quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Yes, de Navid Lapid


“É patético ser artista com mais de quarenta anos de idade”!

Filmes como “A Professora do Jardim de Infância” (2014), “Sinônimos” (2019) e “O Joelho de Ahed” (2021), todos ótimos e controversos, ajudam a entender o porquê do realizador Nadav Lapid ser considerado ‘persona non grata’ em Israel: em todas as suas obras, a necessidade de deserção militar e nacional surge como paradigma moral para os protagonistas, e isto retorna em seu mais novo petardo, “Yes” (2025), protagonizado por Ariel Bronz, em entrega absolutamente visceral…

Na primeira cena, ele – que interpreta um personagem nomeado apenas como Y – e sua esposa Yasmin (Efrat Dor) dançam freneticamente, num segmento intitulado “A Boa Vida”. Eles estão numa festa chique e “Be My Lover”, canção dançante da banda alemã La Bouche, é executada. De repente, em meio a um punhado de situações bizarras, o chefe do estado-maior israelense propõe um “duelo de canções”, arrastando consigo alguns puxa-sacos, que entoam “Love Me Tender”, na versão de Elvis Presley. Y canta mais alto, até ser convencido por sua esposa: “deixe o chefe vencer”. Sentimos, de imediato, a potência da tensão existente entre este casal e quem o circunda…

À medida que o filme avança, compreendemos que Y e Yasmin atuam como animadores de festas que, no afã por conseguirem dinheiro, eventualmente fazem sexo com os convidados. Afinal, “foder é fácil!”. Eles têm um filho pequeno para criar – nascido um dia após os eventos de 7 de outubro de 2023 – e amam-se legitimamente, o que percebemos pelo modo fulgurante com que eles acordam, dançando ao som de “Aserejé”, da banda Las Ketchup, ouvida de maneira altissonante, depois que eles constatam que não conseguirão relaxar e/ou ficar em silêncio no centro de Tel Aviv, onde moram. Há uma guerra acontecendo ali perto – ou melhor, um genocídio. E, mesmo sendo israelense, Nadav Lapid não é nada condescendente quanto às decisões bélicas de seu país.

            Crédito de Imagens:  Les Films du Bal e Chi-Fou-Mi Productions / Imovision, Divulgação
O filme estreou no Festival de Cannes, em 2025, na sessão "Cannes Director's Fortnight"

O tempo inteiro, Y é bombardeado, literalmente, por notícias sobre o massacre na Palestina, que chegam como notificações em seu telefone celular. Mas ele esforça-se para ignorar, pois precisa seguir com a sua vida. Até que recebe uma proposta tentadora do corrupto militar Avinoam (Sharon Alexander), num cruzeiro para o qual ele é convidado: ele deverá compor a música para um novo hino de vitória israelense, cuja letra exorta o extermínio dos palestinos. É a deixa para que Y seja submetido a um grave dilema existencial, que se intensifica quando ele reencontra Leah (Naama Preis), uma namorada da juventude.

Obcecado pelo músico Thelonius Monk, Y fôra um pianista precoce, mas precisou abandonar esta vocação, até receber o convite supracitado, que o atormenta progressivamente, sobretudo depois que ele testemunha os horrores perpetrados diuturnamente no território de Gaza, o qual observa num local em que as famílias costumavam acampar, “para ver as bombas sendo atiradas”, conforme explica um soldado. O modo como o filme denuncia a malevolência do exército israelense é inacreditável!

Se, no início, o filme entusiasma-nos pelo modo como insere uma canção contagiante atrás da outra e como metonimiza a cumplicidade romântica entre Y e Yasmin, quando Leah entra em cena, o tom torna-se melancólico, tormentoso, com alguns toques de realismo mágico, referentes à “ajuda” celestial da mãe falecida de Y, em momentos em que ele requer auxílio ou precisa de orientação, e à maneira como Avinoam transmuta o próprio rosto numa tela, para transmitir imagens da chacina contra os palestinos, as quais ele comemora como vingança “justa”. É um longa-metragem perturbador, que encara de frente as descrições mais dolorosas do genocídio, incluindo a absurda releitura de uma canção antiga, distorcida em hino de guerra, cantarolado por crianças. Numa das cenas mais surpreendentes, Avinoam, que jacta-se de seu bronzeado facial alaranjado, encara os espectadores e, apontando para a câmera, dispara: “cada um de vocês possui um segredo que o mataria, se este fosse trazido à tona”. A podridão de caráter deste personagem é diametralmente associada ao seu poderio militar, como sói acontecer em nações acostumadas à matança inclemente de seus opositores!

