“Algumas mulheres são mais sensíveis”…
Filha dos renomados artistas Helena Ignez e Rogério Sganzerla [1946-2004], a realizadora Djin Sganzerla estabeleceu-se inicialmente como atriz, tendo sido laureada, entre outros trabalhos, por suas participações em “Falsa Loura” (2007, de Carlos Reichenbach) e “Meu Nome é Dindi” (2007, de Bruno Safadi). Sua estréia como diretora, através do interessantíssimo “Mulher Oceano” (2020), impressiona pela sensibilidade na compreensão das questões identitárias femininas, mas, em termos estilísticos, não se consegue definir quais os seus apanágios autorais…
Neste seu segundo longa-metragem, esta indefinição fica ainda mais evidente: o roteiro, também co-escrito pela dramaturga Vana Medeiros, tal qual a obra anterior, perde-se entre duas correntes tramáticas paralelas – interligadas pelas denúncias de abusos reiterados (morais, sexuais, etc.) sofridos pelas personagens –, não obstante o elã feminista ser ostensivo. Funciona pelo que traz à tona, à guisa de exposição alarmante, mas soçobra nas convenções narrativas que planeja seguir…
O maior problema deste filme é detectado desde a abertura: a trilha musical quase onipresente de Gregory Silvar, que insere a tônica de suspense de maneira persistente, quando ainda estávamos sendo apresentados aos personagens. Com isso, qualquer ambigüidade ou pretensa surpresa, na reviravolta violenta da segunda metade, é desperdiçada, o que também ocorre por causa da interpretação caricatural de Sergio Guizé como o esposo servil e mui educado da protagonista.
Em “Eclipse”, a própria Djin Sganzerla interpreta Cleo Ribeiro, uma astrônoma que está parenteando a descoberta de um asteróide. Ela está grávida de seu esposo Tony, que é advogado, e, de repente, recebe a visita de sua meia-irmã Nalu (Lian Gaia), que é indígena. O que poderia ser um encontro feliz entre parentas, entretanto, revela-se trágico, pois Nalu confessa que foi abusada sexualmente por seu pai, ao longo de sete anos, o que deixa Cleo sobremaneira perturbada.
Crédito de Imagens: Pandora Filmes - Divulgação
Além de sofrer por causa dos estupros paternos, Nalu é constantemente assediada pelo filho pós-adolescente de seu patrão, Felipe (Pedro Goifman), e foge para São Paulo, após uma altercação, na esperança de iniciar uma nova vida. Mas, de maneira circunstancial, envolve-se numa investigação relacionada à participação de Tony num complô para maltratar menores de idade, submetidas a abusos coletivos, o que é piorado pelo fato de elas serem pessoas com baixo poder aquisitivo.
A sucessão de maus exemplos de comportamentos masculinos é cumulativa no filme, incluindo uma situação traumática, que desemboca no assassinato do irmão de Tony por sua esposa, relembrado pela mãe de ambos, Lucélia (a veterana Selma Egrei), em tratamento de um câncer agressivo. Em meio a tudo isso, Cleo teme perder o seu bebê, ao passo em que precisa se aproximar de sua meia-irmã, no afã por resgatar as meninas molestadas e/ou feridas pelo grupo de estupradores do qual Tony participa, num fórum de internet.
Conforme fica evidente nestes trechos sinópticos, um dos problemas não contornados por “Eclipse” está no excesso de pistas falsas (uma onça que aparece recorrentemente, como metáfora dos comportamentos impávidos das personagens femininas, por exemplo), até o anticlímax do desfecho servir como deixa para a execução de “Dentro de Cada Um”, na voz potente da imortal Elza Soares [1930-2022], reiterando a validade discursiva do filme em seu apoio às lutas femininas e ao empoderamento correspondente: “a mulher dentro de cada um não quer mais silêncio, psiu!”. Por mais que o longa-metragem revele-se lamentavelmente decepcionante na apresentação das situações de perigo anunciados desde o primeiro instante, tal qual explicado, por conta do exagero indicial da trilha musical, ele chama a atenção para algo que costuma ser ignorado no dia a dia. Que o filme sirva para estimular a descoberta daquilo que ele denuncia: mesmo em relacionamentos que parecem perfeitos, a misoginia estrutural esconde-se e pode fazer com que monstruosidades surjam repentinamente – muitas vezes, com conseqüências fatais!
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Eclipse, 2026. Direção: Djin Sganzerla. Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros. Consultoria de Roteiro: Aleksei Abib. Contribuição no Roteiro: Marcos Arzua. Elenco: Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine. Gênero: Suspense, Thriller. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: André Guerreiro Lopes. Direção de Arte e Figurino: João Marcos de Almeida. Montagem: Karen Akerman, edt e Karen Black, edt. Som: George Saldanha, ABC. Trilha Sonora Original: Gregory Slivar. Desenho de Som e Mixagem: Edson Secco. Produção Executiva: Vitor Cunha. Produção: Djin Sganzerla. Direção de Produção: Roberta Cunha. Direção de Elenco (Casting): Patricia Faria. Pós-Produção: Clandestino. Produção: Mercúrio Produções. Criação de Trailer: Movietrailer. Assessoria de Imprensa: Sinny Assessoria e Comunicação. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração:
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