“Quem somos? Combatentes de arma na mão!”
Na primeira seqüência deste documentário, há um providencial recurso metaligüístico: percebemos um desfile militar, e a co-diretora e jornalista comunitária Gizele Martins filma as expressões de alguns soldados, através de seu telefone celular. Em seguida, notamos os olhares macambúzios de alguns destes militares, recém-saídos da adolescência, confirmando a impressão de despreparo que será referendada em vários dos depoimentos, pois o ponto de partida para esta investigação fílmica é o equívoco anunciado da aplicação do mecanismo constitucional da Garantia de Lei e Ordem (GLO), no Rio de Janeiro, que, sob a validação legislativa de um decreto assinado pela ex-presidenta Dilma Rousseff, permitiu que o Exército Brasileiro invadisse, com tanques de guerra, as favelas do Complexo da Maré, em abril de 2014…
Gizele Martins possui intervenções bastante ativas, tanto no filme em si quanto nos eventos que justificaram a sua feitura, à guisa de denúncia: comunicadora nascida e criada no ambiente urbano retratado, ela esforça-se para garantir um mínimo de justiça a moradores que foram maltratados, torturados ou baleados por sodados do Exército, na ação inicial de 2014 e em várias das situações violentíssimas que ocorreram nos anos vindouros.
Antes de ser merecidamente laureada com um Prêmio Vladimir Herzog, em reconhecimento àquilo que ela fez na manutenção do recurso aos direitos humanos para os seus companheiros de vivência, ela foi intimidada, ameaçada e teve suas ferramentas midiáticas de trabalho invadidas e/ou censuradas. Como diz alguém com quem ela conversa, "para se obter algum reconhecimento, é preciso sofrer muito". Infelizmente, esta lógica parece funcionar apenas para quem é negro ou aquisitivamente desfavorecido, conforme se percebe nos julgamentos mostrados no filme, que inocentam por unanimidade os soldados que atiraram em membros da comunidade, que não tinham a ver com as atividades criminosas que os militares alegavam represar.
Crédito de Imagens: Leo Nabuco e Luca Carvalho / A Amana Cine, A Baracoa, Canal Brasil, Rio Filmes, Descoloniza Filmes - Divulgação
Na letra da canção “Indo pro Lar”, que é executada durante os créditos finais e que tem o músico Vítor Santiago – que teve uma de suas pernas amputada, após ser alvo de tiros dos militares – como co-compositor, há um verso falado que, imitando uma famosa cantiga infantil, diz: “marcha soldado, cabeça de papel/ Se atirar em pobre, não vai preso no quartel”. Isto ocorre por causa do corporativismo exposto num dos laudos, que concede o lastro de “legítima defesa putativa” para os soldados que atiraram no músico. O motivo: “militar atira, militar juga, militar inocenta”. Um ciclo que lamentavelmente acentua o descaso experimentados pelos moradores de favelas.
Além dos relatos pungentes de Vítor Santiago, que se locomove atualmente numa cadeira de rodas, testemunhamos o desamparo de mães de jovens que tiveram as suas vidas ceifadas pelas reações precipitadas dos militares, e que permanecem requerendo a culpabilidade do Estado por seus infortúnios, que as afligem diuturnamente. Vide a confissão de Edrilene Neves, que pensa na morte de seu filho Lorran todos os dias de sua vida. Outo caso chocante que o filme traz à tona é o de homens que foram torturados na “sala vermelha” de um quartel carioca, e que ficaram bastante feridos, após as várias horas em que eles foram espancados, sem que houvesse uma denúncia formal para isso…
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Cheiro de Diesel, 2026. Direção: Gizele Martins e Natasha Neri. Roteiro: Gizele Martins, Natasha Neri e Juliana Farias. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil. Trilha Sonora Original: Alberto Continentino. Montagem: Gabriel Medeiros. Direção de Fotografia: Leo Nabuco. Fotografia adicional: Lula Carvalho. Som direto: Akira Band, Dudu Falcão e Vini Machado. Supervisão e Design de Som: Bruno Armelin. Mixagem: Bernardo Deodato. Produção executiva: Mariana Genescá. Produção: Mariana Genescá e Gabriel Medeiros. Pesquisa: Natasha Neri, Gizele Martins, Juliana Farias, Naldinho Lourenço, Irone Santiago, Vitor Santiago, Edrilene Neves, Irone Santiago, Jefferson Luiz Rangel Marconi. Assistente de Direção: Rachel Camara e Paula Malheiros. Coordenador de pós-produção: João Gila. Empresas Produtoras: A Amana Cine, A Baracoa. Coprodução: Canal Brasil. Apoio: Rio Filmes. Distribuidoras: Descoloniza Filmes e Rio Filmes.
As diretoras são exitosas na inserção de situações gravadas pelos próprios moradores e no acompanhamento da incansável Gizele Martins, que chega a participar de um evento de apoio à causa palestina, em que ela enfatiza um dado secundário mas sobremaneira relevante: o de que muitas das armas utilizadas pelos militares no Rio de Janeiro advém de fabricação israelense, de modo que “as mesmas balas que matam na faixa de Gaza também matam nas favelas”. O financiamento da malevolência, nas altas esferas de poder, possui envolvidos recorrentes. Não por acaso, um dos generais envolvidos nas ações supracitadas está hoje preso por tentativa de golpe nacional, na conjuntura deletéria do bolsonarismo.
Em mais de um momento, a respiração do espectador fica tão sufocada quanto a das pessoas mostradas, gritando de desespero na tentativa de apenas atravessar uma rua, em direção às suas respectivas residências. Revoltamo-nos ao testemunhar a bagunça deixada na casa de alguém, cujos cômodos foram revirados numa ação de busca, ou ao vislumbrar as marcas de tiros nas paredes. É um filme mui contundente naquilo que expõe, sobretudo porque, mais uma vez, estamos em ano eleitoral: que as palavras vigorosas de Marielle Franco [1979-2018], proferidas numa de suas exposições na Câmera de Vereadores, não sejam esquecidas!
HOJES NOS CINEMAS



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