Trailer



Ficha Técnica
Título original e ano: Ken, 2025. Direção e Roteiro: Nadav Lapid. Elenco: Ariel Bronz, Efrat Dor, Naama Preis, Alexey Serebryakov. Gênero: Drama. Nacionalidade: França, Israel, Alemanha. Direção de fotografia: Shai Goldman. Música: Aviv Aldema. Direção de Arte: Pascale Consigny. Figurino: Sandra Berrebi. Edição: Nili Feller. Som: Dolev Raphaely. Produção: Maren Ade, Thomas Alfandari, Jonas Dornbach, Janine Jackowski. Empresas Produtoras: Les Films du Bal, Chi-Fou-Mi Productions, Bustant Films, AMP Filmworks, Komplizen Film. Distribuição: Imovision. Duração: 150 min. 
 
Genial do início ao fim, este filme confirma a habilidade do realizador ao abordar temas espinhosos de seu país natal, sem negligenciar a invenção lingüística, dado que a obra é mui original no modo como é montada, interpretada, musicada e roteirizada, sendo inúmeras as cenas em que ficamos angustiados perante o desprezo dos cidadãos de Israel quanto aos palestinos. Vide o modo concordante como a funcionária de uma fotocopiadora reage ao ler a letra violentíssima do hino que Y hesita em musicar ou as reações efusivas dos freqüentadores de um restaurante, quando ele e Leah tocam juntos “Mamãe, Eu Quero”, ao piano, enquanto ali perto, cadáveres de crianças são destroçados por cachorros. A despeito de ser um filme divertidíssimo, “Yes” é também muito violento no que propõe: “no mundo, há apenas duas palavras, ‘sim’ e ‘não’. Cabe a nós escolher uma delas”. Ao final, a responsabilidade ética acerca do que é exposto cinematograficamente, de maneira brilhante e acelerada, é-nos direcionada: erotizar o ato de lamber as botas de assassinos é uma opção exibida para o nosso escrutínio. De maneira nada sutil, Nadav Lapid confirma o laudo repetido entre os usuários conscientes das redes sociais: infelizmente, os judeus sionistas são os nazistas contemporâneos!

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Sapatona Galáctica

 
A animação australiana “A Sapatona Galáctica” é uma divertida, e assumidamente irreverente, versão queer de Guerra nas Estrelas. Mas, ao contrário da pomposa saga criada por George Lucas, aqui não há discursos solenes sobre Bem versus o Mal nem a grandiloquência épica típica do gênero. O foco está na jornada íntima de uma jovem que atravessa o cosmos tentando reconquistar a ex-namorada e, ao mesmo tempo, aprender a se aceitar. Entre batalhas espaciais estilizadas e muito humor afiado, o filme aposta em piscadelas sexuais e ironias debochadas para transformar a ficção científica em uma comédia romântica intergaláctica cheia de personalidade.

Das diretoras e roteiristas Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, a animação vem conquistando público e crítica por onde passa. No Brasil, recebeu o "Prêmio Félix de Melhor Filme Internacional" no Festival do Rio 2025 e também venceu o mesmo prêmio, desta vez pelo voto do público, no MixBrasil 2025. Sua trajetória internacional já havia começado em alta: na estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, no ano anterior, onde o filme conquistou o "Teddy Award" de "Melhor Longa-Metragem", além de acumular diversos outros reconhecimentos em festivais ao redor do mundo.

Com uma roupagem pop, cômica e despretensiosa, seu sucesso comercial, porém, pode talvez ser podado por conta da temática queer. Infelizmente, em muitos países do mundo, a simples menção a personagens LGBTQIAPN+ impede a exibição de películas, podendo gerar prisões ou consequências piores para quem tenta burlar as proibições. No Brasil, a audiência, mais adulta ou mais jovem, ainda tem a oportunidade de assistir filmes com essa temática nos cinemas, seguindo a classificação. Cabe uma luta constante dos amantes do cinema e das liberdades individuais para que este direito nunca seja coibido.


Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Lesbian Space Princess, 2025. Direção e Roteiro: Emma Hough Hobbs e Leela Varghese. Elenco de vozes originais: Shabana Azeez, Bernie Van Tiel, Jordan Raskopoulos, Madeleine Sami, Sam Matthews, Annie Schofield, Stephanie Daughtry, Broden Kelly, Mark Samual Bonanno, Arlen Velez, Zachary Ruane. Gênero: Animação, Comédia. Nacionalidade: Austrália. Trilha Sonora Original: Michael Darren. Edição: Ben Fernandez. Designer de Produção: Emma Hough. Efeitos Visuais: Jeremy Kelly-Bakker. Animadora: Emma Hough. Empresas Produtoras: We Made a Thing Studios. Distribuidora: Synapse Distribution. Duração: 01h27min.


A princesa espacial Saira (voz original de Shabana Azeez), uma jovem indiana de 23 anos, é abandonada pela namorada tóxica Kiki, uma caçadora de recompensas, que coleciona namoradas por onde passa. Na cama com várias outras mulheres, Kiki (Bernie Van Tiel) é sequestrada pelos vilões héteros da galáxia. Eles pretendem, com esse rapto, que Saira entregue a eles a arma lendária da realeza a troco da liberdade de sua amada, que permitirá que seja acionado um poderoso imã de garotas. Incapazes de namorar por conta própria, os incéis empedernidos precisam urgentemente deste artefato.

Saira, ainda apaixonada por Kiki, atravessa meio universo para resgatar a amada. Na companhia de uma nave espacial inteligente e de uma roqueira gótica bissexual, que resgatou de um planeta abandonado, a princesa passa por muitas aventuras, aprendendo a se amar e se respeitar. Até que chega ao planeta covil dos héteros, e sua ex-namorada tóxica quase põe tudo a perder.


Crédito de Imagens: We Made a Thing Studios / Synapse Distribution, Divulgação
Emma Hough Hobbs é uma das diretoras do filme e também é a animadora do filme e fica ainda a cargo da edição.

Quase, porque a animação é uma comédia com final feliz para a insegura Saira, que se descobre uma mulher confiante e plena. Neste ponto, o filme é um maravilhoso, gostoso e colorido bolo de camadas. Tem o substrato de uma aventura de ficção científica, com naves espaciais inteligentes, muitas raças alienígenas e vários cenários de planetas exóticos, uma autêntica "Guerra nas Estrelas", só que queer. Há a camada de piadas sexuais, muita sacanagem, com lésbicas sensuais e que realmente se amam e fazem sexo, semelhante aos quadrinhos underground das décadas de 70 e 80, estilo encontrado na revista Heavy Metal ou Chiclete com Banana. E tem, como cereja principal do coquetel, a sensível luta de uma pessoa queer para se amar, se aceitar e desabrochar, independente de relações complicadas ou de heterossexuais preconceituosos.

Aliado a um traço nostálgico e fotografia muito colorida, além de várias músicas pop, a animação é um refrigério a tantos filmes gays sofridos e com finais infelizes. Com desfecho otimista e alegre, A Sapatona Galáctica é uma excelente escolha para uma exibição de cinema descompromissada, alegre e cheia de orgulho queer!

Nota: 7/10

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Você Só Precisa Matar

 

“Quando eu faço as coisas diferentes, o futuro muda!”


Por ser baseado no mesmo romance ilustrado [“All You Need is Kill”, de Hiroshi Sakurazaka] que deu origem ao filme “No Limite do Amanhã” (2014, de Doug Liman), o enredo deste longa-metragem animado soa duplamente repetitivo, pois já vimos esta história antes e porque a repetição em si é um componente essencial da trama, no sentido de que os personagens experimentam os eventos de um mesmo dia mais de uma centena de vezes!

