Em 22 de agosto de 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek faleceu aos 76 anos em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra (KM 165), próximo a Resende (RJ). Em 06 de dezembro de 1976, o ex-presidente João Goulart, o Jango, morreu aos 57 anos no seu exílio na Argentina, vítima de um ataque cardíaco. Para completar as coincidências macabras, em 21 de maio de 1977. sucumbiu Carlos Lacerda, aos 63 anos, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, de infarto decorrente de uma infecção no coração (endocardite bacteriana), com quadro de gripe e desidratação. Em 13 de dezembro de 1968, sem nenhuma oposição política expressiva, todos os principais líderes tinham falecido recentemente, a ditadura militar instaurou o Ato Institucional Nº 5, o famigerado AI-5, que afundou o Brasil nos anos de chumbo, uma época de terror institucional, em que todas as garantias constitucionais foram suspensas, dando vazão às sanhas sádicas dos militares, passe livre para prisões, torturas, sequestros e mortes de opositores.
Essa sucessão de fatos trágicos foi objeto de estudo de muitos defensores dos direitos humanos. A Comissão Nacional da Verdade, criada para esclarecer os crimes do regime militar, se debruçou sobre cada um destas ocorrências, tentando estabelecer uma relação causal e também encontrar culpados. Mas, entre 2012 e 2014, muitas evidências já tinham se apagado e nunca se pode provar nada. Só sobraram suspeitas e especulações.
Em 2025, o diretor brasileiro André Sturm lançou em festivais o longa-metragem "A Conspiração Condor", um relato romantizado do que realmente pode ter acontecido naquela época difícil. Baseado em suspeitas nunca provadas, esta “estória” ficcional pode talvez embasar a “história” factual do que ocorreu. Realizador experiente, responsável pelos filmes "Sonhos Tropicais" (2001) e "Bodas de Papel" (2008), além de vários curtas-metragens como "Quem Você Mais Deseja" (2005), o diretor foi ousado em abordar período tão nebuloso da história recente do Brasil, com alguns participantes e seus descendentes diretos ainda vivos.
Trailer
Ficha Técnica
- Título Original e Ano: A Conspiração Condor, 2025. Direção: André Sturm. Roteiro: Victor Bonini, André Sturm. Elenco: Mel Lisboa, Dan Stulbach, Maria Manoella, Nilton Bicudo, Zécarlos Machado, Pedro Bial, Liz Reis, Bri Fiocca, Lavínia Pannunzio, Luciano Chirolli, Marat Descartes, André Sturm. Gênero: Drama, Thriller. Nacionalidade: Brasil. Música: Ale Guerra. Fotografia: Andradina Azevedo. Montagem: Nina Galanternick, EDT. Direção de Arte: Ana Rita Bueno. Figurino: Isis Cecchi. Edição de Som: Eric Ribeiro Christani, A3PS. Direção de Som: Clara Cervantes. Empresa Produtora: Lep Filmes. Produção: Liz Reis, Beatriz Reis e André Sturm. Empresa Coprodutora: Murnau Filmes. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração: 115min.
A colunista social Silvana (Mel Lisboa) é destacada, a pedido dela, para cobrir o velório de JK em Brasília. Lá estarão celebridades, políticos importantes, e ela teria material para várias notas sociais e de fofocas em suas reportagens. Mas a jornalista, querendo mudar de rumo em sua carreira, desloca sua atenção para as pessoas comuns, colhendo um depoimento que a deixa estarrecida, alguém que afirma que sua parenta estava no ônibus envolvido no acidente e que não teria ocorrido nenhuma batida. Com essa informação, a jornalista começa uma perigosa incursão pelos labirintos do poder, tentando descobrir o que realmente aconteceu. Ajudando-a nesta investigação, destaca-se o jornalista independente Juan (Dan Stulbach), um charmoso quarentão que ela conheceu no velório em Brasília.
Mas ninguém é o que realmente parece, nem mesmo seu amigo gay de longa data, o censor do jornal Floriano (Nilton Bicudo), que a acoberta em suas derrapadas no trabalho, onde é perseguida por seus colegas de profissão mais sérios, os que se dedicam às pautas mais importantes e que ganham prêmios pelas reportagens. Entre desconfianças, mortes suspeitas de testemunhas e dos outros políticos, revelações surpreendentes, ajudas enigmáticas, Silvana se aprofunda neste mistério, descobrindo conexões importantes entre as mortes destes políticos importantes e a Operação Condor, um conluio entre Estados Unidos e as ditaduras da América do Sul para dizimar a esquerda e eternizar os militares no poder. Neste ponto, o filme aproxima-se tristemente da realidade, a Condor de fato existiu e estas interferências estadunidenses na América Latina são amplamente especuladas e, em alguns casos, comprovadas, o que nunca se conseguiu fazer no caso das mortes de opositores tão importantes como JK, Jango e Lacerda.
Crédito de Imagens:
O longa-metragem esteve na Mostra do Festival do Rio, em 2025, titulada "Première Brasil: Hors Concours"
Ao filme, infelizmente, falta um acabamento mais burilado, nada que um orçamento mais polpudo ou mais tempo de maturação na conclusão da obra não tivesse resolvido. As cenas, por exemplo, do velório em Brasília, onde se misturam filmagens dos jornais da época com os atores do filme, são claramente artificiais. Isto numa produção com melhor orçamento não teria ocorrido. O que incomoda também são os furos do roteiro, por que uma jornalista inquisitiva como Silvana não teria sido assassinada pelo regime logo no início da investigação? Em vez disso, as suas fontes é que são apagadas. A narrativa do filme poderia ter dado uma causa lógica para isso. Do jeito que está, fica muito confuso. A trilha sonora poderia ter resgatado ícones da música popular brasileira da época, assim se criaria maior empatia com o espectador comum, que automaticamente seria remetido à década de 70. Esses detalhes seriam o diferencial, por exemplo, que transformaria este thriller político numa grande obra do cinema. O que resta é uma boa estória, que não chegou ao potencial que poderia ter alcançado. Mas, de todo jeito, foi uma tentativa honesta e qualquer abordagem da época tenebrosa da ditadura militar é sempre bem vinda.
Nota: 4/10
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