segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Gênio do Crime, de Lipe Binder


Baseado no livro infantojuvenil de mesmo nome escrito por João Carlos Marinho (ver aqui). A obra, lançada em 1969, é o livro mais famoso da “Turma do Gordo” e detém recordes de vendas do gênero no Brasil. A adaptação cinematográfica dirigida por Lipe Binder (conhecido por diversos trabalhos em telenovelas) é a segunda já feita para o cinema e dessa vez leva a estória para São Paulo no ano de 2026.

A copa do mundo está chegando e, como já é de costume é lançado o álbum de figurinhas do mundial que exibe os jogadores convocados. Muitas crianças já completaram todo o álbum, mas não vão receber o prêmio porque as figurinhas estão sendo falsificadas. João “o Gordo” (Francisco Galvão) e seus amigos Edmundo (Samuel Estevam) e Pituca (Breno Kaneto) estão em frente a Escanteio, fábrica onde é fabricado o álbum e as figurinhas e impedem o dono da fábrica de ser atacado por uma multidão de crianças insatisfeitas.

Seu Tomé (Ailton Graça) mostra a fábrica para os garotos e explica que existem figurinhas fáceis e difíceis e que uma figurinha faltante do jogador Vini Jr está sendo falsificada. Essa situação desencadeia uma investigação e os meninos de comprometem a descobrir quem está falsificando as figurinhas mesmo que oficialmente a empresa tenha contratado o famoso detetive Mr. Mistério (Marcos Veras) para resolver o caso. O plano das crianças é se infiltrar no colégio rival onde figurinhas raras estão sendo vendidas por altos preços.

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A Turma do Gordo promete aquecer o coração dos fãs do livro e de todas as famílias que forem aos cinemas

Mais tarde o grupo começa a receber a ajuda de Berenice (Bella Alelaf), garota muito inteligente que descobre que João e Edmundo estão infiltrados no colégio dela. Ela logo se torna interesse amoroso de João. Edmundo joga futebol e é muito determinado e Pituca é o amigo que vive no mundo da lua, porém está sempre disposto a ajudar. A personalidade e amizade genuína das crianças é o fio condutor do roteiro escrito por Ana Reber e a história se desenrola com as crianças percorrendo as ruas de São Paulo atrás dos criminosos que estão falsificando figurinhas. Imaginem só o fim dessa aventura!

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Ficha Técnica

Título Original e Ano: O Gênio do Crime, 2026. Direção: André Felipe Binder. Roteiro: Ana Reber e Marcos Ferraz - baseado na obra de João Carlos Marinho. Elenco: Francisco Galvão, Bella Alelaf, Breno Kaneto, Marcos Veras, Ailton Graça, Thelmo Fernandes, Larissa Nunes, Samuel Estevam, Douglas Silva, Rafael Losso, Marcelo Goes, Estevam Nabote, Fafá Rennó. Gênero: Aventura, Comédia, Familia. Nacionalidade: Brasil. Trilha Sonora Original: Otavio Augusto. Fotografia: Pedro Sotero. Edição: João Barbalho e Gustavo Giani. Direção de Arte: Thales Junqueira. Figurino: Oliv Barros, Yana Brandão, Thais Guimarães, Marcela Lupiano, Paula Lima. Produção: Boutique Filmes. Empresas Co-ProdutorasGlobo Filmes e Paris Entretenimento. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h33min.

O filme funciona de forma excelente como uma aventura leve e divertida para toda a família e faz parte de uma excelente safra de filmes brasileiros ao trazer mistério e aventura na medida certa. A atuação das crianças é encantadora e de uma naturalidade genuína que remete à magia dos melhores anos da infância. Em um mundo dominado por telas é refrescante ver uma reimaginação de como seria uma infância em que as telas são apenas apetrechos e não a totalidade da vida de um jovem.

