alguns dos supracitados refugiados, depois que seus colegas de escola os agridem e tentam impedir que eles estudem. Como este garotinho lidará com opiniões tão contraditórias, ao envelhecer? 

Mesmo descobrindo várias mentiras contadas por sua mãe, a fim de manter ocultos alguns segredos de família – o envolvimento de um irmão dela com uma judia, por exemplo –, Nanning segue firme em sua decisão de obter o pão branco que sua mãe deseja e, assim, aprende a matar focas, coelhos e a roubar ovos de gansos, diferenciando os ovos ainda não chocos daqueles que já possuem pintinhos – e, por dedução, ficam impróprios para consumo. Numa região tão distante dos bombardeiros e dos campos de concentração, mas também afetada pelas mazelas da guerra, Nanning percebe-se diante da inevitabilidade da violência, enquanto componente acessório de seu amadurecimento moral. 

Co-roteirizado por Hark Bohm, um cineasta que era também parceiro recorrente do diretor, e que faleceu em 2025, “Uma Infância Alemã” (‘Amrum’), baseado num romance autobiográfico homônimo sobre a vida do co-roteirista, não julga os seus personagens, preferindo deixar que o próprio Nanning compreenda as distinções marcantes na relação dos discursos pró e contra Hitler, no que tange às interações humanas. Ele testemunha as humilhações sofridas por sua mãe, ao insistir em apregoar a paixão pelo chanceler, mesmo após a sua derrota, e age de maneira oportunista ao encontrar um soldado sangrando, após cometer suicídio. Ao final, ele próprio aparece envelhecido, contemplando o  entardecer no cenário titular. Trata-se de um filme importantíssimo para estimular as reflexões dos espectadores no cotejo com a guinada para a extrema-direita que infelizmente ocorre em diversos países, na atualidade. Que a sutileza deste enredo ajude-nos a garantir que eventos atrozes como aqueles evocados não se repitam… 

Trailer


Ficha Técnica

Título Original e ano: AMRUM, 2025. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Fatih Akin, Hark Bohm. Elenco: Jasper Billerbeck , Diane Kruger, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke, Lars Jessen, Detlev Buck, Mattias Scheighöfer,DirkBöhlingr. Gênero: Drama. Nacionalidade: Alemanha. Direção de fotografia: Karl Walter Lindenlaub. Direção de Arte: Seth Turner. Som: Joern Martens. Música: Hainbach. Montagem: Andrew Bird. Empresas Produtoras: Bombero International, Rialto Film, Creative Europe Media, Warner Bros. Pictures Germany. Distribuidora: Imovision. Produção: Fatih Akin, Herman Weigel.Duração: 93 min. Classificação: 14 anos

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

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