“Para ser rico, tem-se que dar tudo de si!”
Ainda que “A Divina Sarah Bernhardt” (2024, de Guillaume Nicloux), cumpra aquilo que é prometido no título, em termos biográficos, é um filme recomendado principalmente para quem já conhece algo acerca desta famosa atriz e sobre o círculo de intelectuais e artistas que a cercavam, entre o final do século XIX e o primeiro quarto do século XX. O motivo: o roteiro de Nathalie Leuthreaul pode soar confuso, em seus vais e véns periódicos, além de exibir o cotidiano frenético da diva do teatro francês como se fosse uma das peças que ela interpreta…
Magistralmente vivificada por Sandrine Kiberlain, Sarah Bernhardt [1844-1923] é retratada na fase derradeira de sua vida e carreira, quando precisa amputar uma de suas pernas, em 1915. No início do longa-metragem, Sarah está no palco, morrendo em mais uma de suas potentes encenações, conforme elogia o escritor Oscar Wilde [1864-1900], num telegrama enviado para ela, numa homenagem. Ocorre que, no dia a dia, a atriz demonstrava um comportamento imperioso e até inconveniente, por ser acostumada aos caprichos da fama.
Compulsivamente apaixonada pelo ator e dramaturgo Lucien Guitry, papel de Laurent Lafitte, Sarah tem uma crise exagerada de ciúmes, quando ele demonstra o interesse de casar-se com a jovem atriz Charlotte Lysès, interpretada por Mathilde Ollivier, que, mais à frente, envolver-se-á com o filho de Lucien, o cineasta Sacha Guiltry, personagem vivido por Arthur Mazet, afilhado de Sarah. E ela, ao mesmo tempo em que se esforça para recuperar o carinho do homem que ama, tenta fazer com que ele se reconcilie com o seu filho.
Crédito de Imagens:
Parte considerável dos noventa e oito minutos de duração desta película é dedicada ao relacionamento turbulento entre Sarah e Lucien, não obstante também acompanharmos as suas interações com personalidades como Sigmund Freud, aqui interpretado por Nico Rogner, e Émile Zola, vivido por Arthur Igual, visto que a atriz possuía ascendência judaica e demonstrou-se favorável à defesa do militar que desencadeou o polêmico julgamento conhecido como Caso Dreyfus, que causou bastante rebuliço na França entre 1894 e 1906…
Em razão de a atriz estar comumente embriagada ou até mesmo drogada – por causa das dores atrozes que sentia desde que sofreu o acidente de palco que ocasionou a gangrena de sua perna –, o filme possui um ritmo ébrio, em que as passagens de tempo e as situações acompanham o estado de espírito da protagonista, cujos diálogos misturam passagens teatrais com uma maneira evasiva de lidar com os problemas, como o fato de o filho de Sarah, Maurice Bernhardt, encarnado por Grégoire Leprince-Ringuet, ser um apostador contumaz. Dilapidando a fortuna de sua mãe, Maurice apóia que ela escreva um livro de memórias, já que ela costuma alegar que diz, em entrevistas, o contrário do que pensa. É quando surge uma frase magistral, atribuída à atriz: “quando não se pode falar a verdade, deve-se mentir com sinceridade”!
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Sarah Bernhardt, La Divine, 2024. Direção: Guillaume Nicloux. Roteiro: Nathalie Leuthreau. Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger, Sébastien Pouderoux, Sylvain Creuzevault, Arthur Mazet, Arthur Igual. Gênero: Drama Biográfico. Nacionalidade: França. Direção de fotografia: Yves Cape AFC. Som: Olivier Dô Huu, Thomas Desjonquères, Olivier Walczak. Direção de Arte: Olivier Radot. Edição: Guy Lecorne Lma, Karine Prido. Figurino: Anaïs Romand. Produção: François Kraus, Denis Pineau-Valencienne. Distribuidora: Imovision. Duração: 98 min. Classificação: 16 anos
O ótimo entrosamento de um elenco homogêneo – com vários integrantes da Comédie Française – valida o aspecto refinado da produção, que, obviamente, serve-se de uma opulenta reconstituição histórica, com caprichada direção de arte, assinada por Olivier Radot, e deslumbrante fotografia de Yves Cape AFC – mais uma vez, fazendo com que os ambientes percorridos por Sarah Bernhardt e seus amigos pareçam uma extensão dos cenários teatrais. O desfecho do filme, em que Sacha narra o que acontece com a madrinha e com seu pai, nos finais de suas respectivas vidas, é bastante emocionante. Mais ainda, quando um excerto do clássico documentário “Ceux de Chez Nous” (finalizado em 1952, pelo próprio Sacha Guitry, a partir de filmagens iniciadas em 1915) é mostrado durante os créditos de encerramento…
O tom monocórdico da narrativa, eventualmente atravessado pela histeria de sua protagonista e permeado por trecho de diversas composições clássicas, pode causar estranhamento para quem espera uma perspectiva biográfica tradicional ou explicativa: ao diretor, interessa muito mais uma imersão actancial, deveras similar ao tipo de treinamento profissional que Sarah Bernhardt impunha às suas companheiras de cena, que eram repreendidas por chorarem ao serem maltratadas. “Em vez de chorar, tu deves me fazer chorar”, dizia a atriz, que afirmava que os intérpretes teatrais deviam “fazer o coração sangrar, a fim de comoverem a platéia”. O filme demonstra que a protagonista real não era muito simpática fora dos palcos, ainda que seu carisma fosse arrebatador e seu talento inquestionável. Para quem já conhece algo sobre a atriz, este exercício cinematográfico de cariz dramatúrgico aumenta o fascínio que ela exerce ainda hoje, mais de cem anos após a sua morte. Fez jus ao epíteto: tornou-se imortal!
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