A cenografia urbana e os figurinos ajudam a construir a narrativa e reforçam os objetivos gerais do longa. Contando com uma direção lúdica e criativa e atuações cativantes “O Gênio do Crime” entrega bons momentos de diversão e é uma ótima pedida para levar toda a família ao cinema!

14 de Maio nos Cinemas!

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Hungria - A Escolha de Um Sonho

 
“Tu já viste o juiz anular um gol porque o jogador está reclamando? Tem que ir lá e meter outro gol!”

Fenômeno absoluto do “‘rap’ ostentação”, o artista brasiliense Gustavo da Hungria Neves ressente-se, nalgumas entrevistas, por ter sido alvo de críticas, no início da carreira, por ter a pele mais clara e por abordar, em suas letras, a ode ao consumismo. Num de seus primeiros sucessos, a faixa “Bens Materiais”, ouvimos, por exemplo: “Vaidade, consumismo no shopping, na avenida/ As mina vira fã, fica louca, pira/ Mas nada é simples, sempre batalhando/ Se a vida fosse fácil eu não nascia chorando/ Trabalhar pra caramba no batente, no sacode/A vida é muito dura só pra quem é muito mole”. Dá para entender, a partir disso, qual a orientação política do artista, não é? 

Pergunta lançada, vamos para a análise da biografia aguardadamente “chapa-branca” lançada sobre ele: personificado (muito bem) por Gabriel Santana, Gustavo, antes de assumir o seu sobrenome como nome artístico, é mostrado na escola, sendo alvo do desdém de seus colegas de classe. Antes de ser expulso da escola de vez, ele esforça-se para compor rimas, na esperança de chamar a atenção de algum empresário. Para isso, contará com a ajuda de seu amigo Gabiru (Ramon Brant), envolvido em diversas contravenções no ambiente em que vive, alijado de muitos benefícios sociais… 

Habitantes da região administrativa da Ceilândia, tanto Gustavo quanto Gabiru lidam com as dificuldades típicas das classes menos favorecidas: o pai de Gustavo está constantemente bêbado e sua mãe idosa, Rachel (Taty Godoi), trabalha como faxineira, mesmo sofrendo de hérnia de disco; Gabiru, por sua vez, comete alguns furtos para pagar uma dívida com um criminoso local, além de ser contratado para executar um desafeto de seu credor. Não consegue, entretanto…

É quando surge uma das principais debilidades de “Hungria – A Escolha de um Sonho” (2026, de Izaque Cavalcante & Cristiano Vieira), a indefinição, por parte dos realizadores, quanto à tônica biográfica do roteiro: quando apresentam os percalços do cantor, em suas tentativas inicialmente frustradas de encetar concertos improvisados, até que o filme é simpático. Mas os dois ‘flashbacks’ conduzidos por Gabiru são constrangedores: seja aquele em que ele descreve, com zombaria, como reagiu a uma revista policial, seja na situação que conduz ao seu próprio assassinato, deveras previsível e abordado de maneira quase circunstancial. 

Crédito de Imagens:Cayac Produções e Stud10 Filmes, Divulgação
O longa contou com pré estréia no Brasilia International Film Festival, em 01 de maio, dentro da Mostra Competitiva do Festival e levou prêmio de melhor filme pelo Juri Popular

Por falar em algo constrangedor, pode-se dizer o mesmo, infelizmente, da maioria das situações familiares de cariz melodramático, como quando Rachel passa mal e é internada num hospital público, quando ela descobre que o filho utilizou o dinheiro que ela pensava estar investido em aulas de inglês nas sessões de gravação de um CD, ou quando o pai de Gustavo apressa-se em oferecer carona para comparecer numa boate, no início de sua fama. O pior: nos créditos finais, a mãe e a irmã de Hungria declaram que tudo o que aconteceu “foi por causa de Deus”. Urgh! 

