quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Você Só Precisa Matar

 

“Quando eu faço as coisas diferentes, o futuro muda!”


Por ser baseado no mesmo romance ilustrado [“All You Need is Kill”, de Hiroshi Sakurazaka] que deu origem ao filme “No Limite do Amanhã” (2014, de Doug Liman), o enredo deste longa-metragem animado soa duplamente repetitivo, pois já vimos esta história antes e porque a repetição em si é um componente essencial da trama, no sentido de que os personagens experimentam os eventos de um mesmo dia mais de uma centena de vezes!

Diferentemente da adaptação hollywoodiana, “Você Só Precisa Matar” (2025, de Kenichiro Akimoto) investe no arrebatamento visual, explicando pouco da situação-chave, no início: fã assumido do cineasta David Lynch [1946-2025], o diretor japonês – em colaboração com Yukinori Nakamura – utiliza elaborados recursos de computação gráfica para construir a explosão da flor alienígena Darol, que irrompe subitamente, com seus raios rubros e longínquos, apropriando-se das energias dos seres humanos, a fim de se fortalecer. Um ano depois de sua aparição, esta flor libera criaturas ávidas por matar, para concluir o processo de deglutição. 

Estamos num futuro distante, e várias pessoas se oferecem como voluntárias, para estudar o enigma de Darol e, se for necessário, lutar para defender a soberania da Terra. Entre estas pessoas, está Rita (duplada por Ai Mikami, na versão original), que sente-se solitária e excluída por seus companheiros de batalha, na maioria das vezes: ela levanta-se às sete horas da manhã; toma o seu desjejum, ignorando os comentários maliciosos a seu respeito; veste o seu traje especial de combate; e percebe, espantada, o aflorar das criaturas que estavam no interior de Darol. É atacada, morre… e acorda no dia seguinte,  no mesmo horário, como se nada tivesse acontecido! 

Esta é a premissa central da narrativa: Rita vivenciará os mesmos eventos diversas vezes, até perceber que ela é capaz de modificar o aparente determinismo de sua rotina. Porém, por mais que ela tente, continua a ser morta pelas criaturas expelidas por Darol. Até que nota duas situações estranhas: 1 – de repente, seu traje de combate é atualizado com uma força descomunal; 2 – mesmo quando ela não morre, em duas ocasiões, desperta no mesmo dia, no mesmo horário. O que teria provocado isto? 

Crédito de Imagens: Studio 4°C - Paris Filmes, Divulgação
"Você Só Precisa Matar" foi exibido no Annecy International Animation Film Festival de 2025 e sua estréia no Japão aconteceu no inicio de janeiro deste ano


É quando ela conhece o jovem Kenji (Natsuki Hanae), que, tal como ela, revive o mesmo dia quase duzentas vezes. ‘Nerd’ especializado em informática, ele admite que estava espionando Rita há algum tempo, no afã por auxiliá-la em sua jornada. Ocorre que seu verdadeiro motivo é outro: como ele fôra bastante maltratado por seus colegas de colégio, ficou admirado por encontrar alguém que lida tão afirmativamente com a solidão. Apaixona-se, portanto. E lutarão juntos contra Darol… 

Conforme ambos descobrirão após algumas mortes conjuntas, há uma cientista que compreende os mecanismos de fortalecimento interior de Darol, e ela avisa-lhes que a flor alienígena deseja acoplar-se ao casal, no intuito de tornar-se imbatível e dominar o planeta por completo. É quando é sugerido que ambos visitem uma cratera onde estão os esporos de Darol, o que validará o título imperativo do filme. 

Servindo-se de um visual bastante colorido e de um desenho de som acachapante, ainda que a trilha musical não lhe faça jus, “Você Só Precisa Matar” é funcional quando assume a pieguice romântica e faz com que torçamos para que Rita e Kenji concretizem a união afetuosa esperada neste tipo de roteiro. Porém, algumas soluções infantilizadas (exemplo: os comportamentos dos robôs “engraçadinhos” de Kenji, que fazem companhia em sua jornada) dirimem o impacto visual da obra, de modo que tendemos a achar o enredo repetitivo e entediante, na maneia automática como manuseia os clichês de ficção científica. A despeito do apuro técnico inequívoco, o desenvolvimento incipiente do contexto em que Rita vive prejudica a adesão espectatorial, exceto no que tange ao supracitado estímulo romântico, previsivelmente efetivado. Ao final, de alguma maneira, o filme nos prepara emocionalmente, para o caso de haver uma hecatombe nuclear ou uma invasão extraterrestre, enquanto metonímias de tragédias que já acontecem no presente, na realidade belicosa associada à consolidação da extrema-direita, em vários países. Eis uma das funções da arte: ainda que de maneira disfarçada e/ou fantasiosa, faz com que estejamos devidamente educados para lidar com desafios imediatos ou com mazelas anunciadas a longo prazo, enquanto conseqüências das ações de nossos governantes ou de inimigos externos!

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Ôru Yû Nîdo Izu Kiru, 2025. Direçãode Ken'ichirô Akimoto e Yukinori Nakamura. RoteiroYûichirô Kido. Elenco: Ai Mikami, Natsuki Hanae, Mô Chûgakusei, Kana Hanazawa, Hiccorohee. Gênero: Adaptação, animação, scifi. Nacionalidade: Japão. Trilha Sonora Original: Yasuhiro Maeda. Direção de Arte: Tomotaka Kubo, Takanori Nakajima e Junji Ôkubo. Departamento de Animação: Hisato Tokumaru. Empresa ProdutoraStudio 4°C. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h26min.

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