quinta-feira, 14 de maio de 2026

Obsessão, de Curry Burker


Numa mesa de lanchonete o tímido Baron “Bear” (Michael Johnston) está se declarando para o seu grande amor platônico. O discurso emotivo dele muda de foco e descobrimos que a conversa é, na verdade, um treinamento para a declaração de amor real que ele pretende fazer mais tarde para Nikki (Inde Navarrete). Pela cena inicial o diretor, roteirista e editor do longa Curry Burker já consegue sintetizar de forma incrivelmente eficiente toda a personalidade acanhada e introvertida do protagonista e lançar o conflito central da trama.

Bear trabalha numa loja de discos junto com seu amigo mais próximo, o sincerão Ian (Cooper Tomlinson), e a amiga de Nikki, a simpática Sarah (Megan Lawless), além, é claro, da própria Nikki. Apaixonado por ela desde a infância, ele nunca conseguiu deixar claro os próprios sentimentos, mas está disposto a mudar isso naquela noite quando todos eles combinam de se encontrar para uma rodada de jogos em um bar. Acontece que ao chegar do trabalho ele se depara com a sua gata de estimação, Sandy, morta no chão. Isso o deixa extremamente abalado e disposto a não ir mais ao encontro, mas ele muda de ideia ao receber uma ligação de Nikki.

Nesse ponto o roteiro e a direção conseguem mostrar o nível de influência de Nikki sobre a vida e as decisões de Bear além de deixar claro que ele é um homem mais sensível e introvertido em contraponto com Ian. O conflito se desenrola quando ele resolve presentear Nikki com um “Salgueiro Mágico”, um pedaço de madeira que quando quebrado ao meio realiza um desejo de quem o detém. Ao invés de entregar o presente para ela, ele mesmo quebra a madeira ao meio e claro, deseja que Nikki o ame acima de tudo. Quase que mediatamente após isso, ela muda completamente de personalidade e passa a demonstrar um interesse doentio em Bear. Ele não consegue mais fazer nada sozinho. Nikki está o tempo inteiro com ele e para ele, e rapidamente a relação deles se transforma em uma espiral de dependência doentia.

                                 Crédito de Imagens: © 2026 FOCUS FEATURES LLC. ALL RIGHTS RESERVED.
O longa do ator, roteirista e diretor Curry Barker contou com premiere no Festival de Toronto, em setembro de 2025

As atitudes extremamente estranhas e violentas de Nikki em um primeiro momento assustam Bear, mas não o suficiente para que ele entre em estado de alerta. Enebriado por finalmente ser correspondido, ele se joga no olho do furacão sem olhar para trás e sem pensar nas consequências. Em uma camada de interpretação adicional, o filme discute não apenas a violência de gênero mais latente, que é aquela marcada por agressões físicas, mas também a violência de gênero psicológica ao tirar Nikki de uma posição de controle e colocá-la em uma posição de subserviência, quase de fetiche. Nesse sentido, o “cara legal” que se vê em uma posição de rejeição pode se mostrar igualmente perigoso ao cara violento quando não correspondido.

Para passar essa mensagem forte e necessária é feito uso inteligente de luz e sombra na composição de cenas além da construção de camadas de violência e de ambientes e situações quase claustrofóbicas mesmo em espaços abertos. As cenas de fato gráficas, acontecem de supetão no meio da construção de tensão amplificando ainda mais a sensação de caos e descontrole dos personagens. O tempo todo existe uma expectativa de que uma tragédia vai acontecer ou de que um novo surto está em curso.

Trailer


Ficha Técnica

Título Original e Ano: Obsession, 2025. Direção e Roteiro: Curry Barker. Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless, Andy Richter, Haley Fitzgerald, Darin Toonder, Anthony Pavone, Justice, Anthony Casablanca. Gênero: Suspense, Thriller psicologico. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Taylor Clemons. Edição: Curry Barker. Casting: Skyler Zurn. Design de Produção: Vivian Gray. Direção de Arte: Sally Choi. Figurino: Blair James. Empresas Produtoras: Capstone Pictures, Blumhouse Productions, Tea Shop Productions, Under the Shel. Produtores: Jasom Blum, Mark Lane e Leonora Darby. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 01h48min.

Apoiado em uma ideia interessante do plot central, o terço final da película vai na contramão e se torna cada vez mais previsível, porém sem abandonar o tom de horror frenético estabelecido. A parte mais “fantástica” da narrativa é pouco desenvolvida e parece mais servir aos interesses finais do que a uma construção mitológica crível. Em alguns momentos as atuações são irregulares, foi impossível não imaginar como seria se outros atores tivessem sido escolhidos para os papeis principais e essa é uma sensação que definitivamente não deveria existir em um filme como esse, que se apoia em grandes momentos de tensão psicológica dependentes da simbiose e química de seus atores. Algumas situações ficam enfadonhas e repetitivas, mas mesmo com esses defeitos pontuais a trama consegue se segurar bem até o clímax e entregar o que se propõe de forma competente, sem grandes surpresas e nem grandes comentários. Falta aqui um epílogo, não há benefício nenhum na estrutura de “corte seco” da cena final. Ao colocar a figura feminina na posição inusitada de stalker obsessora cometendo as mais variadas insanidades “por amor incondicional” o longa distrai o espectador enquanto imprime a sua real crítica ao “movimento redpill”. Em um mundo onde mulheres estão mais independentes e inseridas no ambiente de trabalho do que outrora, surgem esses movimentos contrários de homens frustrados que querem não apenas o amor de uma mulher ideologicamente castrada de si mesma, mas também uma posição de servidão da parte delas. Bear inclusive dita seu desejo ao Salgueiro Mágico de forma rápida, seca, quase como uma confissão de seus anseios mais profundos. E ao ter seus sonhos sórdidos realizados, ele, ao contrário de todos a sua volta, demora a perceber o problema em que se meteu. É quase como se apagar a personalidade e a mente de alguém não o incomodasse desde que ele seja amado no final das contas. Seria isso amor ou apenas uma inescrupulosa obsessão?

HOJE NOS CINEMAS

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