Demonstrando que os roteiristas (e o próprio artista) são conscientes da tendência reacionária do personagem real, há uma cena em que, quando alguém reclama que as canções de Hungria são desprovidas de crítica social, ele e seus amigos erguem os dedos médios e repetem, à exaustão “foda-se, foda-se, foda-se”, no que parece ser um mantra comum do artista, pois aparece em mais de um momento. A associação pentecostal não é gratuita, afinal. Voltamos à pergunta do primeiro parágrafo…

Em termos estritamente cinematográficos, “Hungria – A Escolha de um Sonho” possui as debilidades aguardadas num filme com orçamento reduzido e, em seus atributos técnicos e lingüísticos, fica refém das anedotas compartilhadas pelo biografado, como a situação em que, sem dinheiro para hospedar-se e alimentar-se em Goiás, eles roubam duas embalagens de macarrão instantâneo num armazém e o esquentam no chuveiro elétrico de uma pousada, de onde saem sem pagar. Após tantos vexames, Gustavo comprova a assertividade de uma frase que ele repete várias vezes “estou humilhando-me agora para nunca mais precisar me humilhar novamente”. A lógica da ambição aquisitiva é dominante, de maneira indisfarçada: o “sonho” do subtítulo tem a ver com os delírios aquisitivos do jovem que larga a escola às custas dos esforços da mãe, até encontrar o sucesso, a partir da reiteração de fórmulas vendáveis, relacionadas à enumeração daquilo que o dinheiro pode comprar. Nos grandes eventos dos quais participa, hoje em dia, Hungria Hip Hop costuma dividir o palco com artistas sertanejos e envolveu-se em polêmicas esperadas, por supostamente estar entre apoiadores do bolsonarismo. É isso: ele, “o ‘playboy’ do ‘rap’” conseguiu – e o filme ensina como

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Ficha Técnica:

Título Original e Ano: Hungria - A Escolha de Um Sonho, 2026. Direção: Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira. Roteiro: Jonah Costa e Cristiano Vieira. Elenco: Gabriel Santana, Ramon Brant, André Ramiro, Taty Godoi, Marcelo Pelucio, Hungria, Marcos Pigossi. Gênero: Drama, Biografia. Nacionalidade: Brasil. Decoração de Set: Rafaelly Godoy. Casting: Marcelo Pelucio. Roteiro e Departamento de Continuidade: Ana Portela. Produtor: Bruno Yamaguchi. Empresas Produtoras: Cayac Produções e Stud10 Filmes. Distribuidora: Stud10 Filmes. Duração: 01h44min.

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mortal Kombat 2

 
Mortal Kombat, dirigido por Simon McQuoid, estreou nos cinemas em maio de 2021, durante a pandemia. O filme trazia uma nova introdução ao universo das lutas mortais entre grandes dominadores de reinos e evidenciava nas telas como o samurai Hanzo Hasashi se tornou Scorpion (Hiroyuki Sanada) em uma luta contra seu maior rival, Sub-Zero (Joe Taslim), além de mostrar como Sonya Blade (Jessica McNamee), Jax (Mehcad Brooks), Kung Lao (Max Huang) e Liu Kang (Ludi Lin) encontraram o descendente direto de Hanzo, Cole Young (Lewis Tan), para se juntar a eles no duelo mortal e defender a Terra de Shang Tsung (Chin Han), um feiticeiro desonesto que começou a aniquilar os outros guerreiros antes mesmo das lutas. A superprodução arrecadou mundialmente cerca de oitenta e quatro milhões de dólares e trouxe diversão aos fãs dos games e aos cinéfilos em busca de entretenimento.

