Os anos 2000 trouxeram à sociedade muita tecnologia e inovação em todos os campos, e isto afetou tanto a vida profissional dos seres humanos quanto a vida amorosa. O acesso à educação, o levante das minorias e toda uma gama de fatores transformaram a relação entre homens e mulheres, uma dinâmica debatida há muito tempo em livros e filmes, universo que geralmente traz um olhar romântico ou muito real sobre o que acontece entre casais. “A Noiva!”, segundo longa-metragem da atriz, produtora e cineasta Maggie Gyllenhaal, chega aos cinemas com inúmeras ideias relevantes sobre o papel da mulher no debate atual sobre a chamada “solidão masculina”, além de tentar abordar o empoderamento feminino e outras pautas importantes para as causas feministas. A diretora revelou, em diversas entrevistas, que o roteiro é inspirado em sua história de amor com o ator Peter Sarsgaard, que interpreta no filme o detetive Jake Wiles. Mas, para além de sua vida pessoal, o filme também dialoga diretamente com a trama "A Noiva de Frankenstein" dirigida, em 1935, por James Whale. Ademais, ambas as narrativas abordam personagens centrais do livro "Frankenstein" de Mary Shelley, como o monstro criado pelo Dr. Victor e a possível proposta de uma companheira a este, o que vem a ser explorado no filme de Whale, visto a autora descrever que o cientista desiste da ideia por medo ao que aconteceria em uma união entre suas criaturas.
No longa de Maggie Gyllenhaal, Frank, vivido pelo ator Christian Bale, segue para Chicago em busca do Dr. Euphronius, interpretado por Annette Bening. Ao bater à sua porta, descobre que o cientista é, na verdade, uma mulher. A pesquisadora tem publicado diversos artigos sobre os estudos do Dr. Victor Frankenstein e sua criatura, o que acabou chamando a atenção de Frank, vivo há quase cem anos. Ao revelar quem é e ser avaliado pela Dra. Euphronius, ele se abre e conta que está à procura de uma companheira. Durante a conversa, ela comenta que, caso o que ele busque seja apenas sexo, isso seria mais fácil de conseguir do que ele imagina. No entanto, conclui que o que Frank realmente deseja é um relacionamento, algo que, para ele, talvez só fosse possível com alguém semelhante: uma criatura que também tivesse passado pelo mesmo processo de reanimação e que talvez não se assustasse com suas feições. Inicialmente, a Dra. Euphronius se recusa a criar alguém a partir de partes de corpos, mas aceita tentar encontrar um cadáver intacto para realizar o procedimento que conhece bem, já que já o testou em ratos, gatos e outros animais. Paralelamente à visita de Frank, a cidade vive uma noite agitada: mafiosos circulam pelos bares e têm mulheres à sua disposição. Entre elas está a jovem Ida, papel de Jessie Buckley, descontente e revoltada com os assassinatos de diversas garotas cometidos pelo líder da máfia. Ela tenta encontrar uma forma de libertar as mulheres e levar os culpados à prisão, sem imaginar que sua revolta a colocará em grande perigo naquela mesma noite. Após um surto mental, no qual tem uma visão de Mary Shelley, lutando contra um câncer e refletindo sobre suas próprias criações, Ida acaba morrendo. Sua morte fornece a Frank e à Dra. Euphronius o que precisam para a experiência: dar vida a uma mulher morta com a intenção de que ela se torne a companheira de Frankenstein - sua Noiva.
Após esse início intrigante, o longa leva o espectador a acompanhar a aventura e o processo de descoberta entre Frank e sua Noiva. Sem memória de sua vida anterior, ela acredita em tudo o que o homem lhe conta, e ele se apaixona com facilidade pela rebeldia e pela perspicácia da loura descabelada, de boca manchada. Aos poucos, ela revela toda a sua loucura, e o parceiro tenta defendê-la de uma possível tentativa de estupro, acabando por matar dois homens, um rastro de violência que passa a se espalhar por onde a dupla circula. Esses acontecimentos chamam a atenção do detetive Jake e de sua comparsa Myrna Mallow, vivida por Penélope Cruz. Myrna também é uma excelente investigadora, mas os tempos não permitem que ela ocupe oficialmente esse posto e, por isso, é tratada apenas como secretária do detetive, algo que fica claro não corresponder à realidade. Assim, enquanto os detetives e a polícia procuram os criminosos da máfia, Frank e sua Noiva vão ao cinema, visitam outras cidades dos Estados Unidos e deixam um rastro de caos por onde passam.
Jake Gyllenhaal, irmão da diretora, faz uma pequena participação como o astro de Hollywood Ronnie Reed, ator por qual Frank é fascinado e assiste a todos os trabalhos.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: The Bride!, 2026. Direção: Maggie Gyllenhaal. Roteiro: Maggie Gyllenhaal - inspirado no filme "A Noiva de Frankenstein", de James Whale, que adapta para às telas personagens da obra "Frankenstein", de Mary Shelley. Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Annette Bening, Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Penelope Cruz, Matthew Maher, Julianne Hough, John Magaro, Jeannie Berlin, Louis Cancelmi. Gênero: Fantasia, Romance, Drama, Terror, Scifi, Crime. Nacionalidade: EUA. Fotografia: Lawrence Sher. Trilha Sonora Original: Hildur Guðnadóttir. Edição: Dylan Tichenor. Designer de Produção: Karen Murphy. Direção de Arte: Karen Murphy. Figurino: Sandy Powell. Empresas Produtoras: First Love Films, In The Current Company, Warner Bros. . Distribuidora: Warner Bros Pictures Brasil. Duração: 02h06.
