Os acontecimentos no mundo e no Brasil, após as eleições de 2014, deixaram a população marcada e fragmentada nos campos social, econômico e político. O país passou a enxergar a mesma realidade por perspectivas recortadas por ideologias, algumas das quais sequer eram plenamente compreendidas pela própria população. O ano de 2022, assim como 2026 tende a se mostrar, foi um daqueles períodos em que eleições e Copa do Mundo coincidem, deixando o país em ebulição de diversas maneiras.
Naquele momento, chegávamos ao fim do conturbado e tenebroso mandato de Jair Messias Bolsonaro, após sua derrota nas urnas para Luiz Inácio Lula da Silva, eleito democraticamente presidente da República. Logo após o resultado das eleições, os seguidores mais radicais do lado derrotado passaram a disseminar uma onda de fake news sobre o processo eleitoral e a incentivar manifestações, alimentando ainda mais a tensão e a polarização no país.
Assim, logo no início de novembro, um grupo de “patriotas”, como passaram a se autodenominar desde 2017 os fiéis apoiadores do ex-presidente, reuniu-se em Caruaru (PE) e promoveu bloqueios em rodovias estratégicas para atrapalhar a vida de caminhoneiros e viajantes civis. Precisamente na BR-232, o empresário Júnior César Peixoto, de 41 anos, ao perceber que um dos caminhões conseguia atravessar a manifestação, subiu no para-brisa do veículo na tentativa de impedir sua passagem. O caminhão, no entanto, seguiu em movimento, levando-o agarrado ao veículo por cerca de seis quilômetros. O episódio inusitado e que virou "meme" nas redes acabou servindo de inspiração para um filme, dirigido e roteirizado pelo ator e produtor Caco Ciocler. A produção "Eu Não Te Ouço" chega então as salas de cinema, após estrear no Festival do Rio e também ser exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2025.
Uma ficção que reimagina, com humor e reflexão, como poderiam ser os relatos dos dois sobreviventes daquela situação insólita: o caminhoneiro e o homem agarrado do lado de fora do veículo. A partir desse encontro extremo, o filme explora o que cada um pensa sobre os acontecimentos daqueles meses caóticos e polarizados. O resultado é uma obra honesta e provocativa, que nos instiga a refletir sobre o delírio coletivo, a incapacidade de diálogo e a falta de comunicação gerada por diversos fatores preocupantes do mundo contemporâneo: uma sociedade líquida e fragmentada, profundamente atravessada pela disseminação de fake news.
Crédito de Imagens: AMAIA Produções
O ator Marcio Vito foi laureado com o Troféu Redentor de "Melhor Ator" na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio
Quando o filme se inicia, vemos imagens dos dias das manifestações, acompanhadas pelo som de sirenes, até que a tela exibe uma frase retirada da peça "Esperando Godot", de Samuel Beckett: “Eu estou indo, ele não se move.” A sagacidade de inserir esse fragmento do diálogo teatral já revela a problemática central do filme, e talvez da própria sociedade contemporânea. Embora estejamos constantemente em movimento físico, nosso avanço humano parece permanecer inerte. O absurdo do tempo em que vivemos, atravessado por ruídos, radicalizações e incomunicabilidade, impede que caminhemos verdadeiramente uns em direção aos outros, ou mesmo que consigamos nos escutar.
Enquanto o diretor conversa com o motorista e pede que ele ignore sua presença, também tenta compreender seus sentimentos. O homem então responde que “está se sentindo um artista”. A câmera explora os mais diversos ângulos possíveis do condutor até finalmente sair para o lado de fora e enquadrar, lateralmente, o homem agarrado ao para-brisa. Os dois personagens são interpretados pelo mesmo ator, uma escolha inusitada que se revela também uma metáfora inteligente sobre a própria sociedade.
Ninguém escuta ninguém. Em determinado momento, um dos lados pergunta ao outro se ele quer descer, avisando que a viagem irá parar em certo ponto, enquanto o outro continua falando sozinho, despejando comentários aleatórios sobre a filha, sobre aquilo que acredita ser a “verdade” do país e até preconceitos projetados sobre o caminhoneiro, presumindo automaticamente que ele pertence ao “lado oposto”.
Há uma cena em que o motorista decide filmar o homem preso ao caminhão, e a situação, ao mesmo tempo absurda e tragicômica, evidencia as fragilidades de ambos. Aos poucos, percebemos que os dois são profundamente humanos, vulneráveis e atravessados por medos, ressentimentos e desinformação. O mais inquietante é que, mesmo diante de uma circunstância extrema e irracional, nada se resolve rapidamente.
Na vida real, o episódio que gerou medo, tensão e perplexidade aconteceu em poucos minutos. No entanto, o filme amplia simbolicamente esse instante para revelar algo muito maior: o fato de que o país já não se escuta há muito tempo. Em um dos momentos mais provocativos da obra, descobre-se que os personagens estão presos naquela situação há três anos (de 2022 a 2025) e, ainda assim, nada foi solucionado. A imagem sintetiza com força a estagnação emocional, política e social de um país incapaz de dialogar consigo mesmo.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Eu Não Te Ouço. Direção: Caco Ciocler. Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito. Elenco: Márcio Vito e Caco Ciocler. Gênero: Comédia, Documentário. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: André Faccioli. Direção de Arte: Marcelo Escañuela. Montagem: Caroline Leone. Figurino: Mel Akerman. Maquiagem e Cabelo: Fernando Andrade (Feco) e Ravena Corre. Direção de Produção: Paula Madureira. Som Direto: Ubiratan Guidio. Mixagem: Toco Cerqueira. Desenho de Som: Mariano Alvarez. Trilha Original: Arthur De Faria, Mauricio Pereira e Felipe Pipo. Produzido por AMAIA em coprodução com UNO FILMES, 555 STUDIOS e SCHIFIGUER. Produção: Diane Maia, André Novis e Caco Ciocler. Produção Associada: Fernando Palermo, Carlos Vecchi e Eduardo Nasser. Produção Executiva: Carlos Eduardo Valinoti. Distribuidora: AMAIA. Duração: 01h12.
Caco Ciocler já havia explorado anteriormente as tensões políticas e sociais do Brasil em seus trabalhos como diretor. Em 2019, realizou "Partida", outra ficção documental construída a partir de questões ligadas ao cenário político brasileiro. Já em 2021, apresentou "O Melhor Lugar do Mundo é Agora", no qual também dirige Márcio Vito, e muitos outros atores, em um falso documentário. Ali, ele reflete sobre o cinema e o papel do artista em tempos de pandemia.
Com criatividade e domínio narrativo, Ciocler se firma como um diretor interessado em provocar o público e evidenciar como vida, cinema e política são elementos profundamente intrínsecos. Suas obras revelam personagens atravessados por crises coletivas e por um país constantemente tensionado por disputas ideológicas e emocionais.
"Eu Não Te Ouço" chega ao público em um momento em que escândalos políticos continuam abalando setores da extrema direita brasileira, reacendendo debates sobre desinformação, radicalização e o culto a lideranças políticas. Nesse contexto, a obra dialoga diretamente com um país ainda marcado pela polarização e pela permanência de discursos extremados, refletindo sobre como parte da população permanece presa a narrativas idealizadas e a divisões que seguem dificultando o diálogo social.
HOJE NOS CINEMAS




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