Nesta nova continuação, que conta novamente com a direção de McQuoid e produção de James Wan, a trama retoma o combate pelo domínio da Exoterra. Agora, Shao Kahn (Martyn Ford) está no poder de Edenia após destronar o pai de Kitana, o Rei Jerrod (Desmond Chiam), ainda quando a guerreira era criança. Assim, ela e sua mãe, a Rainha Sindel (Ana Thu Nguyen), foram obrigadas a aceitá-lo como rei, marido e pai. Kitana passa os dias treinando para o novo torneio ao lado de Jade (Tati Gabrielle) e demonstra estar cada vez mais preparada para o combate. Enquanto isso, Raiden tenta encontrar seu último campeão, Johnny Cage (Karl Urban). O homem é um ator decadente de filmes dos anos 1980 e 1990 e foi escolhido para se juntar ao grupo e proteger a ExoTerra, já que Kung Lao foi abatido no último torneio. Contudo, Cage não se sente preparado para morrer por algo que sequer compreende e, ainda que resista, acaba lançado na arena para lutar, falhando, como já era esperado. Jax, que sofreu com a perda dos braços ao enfrentar Sub-Zero, retorna com braços mecânicos e disposto a ajudar com tudo o que pode. Sonya também se entrega completamente ao combate, enquanto talvez Cole não tenha tanta sorte em sua luta contra Shao Kahn. Além disso, o traiçoeiro Shang Tsung e os aliados do rei tentam aniquilar Raiden, deixando-o imobilizado, enquanto Liu Kang, Sonya Blade, Jax e Johnny Cage precisam partir até Edenia em busca de um amuleto capaz de mudar toda a situação. No caminho, o grupo encontrará o tenebroso Baraka (CJ Bloomfield), mas Johnny Cage parece finalmente ter entendido seu papel no jogo e fará aliados entre o povo que vive próximo ao castelo de Kahn.

O torneio surge mais divertido, dinâmico e bem menos sério do que da primeira vez, talvez pela entrada de Johnny Cage no jogo. O personagem acaba trazendo mais vivacidade à trama, e suas falas, cheias de tiradas envolvendo cultura pop e o universo do cinema, elevam bastante o teor cômico da produção. As lutas mortais entre personagens que já foram “dessa para pior” são a grande cereja do bolo aqui. Prepare-se para ver Scorpion enfrentando Bi-Han, a nova face de Sub-Zero, diretamente no inferno. Além disso, o retorno de Kano e Kung Lao traz ainda mais atrativos à saga das lutas, especialmente por conta das mudanças de lado e alianças inesperadas.

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Ficha Técnica

Título Original e Ano:  Mortal Kombat II, 2026. Direção: Simon McQuoid. Roteiro: Jeremy Slater - baseado nos personagens criados para videogame Ed Boon e John Tobias. Elenco: Adeline Rudolph, Karl Urban, Martin Ford, Tati Gabrielle, Jessica McNamee, Mehcad Broods, Ludi Lin, Josh Lawson, Tadanobu Asano, Chin Han, Damon Herriman, Joe Taslim, Hiroyuki Sanada, Max Huang, Lewis Tan, CJ Bloomfield, Ana Thu Nguyen, Sophia Xu, Desmond Chiam, Sam Cotton, Indy Urban. Gênero: Ação, Artes Marciais, Fantasia, Adaptação. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Benjamin Wallfisch. Fotografia: Stephen F. Windon. Edição: Stuart Levy. Design de Produção: Yôhei Taneda. Produtores: James Wan, Simon McQuoid, Toby Emmerich. Empresas Produtoras: New Line Cinema, Atomic Monster, Broken Road Productions e Fireside Films. Distribuidora: Warner Bros Pictures Brasil. Duração: 01h56min.
Adaptações de games estão entre os maiores desafios para os realizadores, já que o material original, geralmente carregado de fantasia e elementos ricos que contribuem para a trama, muitas vezes não consegue se encaixar de forma eficiente nas narrativas cinematográficas. Ainda assim, tem sido interessante ver Hollywood insistir nesse caminho e continuar tentando transportar esses universos para as telas, especialmente para os fãs.

