“Não tenho culpa se o paladar dela é quebrado!”
Na primeira seqüência deste filme, somos apresentados aos dois personagens principais, de maneira inusitada: num hospital recém-bombardeado, nascem duas crianças, com um minuto de diferença. Às 17h05’, um garotinho de nome Nino (Mohamad Farhat); às 17h06’, Yasmina (Alex Choueiry). Ambos estudarão na mesma escola, em Beirute, e, quando se tornam adultos, apaixonar-se-ão…
Nino (Hasan Akil) é o proprietário de um restaurante, que lida com as personalidades fortes de seus funcionários, sobretudo o ‘chef’ Chafic (Tino Karam), que não permite que os clientes adicionem sal ou pimenta aos pratos que ele prepara, pois estes já estariam com “o equilíbrio perfeito entre temperos”, e cuja esposa Leila (Nadyn Chalhoub) está grávida. O restaurante pertenceu aos pais de Nino, que faleceram num acidente automobilístico, e coube ao seu avô Antoine (Camille Salameh) estimular a continuidade do negócio.
Yasmina (Mounia Akl), por sua vez, é uma executiva bem-sucedida, cada vez mais decepcionada com a situação sociopolítica e econômica do Líbano, que sofre os efeitos extremos de uma guerra interminável. Ela tornou-se ressentida por causa do divórcio dos pais, e cresceu mal-humorada, assumidamente cínica, ao conviver com a sua mãe Oumaya (Julia Kassar), de temperamento difícil, chateada em relação a tudo. Até que o automóvel dirigido por Nino invade o escritório desta última.
Crédito de Imagens: Joe Sade, Pandora Filmes, Divulgação
O longa-metragem recebeu dezesseis prêmios em festivais diversos e mais seis indicações. O Líbano também enviou a produção como seu representante a categoria de "Melhor Filme Internacinoal" No Oscar de 2026
Ao reencontrarem-se, de maneira tão causal, Yasmina lembra-se de quando, na infância, Nino (então interpretado por Mohamad Fahrat) garantia-lhe que havia uma ilha afastada, onde eles poderiam esquecer de todos os problemas. A pequena Yasmina (Alex Choueiry) projeta nele um refúgio para as suas insatisfações acumuladas, o que será definitivo para a paixão futura, inclusive quando a própria Yasmina engravida e dá a luz à espirituosa Amal (Valentina Hachem).
Os destinos entrecruzados destas pessoas, numa conjuntura libanesa sob a égide de graves problemas bélicos e financeiros, combinam-se numa trama romântica com diversos instantes cômicos, num enredo que atravessa pelo menos duas décadas. E este é um dos problemas mais evidentes do filme, o histrionismo dos personagens e as situações caricatas, em que os atores gritam insistentemente. Ao fundo, as reflexões de Yasmina, que faz de tudo para ficar ao lado de seu amado, mas não consegue compartilhar o amor que ele sente pelo país natal…
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: A Sad and Beautiful World/ Nujum al'amal w al'alam, 2025. Direção: Cyril Aris. Roteiro: Cyril Aris e Bane Fakih. Elenco: Mounia Akl, Hasan Akil, Julia Kassar, Camille Salameh, Tino Karam, Nadyn Chalhoub. Gênero: Drama, romance e Catar. Nacionalidade: Líbano, Estados Unidos da América, Alemanha, Arábia Saudita e Catar. Trilha Sonora Original: Hainbach. Fotografia: Joe Saade. Edição: Cyril Aris e Nat Sanders. Design de Produção: Hanady Medlej. Direção de Arte: Salwa Rahmeh. Figurino: Zeina Saab de Melero. Empresas Produtoras: Abbout Productions, Doha Film Institute, Reynard Films, Diversity Hire, Faliro House Productions, Film Manufactures, Fondation Liban Cinéma, Fonds Images de la Francophonie, Giant Leap Media, Hessen Film & Medien, Mitteldeutsche Medienförderung (MDM), Red Sea Film Fund, Sultan Productions, Sunny Land Films, Sunnyland Film, The Atlas Workshops, Visions Sud Est, Sächsiche Landesmedienanstalt (SLM). Distribuidora: Pandora Filmes. Duração: 109min.
A direção de Cyril Aris – que não é estreante, apear da impressão deixada na condução de seu filme – insiste em deixar o roteiro despojado e acelerado, não obstante as conotações dramáticas que erigem os caracteres dos protagonistas e as suas motivações distintas para manterem um relacionamento: Nino foi privado do convívio paternal desde a adolescência, enquanto Yasmina teme repetir os mesmos comportamentos agressivos de seus genitores, que brigavam diante de si o tempo inteiro. Em meio à instabilidade emocional de seu marido, ela busca recursos para sair do Líbano, mas esbarra nas dificuldades que assolam toda a população. Exemplo: fica a madrugada de pé, numa fila, na esperança de conseguir passaportes para os seus entes queridos, mas isso não dá certo. Até que ela obtém uma vaga internacional em seu emprego, sendo convocada para viver em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Ao longo de uma hora e cinqüenta minutos, acompanhamos as situações como se estivéssemos conferindo uma típica comédia romântica: o título poético é metonimizado nas cartas que Yasmine escreve de maneira compulsiva, sem enviar para os respectivos destinatários. Segundo ela, num conselho para a filha Amal, esta seria a maneira mais adequada para suprimir as dores que a afligem, o que também pode ser a estratégia aforada pelo diretor para lidar com as dificuldades relacionadas à vida num país recorrentemente atacado pela malevolência do Estado de Israel. É um filme não tão memorável quanto a sinopse pretende, mas ajuda-nos a cotejar as brigas e carícias dos personagens com os eventos corriqueiros de nosso dia a dia, num estímulo de enfrentamento diuturno. A trilha musical insere efeitos eletrônicos para emoldurar a celeridade das rotinas de ambos os protagonistas e as interpretações são seguras, mesmo quando se percebe eventuais irregularidades emotivas no roteiro co-escrito pela cineasta Bane Fakih. O desfecho deixa em aberto uma escolha definitiva a ser tomada por Yasmina: assim, a vida continua, com suas belezas e tristezas, simultaneamente disponíveis no mundo em que vivemos.
EM CARTAZ NOS CINEMAS







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