“Por diversas vezes, eu fui ameaçado de morte…”
Apesar do título nomenclatural, fala-se menos sobre uma pessoa que sobre um líder estudantil neste filme. E que, por conta disso, foi imortalizado, dado que arriscou a própria vida – até ser capturado pela ditadura – para lutar pelo direito à liberdade. “Honestino” (2025, de Aurélio Michiles), neste sentido, é sobre um ser humano que pautava o seu cotidiano pela busca do humanismo, no afã por estendê-lo ao máximo possível de brasileiros…
Logo na abertura, somos apresentados a uma estrutura docudramática que se instaurará em paralelo aos depoimentos de quem conviveu com o personagem real: o ator Bruno Gagliasso reconstitui – de maneira pleonástica – os olhares e lê os poemas das situações em que Honestino Guimarães [1947-1973] esteve confinado, seja durante as quatro vezes em que ele foi aprisionado, em Brasília, seja quando se escondeu no Rio de Janeiro, antes de ser assassinado, aos 26 anos de idade.
Durante a cerimônia de renomeação de uma ponte – no Distrito Federal, em dezembro de 2022 – em homenagem a Honestino, seu neto Lucas Guimarães lê um texto, no qual declara-se emocionado por saber que ele está ali graças aos esforços de seu avô, a quem sente que deve bastante, mesmo que não o tenha conhecido. É quando começamos a ouvir sobre ele, a partir das memórias de pessoas que o amaram e/ou foram seus companheiros de luta estudantil.
Estudante em Geologia, na UnB (Universidade de Brasília), Honestino – conhecido pela maioria através do apelido Gui – logo filiou-se à União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade da qual tornou-se presidente. O golpe militar que instituiu uma ditadura no Brasil ocorrera no ano anterior. O cineasta Jorge Bodanzky compartilhou uma breve conversa, num encontro de elevador, com o ex-presidente eleito Tancredo Neves [1910-1985], quando um deles cria que a ditadura poderia durar dez anos, enquanto o outro achava que não passaria de um ano. Durou mais de duas décadas!
Crédito de Imagens: Pandora Filmes, Divulgação
Bruno Gagliasso interpreta Honestino e, em 2019, também integrou o elenco de outro filme dedicado à trajetória de um importante revolucionário da história brasileira: Marighella, dirigido por Wagner Moura.
Não obstante ser “desnecessária”, a reconstituição de alguns eventos e das próprias reações aprisionadas de Honestino é justificada por algo dito pelo cineasta Hermano Penna, que explica que os militantes estudantis evitavam fotografar ou filmar os eventos, a fim de protegerem as suas identidades, em caso de estas imagens serem capturadas pela polícia, não produzindo evidências contra si mesmos, além do que já era noticiado pelos jornais (censurados) da época. Num momento impactante, o Cine Brasília serve como palco para uma das instigações antiditatoriais do personagem-título, junto a seus correligionários!
O próprio diretor Aurélio Michiles é um dos depoentes do filme, pois encontrou Honestino nos corredores da UnB e, tanto quanto os demais, ficou fascinado por seu carisma e eloqüência política. Num instante mui emocionante, extraído de outro documentário, a mãe de Honestino, Maria Rosa, comenta sobre o orgulho que sentiu quando o filho foi aprovado em primeiro lugar no vestibular. Entretanto, só obteve o diploma de geólogo postumamente, em 2024, na universidade que o consagrou enquanto liderança estudantil…
Outro momento bastante relevante, em termos emocionais, é quando a filha do militante, Juliana, comenta as poucas lembranças que guarda dele – inclusive, uma fotografia em que o rosto do pai está deitado em seu colo, num registo captado por seu padrasto. Todos os que compartilham algo sobre Honestino enfatizam o quanto ele era apaixonado pela vida, o quanto gostava de samba e que ele se recusou a exilar-se fora do país, por preferir estar no Brasil até o derradeiro momento. Há algo de televisivo na montagem do filme e as intervenções “cirandeiras” da esquerda contemporânea, em suas reivindicações identitárias, balizam a lógica documental, demarcada pela exigüidade de registros de época. Como destaque positivo, a trilha musical de Flávia Tygel, que é uma das compositoras, junto ao diretor e Xico Chaves, de “O Côro dos Canalhas”, canção executada durante os créditos finais, na voz expressiva de Fafá de Belém. Não sabemos muito sobre quem foi Honestino Guimarães, quando ainda vivia em Goiás, mas aprendemos com os seus exemplos de abnegação militante. Vale muito a pena pesquisar sobre ele, após a sessão – e dar continuidade, na prática, ao seu legado!
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Honestino, 2025. Direção: Aurélio Michiles. Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti. Elenco: Bruno Gagliasso. Gênero: Bruno Gagliasso. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: André Lorenz Michiles, ABC. Direção de Arte: Kita Flórido. Figurino: Isabel Lorenz Michiles. Montagem: André Finotti. Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC. Desenho de Som e Mixagem: Ricardo Reis, ABC. Trilha Sonora Original: Flavia Tygel. Música Tema (intérprete): Fafá de Belém. Pesquisa de Arquivo: Aurélio Michiles, Mariana Couto, Patricia Freyer, Tereza Eleutério. Produtor: Nilson Rodrigues. Produção Executiva: Caetano Curi. Produtora: Mercado Filmes. Distribuição: Pandora Filmes. Duração: 01h25.
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