Mortal Kombat já conta com adaptações anteriores lançadas durante os anos 1990, produções que obtiveram um sucesso mediano, mas conquistaram seu espaço na cultura pop. O primeiro filme desta nova iniciativa enfrentou um enorme desafio: levar o público aos cinemas em plena pandemia. E, no geral, conseguiu se sair bem. Já esta continuação chega mais encorpada, apostando inclusive na tecnologia IMAX, o que elevou os custos da produção, mas também ampliou a experiência visual e o nível de entretenimento entregue ao público. O resultado é um filme que oferece ainda mais diversão aos fãs de ação e comédia, sem se limitar apenas aos admiradores dos games. A grande chave aqui é justamente assumir uma adaptação mais pop e contemporânea, embora, em vários momentos, ainda preserve bastante do espírito e do tom característicos dos filmes noventistas.

                                                         Crédito de Imagens: © 2026 Warner Bros. Ent. All Rights Reserved
O longa foi inteiramente rodado na Austrália. Nos bairros de Queensland e o estúdio Village Roadshow


Shao Kahn surge como um vilão ainda mais grotesco e intimidador do que Shang Tsung, além de demonstrar um carisma muito mais marcante como dominador. Com isso, o filme cresce bastante sempre que ele entra em cena. Kitana e Kano funcionam como verdadeiras cartas coringas da trama desta vez, enriquecendo ainda mais a jornada do torneio. Já Scorpion, frequentemente tratado como um personagem puramente maligno, ganha, desde o primeiro filme, camadas mais interessantes e humanas, e é simplesmente delicioso ver Hiroyuki Sanada em cena. Johnny Cage embala o filme com sua postura de “lutador fracassado” e poser de astro de ação, enquanto o charme canalha que Karl Urban imprime ao personagem se mostra absolutamente essencial para o tom da produção. Liu Kang, que tradicionalmente ocupava o centro das histórias nos filmes anteriores, divide aqui o protagonismo com os demais personagens, uma escolha muito mais acertada para a trama. Caso a franquia avance para um terceiro longa, essa abordagem pode abrir espaço para ainda mais fanservice de qualidade aos apaixonados pelo universo de Mortal Kombat.

A trilha sonora resgata elementos clássicos do jogo original e marca presença com força nos momentos de combate. Entre as músicas emblemáticas, vale destacar que Johnny Cage grava seus filmes e luta ao som do clássico de 84 "Rock You Like A Hurricane", da banda Scorpions.

A experiência cinematográfica aqui é eletrizante e merece, sem dúvidas, a sua presença.

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Eclipse, de Djin Sganzerla


 “Algumas mulheres são mais sensíveis”… 

Filha dos renomados artistas Helena Ignez e Rogério Sganzerla [1946-2004], a realizadora Djin Sganzerla estabeleceu-se inicialmente como atriz, tendo sido laureada, entre outros trabalhos, por suas participações em “Falsa Loura” (2007, de Carlos Reichenbach) e “Meu Nome é Dindi” (2007, de Bruno Safadi). Sua estréia como diretora, através do interessantíssimo “Mulher Oceano” (2020), impressiona pela sensibilidade na compreensão das questões identitárias femininas, mas, em termos estilísticos, não se consegue definir quais os seus apanágios autorais…

Neste seu segundo longa-metragem, esta indefinição fica ainda mais evidente: o roteiro, também co-escrito pela dramaturga Vana Medeiros, tal qual a obra anterior, perde-se entre duas correntes tramáticas paralelas – interligadas pelas denúncias de abusos reiterados (morais, sexuais, etc.) sofridos pelas personagens –, não obstante o elã feminista ser ostensivo. Funciona pelo que traz à tona, à guisa de exposição alarmante, mas soçobra nas convenções narrativas que planeja seguir… 

O maior problema deste filme é detectado desde a abertura: a trilha musical quase onipresente de Gregory Silvar, que insere a tônica de suspense de maneira persistente, quando ainda estávamos sendo apresentados aos personagens. Com isso, qualquer ambigüidade ou pretensa surpresa, na reviravolta violenta da segunda metade, é desperdiçada, o que também ocorre por causa da interpretação caricatural de Sergio Guizé como o esposo servil e mui educado da protagonista. 