Mary Shelley é onipresente na narrativa. A autora funciona quase como uma quarta parede da personagem “A Noiva!”, aparecendo como se uma fosse a reencarnação ou como se estivesse a possuindo. A ideia nos leva a pensar que Shelley está ali com o propósito de repensar sua própria vida e seu casamento, afinal, em tempos antigos, muitos relacionamentos eram impostos. Jessie Buckley vive ambas as figuras e, para isso, constrói duas presenças distintas: selvagem em uma, cheia de amargura na outra, algo que acaba se misturando na personagem da Noiva mais perto do final da trama.
O texto de Gyllenhaal é bastante amplo ao tratar de mulheres que têm profissões, como a cientista ou a detetive, e precisam se esconder atrás de um homem para poder exercer seus ofícios. O filme também debate o desejo feminino, seja no aspecto ligado a um relacionamento, seja na vivência de fantasias sexuais. Além disso, destaca um certo “despertar feminino”, uma tentativa de libertação das amarras impostas às mulheres. Nesse contexto, A Noiva! assume o papel de ícone, enquanto uma espécie de paranoia coletiva parece levar essas mulheres a lutar contra tudo e todos. Há, portanto, muitas ideias misturadas, e um certo esvaziamento das pautas acaba conduzindo a película para um lugar obtuso, sem muita definição ou força narrativa. E, claramente, trazendo à tona, outros aspectos do que a autora originalmente apresenta em seu livro.
Crédito de Imagens: Courtesy of Warner Bros. Pictures, © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.
A ideia para o livro, que reflete sobre a possibilidade de o homem bancar o “criador”, nasceu de uma tarde criativa, em 1816, em que Mary Shelley e o esposo, o poeta Percy Bysshe Shelley, estavam com Lord Byron na Suíça. Byron incentivou que todos escrevessem algo e depois comparassem qual seria a melhor história. Shelley claramente arrebatou a todos com sua imaginação. Frankenstein só veio a ser publicado em 1818, sem seu nome na capa, e apenas quase 12 anos depois seu nome passou a constar como autora. O livro reflete pontos importantes sobre a humanidade, seja ao pensar a vontade do homem de criar algo sem a mulher, seja ao sugerir uma espécie de controle sobre a reprodução. Isso aparece com força quando o Dr. Victor Frankenstein entende que não poderá criar uma companheira para o monstro e controlá-la, pois ela teria vontades e desejos próprios e talvez até rejeitar o monstro. Temendo o que essa união poderia gerar, talvez outra criatura abominável e violenta, ele decide não dar companhia a Frankenstein e destrói o segundo corpo que construía, logo, a narrativa segue por um caminho trágico. Além disso, Victor percebe que a morte é o rastro deixado pela criatura por onde passa e se sente culpado por isso, ainda que tardiamente.
Esses pontos tão importantes da obra original não são vistos no filme de Maggie Gyllenhaal, que se atualiza para o período próximo à morte da autora, quando Mary Shelley estava doente e viúva e debate sua própria solitude. Gyllenhaal, no entanto, consegue diferenciar bastante seu trabalho da obra dirigida por James Whale, já que naquele filme a Noiva aparece por meros minutos e sem protagonismo real. O que entristece aqui é a falta de foco e de rumo, pois o longa consegue remeter aos cartoons de Frankenstein, aos filmes já conhecidos e se inserir em diversos gêneros possíveis, mas não entrega algo realmente redondo ou com uma mensagem mais refinada.
Crédito de Imagens: Foto 1 Archive Photos/Getty Images - © 2012 Getty Images/ - Foto 2 Courtesy of Warner Bros. Pictures, © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.
Christian Bale e Jessie Buckley vivem os papéis que foram de Elsa Lanchester e Boris Karloff em "A Noiva de Frankenstein" (1935)
Para os amantes da sétima arte, será fácil encontrar inúmeras referências aos primórdios de Hollywood e obras daquela época como "Metropolis" (Fritz Lang, 1927). A dupla é vista em certo momento dançando como a dupla Ginger Rogers e Fred Astaire e ganham um ar à la "Bonnie & Clyde" (Arthur Penn, 1967) em cenas que aparecem brigando e matando quem quer que ouse os perseguir. O departamento de maquiagem e cabelo dá um show a parte, pois as caracterizações casam com o jeito punk que Maggie quer dar a sua Noiva. O design da produção é realmente um show a parte.
As atuações são extremamente convincentes e é fenomenal ver Bale, que já foi Batman, ou homens psicopatas e viciados em drogas, em mais uma ótima performance. Jessie, que esteve em "A Filha Perdida" (2021), primeiro filme dirigido por Gyllenhaal, parece estar firmando uma parceria feminina poderosa, ainda que precise de mais equilíbrio nos trabalhos futuros.
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