domingo, 13 de setembro de 2026

Três Vezes Adeus, de Isabel Coixet

 
“As pessoas fazem de tudo quando estão solitárias. Inclusive escreverem críticas sobre persianas elétricas!”

Apesar de financiar seus filmes com capital predominantemente espanhol, a cineasta Isabel Coixet é acostumada às (co)produções internacionais, conforme aconteceu desde o longa-metragem que a consagrou, o sensível “Minha Vida Sem Mim” (2003), com o qual o roteiro desta nova produção possui algumas semelhanças. Porém, trata-se da adaptação de um romance homônimo da escritora Michela Murgia [1972-2023], o que demonstra que ela é sobremaneira autoral no trato dos assuntos que a interessam. Um elemento em comum, entre as diversas obras que realizou: a instauração de uma dificuldade amorosa que surge ocasionalmente, mas que devasta relacionamentos que pareciam sólidos e bem-sucedidos.

Tal qual ocorre no filme supracitado, a protagonista de “Três Vezes Adeus” (2025) descobre que está vitimada por uma doença terminal e passa a encarar com mais leveza e atenção os eventos do cotidiano, permitindo-se entregar ao gozo dos sentidos. Uma situação exemplar, enquanto demonstração disso: quando Marta (Alba Rohrwacher) depara-se com uma criança que chora, porque deixou cair um sorvete. Ela pede os mesmos sabores, numa sorveteria, e experimenta um orgasmo através de seu paladar, assim que aproxima a sua língua da iguaria gelada… 

O título original do filme – que pode ser traduzido como “três tigelas” – é sobremaneira efetivo acerca da exposição de como os sentimentos eclodem neste enredo: de maneira circunstancial, mas intensa. Logo no começo, Marta e seu namorado Antonio (Elio Germano) entram num supermercado porque ela desejava um biscoito. E, no instante do pagamento, por serem cadastrados num programa que permite a aquisição de produtos a partir da troca de pontos obtidos através de mercadorias compradas naquele estabelecimento, ganham as três tigelas que reaparecerão, ‘em passant’, até o desfecho. É o tipo de filme que nos re-ensina a perceber o que se passa ao nosso redor… 

Crédito de Imagens: Autoral Filmes, Divulgação
O longa-metragem passou pelo Festival de Toronto, em 2025, e pela última edição do Festival do Rio, no mesmo ano

Num momento decisivo, mas tão circunstancial quanto os demais, Marta diz a duas alunas a quem flagra cortando-se no banheiro que “a vida é um acidente belíssimo”. Tratava-se do que pode ser descrito como um clímax dramático – o funeral improvisado de um pombo assassinado pelos alunos da escola onde Marta trabalha como professora de Educação Física –, mas sem arroubos sentimentalóides: as lágrimas jorram porque são sinceras. À diretora, interessa o cotidiano, os encontros fortuitos, as reconciliações sem ensaios, a suspensão de julgamentos quando alguém confidencia algo… Neste sentido, o filme é um acidente (orquestrado) tão bonito quanto a própria vida, já que a elege como tema exortativo – e a trilha musical de Alfonso de Villalonga é esplendorosa! 

Magistralmente interpretado por todo o elenco – até mesmo pelo rapaz sul-coreano que comparece como um inanimado astro de ‘K-pop’, esculpido em papelão –. “Três Vezes Adeus” escolhe Marta como sua protagonista evidente, mas permite que outros personagens também compartilhem seus dramas e pontos de vista. Vide quando acompanhamos a rotina de trabalho no restaurante de Antonio, quando ele se aproxima da garçonete lésbica, interpretada por Galatéa Bellugi, ou quando Elisa (Silvia D’Amico), a irmã de Marta, confessa-lhe um adultério. Enquanto isso, um colega professor de Marta, Agostino (Franceso Carril), esforça-se para conquistá-la. O tempo passa de maneira sutil, mas ele passa. Como tal, chegará o momento em que Marta não estará mais ali… 


Trailer

Ficha Técnica

Título Origina e Ano: . Direção: Isabel Coixet. Roteiro: Isabel Coixet e Enrico Audenino, baseado no livro "Tre Ciotole" di Michela MurgiaElenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Francesco Carril, Silvia D'Amico, Galatéa Bellugi e Sarita Choudhury. Gênero: Drama. Nacionalidade: Itália e Espanha. Música: Alfonso De Vilallonga. Designer de Produção: Paola Comencini. Fotografia: Guido Michelotti. Som: Luca Anzellotti. Edição: Jordi Azategui. Produção: Riccardo Tozzi, Giovanni Stabilini, Francesca Longardi (Cattleya), Carlo Gavaudan, Marco Miana (Ruvido Produzioni), Massimo Di Rocco, Luigi Napoleone (Bartlebyfi lm), Marisa Fernández Armenteros (Buenapinta Media), Sandra Hermida (Perdición Films) e Alex Lafuente (Bteam Pictures). Distribuidora: Autoral Filmes. Duração: 120min. Classificação indicativa: 10 anos

A diretora é tão arguta na escolha dos intérpretes e na definição dos coadjuvantes, que até mesmo a gastroenterologista de Marta, Dra. Benati (Sarita Choudhury), consegue destacar-se dialogisticamente, quando afirma que “o estômago é o nosso segundo cérebro”, ao concordar com Marta quando ela insinua que “o fígado parece o capacete de um ciclista” ou quando atesta que “o único ser vivo que nunca adoece é a ameba, mas ela não pode aprender coreano”. Pela maneira graciosa com que os personagens interagem entre si, ler o romance que deu origem a este roteiro deve ser uma experiência deliciosa. Confessamos, aqui, o interesse em encaixá-lo em nossas metas de leitura! 

Voltando ao filme: Isabel Coixet consegue nos emocionar mesmo quando atua profissionalmente fora de sua Espanha natal, do mesmo modo que fizera em “A Vida Secreta das Palavras” (2005), “Ninguém Deseja a Noite” (2015) ou no premiadíssimo “A Livraria” (2017). Percorrendo as ruas e vielas romanas, ela emula, em essência, os melhores diretores italianos – tanto que o nome de Pier Paolo Pasolini é flagrado numa homenagem institucional urbana e um agradecimento é direcionado a Nanni Moretti, nos créditos de encerramento, quando finalmente ouvimos a piada sobre “a passagem de Karl Marx pelo Paraíso”, que foi omitida no desentendimento corriqueiro que impulsionou o inesperado término de relacionamento entre Marta e Antonio. O filme avança mui graciosamente, com vistas à confirmação de algo apregoado pela personagem central: “ninguém escreveria cartas de amor se o amor não fosse uma grande confusão”. Quem nunca publicou uma resenha negativa sobre algo relacionado a um ex-parceiro sexual que atire a primeira pedra!

17 de Setembro nos Cinemas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pode falar. Nós retribuímos os comentários e respondemos qualquer dúvida. :)