Em “Eclipse”, a própria Djin Sganzerla interpreta Cleo Ribeiro, uma astrônoma que está parenteando a descoberta de um asteróide. Ela está grávida de seu esposo Tony, que é advogado, e, de repente, recebe a visita de sua meia-irmã Nalu (Lian Gaia), que é indígena. O que poderia ser um encontro feliz entre parentas, entretanto, revela-se trágico, pois Nalu confessa que foi abusada sexualmente por seu pai, ao longo de sete anos, o que deixa Cleo sobremaneira perturbada. 

Crédito de Imagens: Pandora Filmes - Divulgação
O longa passou pela última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2025, e também pelo San Diego Latino Film Festival, nos Estados Unidos, e İstanbul International Spring Film Festival, na Turquia. 

Além de sofrer por causa dos estupros paternos, Nalu é constantemente assediada pelo filho pós-adolescente de seu patrão, Felipe (Pedro Goifman), e foge para São Paulo, após uma altercação, na esperança de iniciar uma nova vida. Mas, de maneira circunstancial, envolve-se numa investigação relacionada à participação de Tony num complô para maltratar menores de idade, submetidas a abusos coletivos, o que é piorado pelo fato de elas serem pessoas com baixo poder aquisitivo. 

A sucessão de maus exemplos de comportamentos masculinos é cumulativa no filme, incluindo uma situação traumática, que desemboca no assassinato do irmão de Tony por sua esposa, relembrado pela mãe de ambos, Lucélia (a veterana Selma Egrei), em tratamento de um câncer agressivo. Em meio a tudo isso, Cleo teme perder o seu bebê, ao passo em que precisa se aproximar de sua meia-irmã, no afã por resgatar as meninas molestadas e/ou feridas pelo grupo de estupradores do qual Tony participa, num fórum de internet. 

Conforme fica evidente nestes trechos sinópticos, um dos problemas não contornados por “Eclipse” está no excesso de pistas falsas (uma onça que aparece recorrentemente, como metáfora dos comportamentos impávidos das personagens femininas, por exemplo), até o anticlímax do desfecho servir como deixa para a execução de “Dentro de Cada Um”, na voz potente da imortal Elza Soares [1930-2022], reiterando a validade discursiva do filme em seu apoio às lutas femininas e ao empoderamento correspondente: “a mulher dentro de cada um não quer mais silêncio, psiu!”. Por mais que o longa-metragem revele-se lamentavelmente decepcionante na apresentação das situações de perigo anunciados desde o primeiro instante, tal qual explicado, por conta do exagero indicial da trilha musical, ele chama a atenção para algo que costuma ser ignorado no dia a dia. Que o filme sirva para estimular a descoberta daquilo que ele denuncia: mesmo em relacionamentos que parecem perfeitos, a misoginia estrutural esconde-se e pode fazer com que monstruosidades surjam repentinamente – muitas vezes, com conseqüências fatais!

Trailer




Ficha Técnica 

Título Original e Ano: Eclipse, 2026. Direção: Djin Sganzerla. Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros. Consultoria de Roteiro: Aleksei Abib. Contribuição no Roteiro: Marcos Arzua. Elenco: Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine. Gênero: Suspense, Thriller. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: André Guerreiro Lopes. Direção de Arte e Figurino: João Marcos de Almeida. Montagem: Karen Akerman, edt e Karen Black, edt. Som: George Saldanha, ABC. Trilha Sonora Original: Gregory Slivar. Desenho de Som e Mixagem: Edson Secco. Produção Executiva: Vitor Cunha.  Produção: Djin Sganzerla. Direção de Produção: Roberta Cunha. Direção de Elenco (Casting): Patricia Faria. Pós-Produção: Clandestino. Produção: Mercúrio Produções. Criação de Trailer: Movietrailer. Assessoria de Imprensa: Sinny Assessoria e Comunicação. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS