SESSÃO VITRINE PETROBRÁS
A estética carnavalizante, tropical e colorida do diretor Cacá Diegues consegue transformar uma narrativa cruel e violenta do Brasil escravagista em uma pujante peça do cinema nacional. Essa explosão de brasilidade é que faz do filme Xica da Silva, de 1976, um filme tão único. É um desbunde despudorado deste mundo de correntes e grilhões, que metamorfoseia uma escravizada em rainha e o colonizador em súdito. Na alegria e no sexo monta-se uma resistência ao poder e ao status quo, assim como o Carnaval. É a herança negra, da resistência do quilombo, quebrando a opressão branca por dentro, fazendo-a implodir em mil pedacinhos e obrigando-a a se render de joelhos e gemendo de prazer à sua disruptiva revolução.
Xica da Silva (Zezé Motta) é a escravizada linda e sensual do Sargento-mor (Rodolfo Arena). Para sobreviver a um cotidiano de xingamentos e assédios morais, sua arma é a sedução e o sexo. Até mesmo o filho do seu dono, José (Stepan Nercessian), é rendido aos seus encantos. Nesta vila Arraial do Tijuco, em Minas Gerais, onde os negros são acorrentados e vivem sob grilhões e torturas, a riqueza campeia graças aos diamantes, mas o que impera mesmo é a corrupção e a cobiça dos poderosos portugueses colonizadores, enganados às vezes por quilombolas contrabandistas, que mineram ilegalmente e vivem às margens da sociedade, liderados pelo bandoleiro Theodoro (Marcus Vinícius).
Nesse cenário inóspito do Brasil Colônia, chega ao Arraial, mandado pela Coroa Portuguesa para capitanear a região e aumentar os impostos da metrópole, o Comendador João Fernandes (Walmor Chagas). Cobiçoso ao extremos das riquezas desta Minas Gerais, o Comendador enquanto cai de amores por Xica, usa Theodoro como baliza para suas explorações diamantíferas. Onde Theodoro está com seu bando é porque tem diamantes; onde Xica se deita é porque há vida, amor e prazer. Pois onde tem sanha e violência, os explorados aprendem a sobreviver, e Xica e Theodoro, sob as asas do abutre Comendador, prosperam e vivem. Infelizmente, não se pode dizer isto dos escravizados, que sucumbem mineirando nos córregos repletos de diamantes.
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes, Divulgação
Inúmeras cenas foram rodadas na verdadeira mansão de Chica da Silva em Diamantina, Minas Gerais. No longa, a escolha de escrever Xica com "X' é puramente criativa.
Até que este paraíso artificial desmorona de vez quando chega a esse Brasil profundo o fiscal da Coroa Conde de Valadares (José Wilker). Theodoro é capturado e torturado. O Comendador, mesmo subornando o Conde com muitos presentes, é enviado de volta à Lisboa. E, à Xica, cabe o abandono, o escárnio público e a desonra de mulher abandonada, perseguida pelos poderosos da vila. O principal presente, porém, ela tinha: sua carta de alforria que o Comendador tinha lhe cedido por amor. Com a liberdade nas mãos, Xica ressurge ao amor, escondida que estava num dos Conventos que tinha construído com os dobrões de ouro do seu rico amante e protetor.
Nessa estória de liberdade e prazer, Xica é extremamente sexualizada. Isto, porém, é de propósito. Neste mundo de opressão, o prazer vence a dor, a alegria negra vence a violência branca. Xica é a rainha do Arraial, com muita dança, riso, sexo e furdunço. É o Carnaval, é o Brasil, até a derrocada, que é a quarta-feira de cinzas, onde os deuses da alegria descansam. A história real não foi assim, todavia. Xica, mesmo o Comendador sendo obrigado a voltar à Lisboa, devido ter enriquecido ilicitamente, não foi escorraçada pelo vilarejo. Por ter se tornado muito rica, dona de centenas de escravizados, continuou sendo prestigiada na sociedade. Sua renda eram as diárias dos seus irmãos negros, que ela botava para trabalhar sob aluguel. Sua penca de filhos com o Comendador tiveram acesso a melhor educação da época e fizeram carreira tanto no Brasil quanto em Portugal. O preconceito racial é amaciado quando o dinheiro existe.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Xica da Silva, 1976. Restauração em 4K em 2026. Direção: Carlos Diegues. Roteiro: Carlos Diegues e Antonio Callado - Baseado no livro Memórias do Distrito de Diamantina a Comarca do Serro Frio, de João Felicio dos Santos. Elenco: Zezé Motta, Walmor Chagas, Altair Lima, Elke Maravilha, Stepan Nercessian, Rodolfo Arena, José Wilker, Marcus Vinícius, João Felício dos Santos, Dara Kocy, Adalberto Silva, Julio Mackenzie, Beto Leão, Luis Motta, Paulo Padilha, Baby Conceição, Iara Jati, Luis Felipe, Alberto Patu, Derly Barbosa, Paulão, Pompeo. Gênero: comédia Dramática, histórico. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: José Medeiros. Montagem: Mair Tavares. Direção de Arte e Figurino: Luiz Carlos Ripper. Caracterização: Carlos Prieto. Música: Jorge Ben Jor e Roberto Menescal. Som: Vitor Raposeiro. Produção: Hélio Ferraz, José Oliosi, Airton Correa e Jarbas Barbosa. Distribuição: Vitrine Filmes. Duração: 117 min.
O que Cacá Diegues quis narrar foi uma fábula. Nisso ele foi exitoso até demais. Xica da Silva foi um sucesso estrondoso de público, levando milhões ao cinema e alçando Zezé Motta ao estrelato, uma protagonista negra sendo reconhecida nas artes brasileiras, tão eivada de preconceito racial. Reconhecimento das plateias nada estranho à carreira deste grande diretor brasileiro, também responsável pelos filmes "Bye Bye Brasil" (1979), "Um Trem Para as Estrelas" (1987) e "Deus É Brasileiro" (2003), entre muitos outros. A iniciativa da Petrobrás, Vitrine, está relançando Xica da Silva, restaurado, nos cinemas de todo o país, a preços convidativos. Excelente chance de assistir um clássico do cinema nacional em tela grande e honrar o Cacá Diegues, a Zezé Motta e os excelentes atores e profissionais do cinema brasileiro!
Nota: 8/10
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