quinta-feira, 1 de outubro de 2026

As Dores do Mundo: Hyldon, de Felipe David Rodrigues & Emílio Domingos


“Eu fui preso três vezes – e olha que eu era apolítico!”

Não se questiona que o álbum “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, lançado em 1975, seja uma obra-prima. É! Um disco perfeito. Porém, isto não é suficiente para sustentar o apelo de um documentário. E, infelizmente, é o que acontece neste caso: os diretores não sabem o que fazer com o objeto de análise. Começa-se biografando o cantor e compositor Hyldon Souza, depois começa-se a apresentar os seus maiores sucessos e, por fim, narra o processo de conversão do artista de produtor de sucessos alheios em responsável pela própria carreira. Ao final, a impressão é que sabemos menos sobre ele que antes… 

Nas primeiras seqüências de “As Dores do Mundo: Hyldon” (2025, de Felipe David Rodrigues & Emílio Domingos), constatamos a utilização de um recurso que manifestar-se-á até o final: a gravação, em Super-8, de movimentações contemporâneas do artista, em cenários baianos e paulistas, enquanto ele narra situações de sua vida. Porém, não há uma preocupação imagética em si: o que é mostrado serve apenas para ilustrar, redundantemente, aquilo que é ouvido. Exemplo: uma antiga namorada de Hyldon comenta que foi ao cabeleireiro, determinada vez, e vemos imagens antigas de algum filme em que alguém está num salão de beleza. A estética documental é de pura submissão radiofônica aos relatos… 

Os convidados são ótimos: Seu Jorge, Liniker, Sandra de Sá, Arnaldo Antunes, Wanderléa, Mano Brown. Cada um deles especifica em que sentido considera o disco supracitado um dos mais influentes do Brasil. Seja por conta da sonoridade inovadora, seja por causa da translação mui abrasileirada dos apanágios da ‘soul music’ estadunidense, todos celebram o impacto desta obra de arte fonográfica, que serviu como veículo de expressão identitária para os ouvintes negros da década de 1970. E que foi um sucesso acachapante de público e crítica! 

Crédito de Imagens: Luba Filmes e Campo Audiovisual, Divulgação
O documentário passou pelo Festival In-Edit e também pelo Festival do Rio em 2025

A despeito de tudo isso, os convidados não contribuem com nenhuma novidade ou fala autêntica: apenas repetem truísmos elogiosos e, eventualmente, executam alguma canção favorita, como Seu Jorge e a canção titular do álbum ou Sandra de Sá em relação à canção titular do filme. Mas… E daí? Enquanto arremedos composicionais de um filme-concerto improvisado, estas apresentações cancionais não se sustentam: são pouco expressivas, aquém dos talentos envolvidos. 

Parte considerável do documentário é dedicada às falas de Gioconda Sales, musa inspiradora de algumas das principais canções do álbum. Porém, o próprio artista confessa que se apaixonou por diversas mulheres depois dela, de modo que alguns dos eventos que ela compartilha soam desinteressantes, como o momento em que ela encontra, numa revista, pôsteres para os quais posou após alguém achá-la parecida com a atriz Olivia Hussey [1951-2024]. Mas isto é narrado sem o carisma pretendido. 

Obviamente, quando Hyldon compartilha detalhes de seu processo compositivo – a celeridade com que as canções ficavam prontas em sua mente, por exemplo –, o filme é dotado de um válido chamariz, no sentido de que a inspiração proveniente do disco em si estende-se para o ‘modus operandi’ do artista, cuja trajetória é narrada sem polêmicas ou eventos marcantes: num dia, ele está compondo com Tim Maia [1942-1998], por várias horas seguidas; no outro, está imaginando um coral de animais, numa fazenda, sob efeito de ácido lisérgico; de repente, desiludido após o mau trato de um namorado de Gioconda, ele viaja para Nova York. Mas é tudo banalizado enquanto processo... 

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: As Dores do Mundo - Hyldon, 2026. Direção: e Roteiro: Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues. Elenco: Hyldon, Wanderléa, Sandra de Sá, Liniker, Arnaldo Antunes. Gênero: Documentário, musica. Nacionalidade: Brasil. Direção de Som: Tomás Alem. Edição de Som: Bernardo Uzeda. Música: Hyldon. Montagem: Felipe David Rodrigues. Fotografia: Daniel Neves. Empresas Produtoras: Luba Filmes e Campo Audiovisual. Distribuidora: Curta!. Duração: 90min.
Incapaz de engendrar imagens marcantes e pouco inovador no que tange às anedotas de bastidores produtivos, “As Dores do Mundo: Hyldon” configura-se como um programa televisivo desenxabido e ritmicamente extenuante, apesar dos momentos dedicados à execução das excelentes canções do biografado. É permeado por intenções benfazejas – à frente, o de fazer com que as novas gerações entrem em contato com um dos maiores compositores nacionais de todos os tempos – mas que não se configura de maneira cinematográfica. Lembramos do disco, mas não necessariamente do que foi mostrado no filme (já que a maioria das imagens é reaproveitada para fins distintos dos originais), ao final da sessão. “Existe um mundo novo e quero te mostrar/ Que não se aprende em nenhum livro/ Basta ter coragem pra se libertar, viver, amar…”, canta o artista, numa de suas faixas mais famosas [“Na Sombra de uma Árvore”]. Ouçam Hyldon, ele é genial!

Hoje nos Cinemas!