“As pessoas fazem de tudo quando estão solitárias. Inclusive escreverem críticas sobre persianas elétricas!”
Apesar de financiar seus filmes com capital predominantemente espanhol, a cineasta Isabel Coixet é acostumada às (co)produções internacionais, conforme aconteceu desde o longa-metragem que a consagrou, o sensível “Minha Vida Sem Mim” (2003), com o qual o roteiro desta nova produção possui algumas semelhanças. Porém, trata-se da adaptação de um romance homônimo da escritora Michela Murgia [1972-2023], o que demonstra que ela é sobremaneira autoral no trato dos assuntos que a interessam. Um elemento em comum, entre as diversas obras que realizou: a instauração de uma dificuldade amorosa que surge ocasionalmente, mas que devasta relacionamentos que pareciam sólidos e bem-sucedidos.
Tal qual ocorre no filme supracitado, a protagonista de “Três Vezes Adeus” (2025) descobre que está vitimada por uma doença terminal e passa a encarar com mais leveza e atenção os eventos do cotidiano, permitindo-se entregar ao gozo dos sentidos. Uma situação exemplar, enquanto demonstração disso: quando Marta (Alba Rohrwacher) depara-se com uma criança que chora, porque deixou cair um sorvete. Ela pede os mesmos sabores, numa sorveteria, e experimenta um orgasmo através de seu paladar, assim que aproxima a sua língua da iguaria gelada…
O título original do filme – que pode ser traduzido como “três tigelas” – é sobremaneira efetivo acerca da exposição de como os sentimentos eclodem neste enredo: de maneira circunstancial, mas intensa. Logo no começo, Marta e seu namorado Antonio (Elio Germano) entram num supermercado porque ela desejava um biscoito. E, no instante do pagamento, por serem cadastrados num programa que permite a aquisição de produtos a partir da troca de pontos obtidos através de mercadorias compradas naquele estabelecimento, ganham as três tigelas que reaparecerão, ‘em passant’, até o desfecho. É o tipo de filme que nos re-ensina a perceber o que se passa ao nosso redor…
Crédito de Imagens: Autoral Filmes, Divulgação
O longa-metragem passou pelo Festival de Toronto, em 2025, e pela última edição do Festival do Rio, no mesmo ano
Num momento decisivo, mas tão circunstancial quanto os demais, Marta diz a duas alunas a quem flagra cortando-se no banheiro que “a vida é um acidente belíssimo”. Tratava-se do que pode ser descrito como um clímax dramático – o funeral improvisado de um pombo assassinado pelos alunos da escola onde Marta trabalha como professora de Educação Física –, mas sem arroubos sentimentalóides: as lágrimas jorram porque são sinceras. À diretora, interessa o cotidiano, os encontros fortuitos, as reconciliações sem ensaios, a suspensão de julgamentos quando alguém confidencia algo… Neste sentido, o filme é um acidente (orquestrado) tão bonito quanto a própria vida, já que a elege como tema exortativo – e a trilha musical de Alfonso de Villalonga é esplendorosa!
Magistralmente interpretado por todo o elenco – até mesmo pelo rapaz sul-coreano que comparece como um inanimado astro de ‘K-pop’, esculpido em papelão –. “Três Vezes Adeus” escolhe Marta como sua protagonista evidente, mas permite que outros personagens também compartilhem seus dramas e pontos de vista. Vide quando acompanhamos a rotina de trabalho no restaurante de Antonio, quando ele se aproxima da garçonete lésbica, interpretada por Galatéa Bellugi, ou quando Elisa (Silvia D’Amico), a irmã de Marta, confessa-lhe um adultério. Enquanto isso, um colega professor de Marta, Agostino (Franceso Carril), esforça-se para conquistá-la. O tempo passa de maneira sutil, mas ele passa. Como tal, chegará o momento em que Marta não estará mais ali…
Trailer
Ficha Técnica
Título Origina e Ano: . Direção: Isabel Coixet. Roteiro: Isabel Coixet e Enrico Audenino, baseado no livro "Tre Ciotole" di Michela Murgia. Elenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Francesco Carril, Silvia D'Amico, Galatéa Bellugi e Sarita Choudhury. Gênero: Drama. Nacionalidade: Itália e Espanha. Música: Alfonso De Vilallonga. Designer de Produção: Paola Comencini. Fotografia: Guido Michelotti. Som: Luca Anzellotti. Edição: Jordi Azategui. Produção: Riccardo Tozzi, Giovanni Stabilini, Francesca Longardi (Cattleya), Carlo Gavaudan, Marco Miana (Ruvido Produzioni), Massimo Di Rocco, Luigi Napoleone (Bartlebyfi lm), Marisa Fernández Armenteros (Buenapinta Media), Sandra Hermida (Perdición Films) e Alex Lafuente (Bteam Pictures). Distribuidora: Autoral Filmes. Duração: 120min. Classificação indicativa: 10 anos
A diretora é tão arguta na escolha dos intérpretes e na definição dos coadjuvantes, que até mesmo a gastroenterologista de Marta, Dra. Benati (Sarita Choudhury), consegue destacar-se dialogisticamente, quando afirma que “o estômago é o nosso segundo cérebro”, ao concordar com Marta quando ela insinua que “o fígado parece o capacete de um ciclista” ou quando atesta que “o único ser vivo que nunca adoece é a ameba, mas ela não pode aprender coreano”. Pela maneira graciosa com que os personagens interagem entre si, ler o romance que deu origem a este roteiro deve ser uma experiência deliciosa. Confessamos, aqui, o interesse em encaixá-lo em nossas metas de leitura!
Voltando ao filme: Isabel Coixet consegue nos emocionar mesmo quando atua profissionalmente fora de sua Espanha natal, do mesmo modo que fizera em “A Vida Secreta das Palavras” (2005), “Ninguém Deseja a Noite” (2015) ou no premiadíssimo “A Livraria” (2017). Percorrendo as ruas e vielas romanas, ela emula, em essência, os melhores diretores italianos – tanto que o nome de Pier Paolo Pasolini é flagrado numa homenagem institucional urbana e um agradecimento é direcionado a Nanni Moretti, nos créditos de encerramento, quando finalmente ouvimos a piada sobre “a passagem de Karl Marx pelo Paraíso”, que foi omitida no desentendimento corriqueiro que impulsionou o inesperado término de relacionamento entre Marta e Antonio. O filme avança mui graciosamente, com vistas à confirmação de algo apregoado pela personagem central: “ninguém escreveria cartas de amor se o amor não fosse uma grande confusão”. Quem nunca publicou uma resenha negativa sobre algo relacionado a um ex-parceiro sexual que atire a primeira pedra!
17 de Setembro nos Cinemas
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