quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini

 

“ - Você tem uma arma em casa? - Não. Eu toco violino!”

Na abertura do filme, o narrador lista os cinco tipos de medo do título, associando visualmente cada um deles a um personagem: o primeiro seria o medo de hospital ou médicos, e este é experimentado por Ivan (Rui Ricardo Diaz), advogado que está prestes a ter uma filhinha e que, junto à sua esposa Cristina (Luna Tanaka) realiza exames pré-natais; o segundo seria o medo de lugares fechados, e parece acometer Marlene (Bella Campos, enfeitiçante); o terceiro seria o medo da solidão, vivenciado pela policial Luciana (Bárbara Colen); o quarto, o de perder dinheiro, recorrente para o traficante Sapinho (o ‘rapper’ carioca Xamã, muito bem em sua estréia cinematográfica); e o quinto e último, o de morrer, justamente aquele sentido na pele por quem narra a história, o músico Murilo (João Vítor Silva). 

Com o aviso de que o roteiro, escrito pelo próprio diretor, é baseado em eventos reais, pouco a pouco conhecemos estas pessoas, e entendemos como as suas vidas estão entrelaçadas: no prólogo, passado durante o período em que pessoas morriam aos borbotões por causa da COVID-19, Murilo está internado num hospital, prestes a ser intubado. Ele está sob os cuidados de Marlene, que é uma enfermeira contratada naquele estabelecimento, e, ao se recuperar, descobre que a sua mãe falecera, por causa da mesma doença. Carregando o seu travesseiro do Wolverine debaixo do braço, ele conversa com a enfermeira, antes de receber alta médica e voltar para casa. “Aposto que tu não me reconhecerias, se me encontrasses na rua”, diz ela. 

               Crédito de Imagens: Ulisses Malta Jr.-  Plano B Filmes, Druzina Content/ Downtown Filmes, Divulgação
Viabilizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), por meio da ANCINE e do BRDE, e com apoio do Governo do Estado de Mato Grosso, via Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (SECEL), o filme foi o grande vencedor do Festival de Gramado ano passado levando o kikito nas categorias de "melhor filme", "melhor ator coadjuvante", "melhor roteiro" e "melhor edição".


Que o luto sentido em relação à mãe recém-falecida seja secundarizado, nesta conversa despojada, é um dos problemas iniciais do enredo, que ressurgirão em outros momentos, como quando Dona Antônia (Rejane Faria), avó de Marlene e madrinha de Sapinho, comparece a um presídio onde está ocorrendo uma rebelião, à noite, mesmo tendo reclamado que, desde a prisão do traficante, o bairro em que vive está muito mais violento. Além disso, quando os personagens se reencontram na sala de espera de um hospital público, não há outros pacientes. Porém, todos estes pecadilhos são justificados pelas convenções de gênero policial que o filme adota.

Sim, as coincidências factuais são abundantes, mas críveis, em sua maioria: Murilo obviamente apaixona-se por Marlene, que é namorada de Sapinho, que, por sua vez, assassina o filho de Luciana e provoca um acidente balístico que vitima a esposa de Ivan. Tudo isso é esclarecido de maneira gradual, através de uma montagem, também a cargo do diretor e roteirista, que é sutilmente alinear. Em dado momento, o ímpeto de vingança tornar-se-á comum para estes personagens, que consideram Sapinho um “problema”. A exceção está a cargo de Dona Antônia, que se sente muito mais protegida quando o afilhado está em liberdade, sem saber que ele oprime a sua neta. É interessante como os pontos de vista são cotejados, ainda que a perspectiva dominante seja a de Murilo, envolvido numa confusão progressiva, devido ao amor que sente por Marlene. 

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Cinco Tipos de Medo, 2026Direção e Roteiro: Bruno Bini. Elenco: Rui Ricardo Diaz, Bárbara Colen, João Vitor Silva, Bella Campos, Xamã. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: Ulisses Malta Jr. Direção de Arte: Pedro von Tiesenhausen. Trilha Sonora Original: Leo Henkin. Montagem: Bruno Bini. Desenho de Som: Kiko Ferraz e Ricardo Costa. Direção de Arte: Pedro von Tiesenhausen. Maquiagem: Giulia Kisser. Produção Executiva: Luciana Druzina, Bruno Bini, Amanda Ruano. Produção: Plano B Filmes, Druzina Content. Coprodução: Quanta. Distribuidora: Downtown Filmes. Duração: 01h47min.


Situados na cidade de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, os eventos deste filme chamam a atenção para as conseqüências trágicas da violência urbana e do tráfico de substâncias tóxicas, notáveis em qualquer cidade brasileira. Dentre os conflitos emocionais paralelos, destacamos a proximidade que Murilo estabelece com Régis (Zécarlos Machado), vizinho colecionador de armas que estava tendo um caso com a sua mãe, e a conversa dolorosa entre Luciana e o seu ex-marido, depois que ela tenta encontrar algum conforto numa visita a uma igreja pentecostal. 

No afã por converter o encontro entre os cinco personagens amedrontados num clímax, Bruno Bini comete vários atropelos, envolvendo as condições pouco verossímeis da operação policial que faz com que Murilo seja aprisionado, mas, repetimos, isso não estraga a qualidade das tensões relacionadas às situações enfrentadas pelos protagonistas, na esperança de que consigam resolver as suas vidas, o que desencadeia uma bonita seqüência, em que Bárbara Colen cantarola uma composição de Gonzaguinha [1945-1991], a canção “Coração”, cuja letra prediz: “não tenha medo/ Pela porta aberta, vai entrar a vida/ Com tudo que ela tem direito, e você também”. Neste momento, a definição física dos sintomas do medo, listados na abertura, é ressignificada: Murilo discorre, agora, sobre a beleza da vida, afinal. 

Estendendo um experimento roteirístico que ele já efetivara no curta-metragem “Três Tipos de Medo” (2016), o realizador mato-grossense Bruno Bini demonstra um louvável domínio técnico neste segundo longa-metragem – o anterior foi a ficção científica “Loop” (2019) – e conta com um ótimo elenco, de modo que o filme faz jus aos prêmios recebidos e merece ser descoberto pela platéia aficionada pelos filmes sobre investigações descortinadas aos poucos. De nossa parte, que apreciamos filmes-painel, elogiamos os pontos de contato entre esta produção e o exemplar congênere baiano, também interessante, “Receba!” (2021, de Pedro Perazzo & Rodrigo Luna), o qual aproveitamos para indicar. Viva o cinema brasileiro de gênero!


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