“O que é a anistia? É poder voltar para o Brasil!”
Confirmando a extrema habilidade da professora Anita Leandro no manuseio de imagens de arquivo e na utilização discursiva de registros do passado como lembrete para que as mesmas situações hediondas não se repitam no presente, “Anistia 79” (2026), dentre as suas inúmeras virtudes, serve para demonstrar que os exilados que lutaram na Europa pela implementação de uma “anistia ampla, geral e irrestrita” para os presos políticos brasileiros não eram burgueses. “Quem é burguês não enfrenta a ditadura”, diz um dos entrevistados, ao referendar que as diferenças de classe ou até mesmo de nuanças ideológicas de esquerda foram secundarizadas, no ideal conjunto então requerido…
Servindo-se de imagens de uma conferência ocorrida em Roma, capital da Itália, em junho de 1979, bem como de um evento de preparação em 1975, a diretora convida algumas das pessoas que aparecem nestas capturas a se reconhecerem e, portanto, refletirem acerca do que mudou no país nos quase cinqüenta anos desde os eventos retratados.
Os depoimentos mais contundentes, diante das imagens apresentadas, são o da viúva e da filha de um sindicalista maranhense que perdera uma das pernas num ataque ditatorial e que requer atenção ao modo de trazer as questões democráticas para as ligas camponesas ou associações de trabalhadores, adequando os jargões políticos à realidade social dos mesmos. E é incrível perceber como a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil conseguiu unificar correntes de esquerdistas dissidentes, unificados em prol da implantação da anistia junto à definição de uma assembléia constituinte.
Apesar de alguns dos depoentes emocionarem-se ao reencontrarem imagens de amigos e companheiros de luta falecidos há décadas, a realizadora é muito cuidadosa para evitar que seja instaurado um tom comiserativo. Como o seu interesse nestes encontros é inequivocamente político, eles comentam loquazmente as falas, discursos e lembranças das situações e motivações daquele período, o que serve como lição pragmática para repensar os atos da esquerda “cirandeira” contemporânea, que desperdiça parte considerável de suas forças militantes na autocongratulação festiva.
Não obstante os aplausos serem abundantes nos eventos gravados, os palestrantes chamam a atenção para a atitude contraproducente de ficarem elogiando-se o tempo inteiro, sendo mui contundentes as falas de lideranças reivindicativas que conjugam os interesses de moradores de localidades rurais e das grandes cidades. Chega a ser idealizado o recorte argumentativo das pessoas mostradas, sendo deveras motivador aprender com as suas lições: os discursos lidos são realmente incríveis!
Crédito de Imagens: Embabúba Filmes, Divulgação
Título Original e Ano: Anistia 79, 2026. Direção: Anita Leandro. Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade. Elenco: Hamilton dos Santos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Branca Moreira Alves, Denise Crispim. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil, RJ. Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade. Montagem: Anita Leandro e Isabel de Castro. Fotografia: Bené Machado. Som: Glaydson Mendes. Empresa produtora: MONTANHA RUSSA CINEMATOGRÁFICA. Empresa(s) coprodutora(s): BANDA FILMES. Produção: Maria Flor Brazil e Alice de Andrade. Distribuidora: EMBAÚBA FILMES. Produção: Maria Flor Brazil e Alice de Andrade. Duração: 104min.
Aderindo recorrentemente a uma montagem – a cargo da própria diretora e de Isabel de Castro – que opta por uma estrutura trifásica, no qual diferentes entrevistados são vistos nos cantos da tela, enquanto imagens da conferência de 1979 são projetadas ao centro, Anita Leandro insiste em utilizar o material de arquivo encontrado – inédito para algumas daquelas pessoas, depois de tantos anos – como ponto de partida para um debate que coteja a situação do Brasil ditatorial com a conjuntura hodierna, recém-saída do desgoverno bolsonarista e sob tentativas violentas de golpes de estado. O diálogo é portanto, mui determinante para a potência convencedora desta obra.
Por motivos evidentes, este documentário se destaca muito mais pela relevância de seu assunto que por alguma esperada invenção de linguagem (pelo contrário, ele é até bastante convencional, conforme sói acontecer nas produções do canal fechado Curta!), mas a diretora atrela a exposição deste assunto a uma abordagem sóbria, intelectualizada e politicamente coerente, por parte de brasileiros que não rejeitaram o amor por seu país natal, mesmo quando ele estava sitiado pelos verdadeiros terroristas, que são os ditadores, como um deles categoriza. Neste sentido, “Anistia 79” é mais que obrigatório. Que ele chegue logo aos nossos cinemas. 2026 é um ano eleitoral, fazemos questão de frisar!
Ganhador da "Mostra Olhos Livres" na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes




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