Diferentemente da adaptação hollywoodiana, “Você Só Precisa Matar” (2025, de Kenichiro Akimoto) investe no arrebatamento visual, explicando pouco da situação-chave, no início: fã assumido do cineasta David Lynch [1946-2025], o diretor japonês – em colaboração com Yukinori Nakamura – utiliza elaborados recursos de computação gráfica para construir a explosão da flor alienígena Darol, que irrompe subitamente, com seus raios rubros e longínquos, apropriando-se das energias dos seres humanos, a fim de se fortalecer. Um ano depois de sua aparição, esta flor libera criaturas ávidas por matar, para concluir o processo de deglutição. 

Estamos num futuro distante, e várias pessoas se oferecem como voluntárias, para estudar o enigma de Darol e, se for necessário, lutar para defender a soberania da Terra. Entre estas pessoas, está Rita (duplada por Ai Mikami, na versão original), que sente-se solitária e excluída por seus companheiros de batalha, na maioria das vezes: ela levanta-se às sete horas da manhã; toma o seu desjejum, ignorando os comentários maliciosos a seu respeito; veste o seu traje especial de combate; e percebe, espantada, o aflorar das criaturas que estavam no interior de Darol. É atacada, morre… e acorda no dia seguinte,  no mesmo horário, como se nada tivesse acontecido! 

Esta é a premissa central da narrativa: Rita vivenciará os mesmos eventos diversas vezes, até perceber que ela é capaz de modificar o aparente determinismo de sua rotina. Porém, por mais que ela tente, continua a ser morta pelas criaturas expelidas por Darol. Até que nota duas situações estranhas: 1 – de repente, seu traje de combate é atualizado com uma força descomunal; 2 – mesmo quando ela não morre, em duas ocasiões, desperta no mesmo dia, no mesmo horário. O que teria provocado isto? 

Crédito de Imagens: Studio 4°C - Paris Filmes, Divulgação
"Você Só Precisa Matar" foi exibido no Annecy International Animation Film Festival de 2025 e sua estréia no Japão aconteceu no inicio de janeiro deste ano


É quando ela conhece o jovem Kenji (Natsuki Hanae), que, tal como ela, revive o mesmo dia quase duzentas vezes. ‘Nerd’ especializado em informática, ele admite que estava espionando Rita há algum tempo, no afã por auxiliá-la em sua jornada. Ocorre que seu verdadeiro motivo é outro: como ele fôra bastante maltratado por seus colegas de colégio, ficou admirado por encontrar alguém que lida tão afirmativamente com a solidão. Apaixona-se, portanto. E lutarão juntos contra Darol… 

Conforme ambos descobrirão após algumas mortes conjuntas, há uma cientista que compreende os mecanismos de fortalecimento interior de Darol, e ela avisa-lhes que a flor alienígena deseja acoplar-se ao casal, no intuito de tornar-se imbatível e dominar o planeta por completo. É quando é sugerido que ambos visitem uma cratera onde estão os esporos de Darol, o que validará o título imperativo do filme. 

Servindo-se de um visual bastante colorido e de um desenho de som acachapante, ainda que a trilha musical não lhe faça jus, “Você Só Precisa Matar” é funcional quando assume a pieguice romântica e faz com que torçamos para que Rita e Kenji concretizem a união afetuosa esperada neste tipo de roteiro. Porém, algumas soluções infantilizadas (exemplo: os comportamentos dos robôs “engraçadinhos” de Kenji, que fazem companhia em sua jornada) dirimem o impacto visual da obra, de modo que tendemos a achar o enredo repetitivo e entediante, na maneia automática como manuseia os clichês de ficção científica. A despeito do apuro técnico inequívoco, o desenvolvimento incipiente do contexto em que Rita vive prejudica a adesão espectatorial, exceto no que tange ao supracitado estímulo romântico, previsivelmente efetivado. Ao final, de alguma maneira, o filme nos prepara emocionalmente, para o caso de haver uma hecatombe nuclear ou uma invasão extraterrestre, enquanto metonímias de tragédias que já acontecem no presente, na realidade belicosa associada à consolidação da extrema-direita, em vários países. Eis uma das funções da arte: ainda que de maneira disfarçada e/ou fantasiosa, faz com que estejamos devidamente educados para lidar com desafios imediatos ou com mazelas anunciadas a longo prazo, enquanto conseqüências das ações de nossos governantes ou de inimigos externos!

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Ôru Yû Nîdo Izu Kiru, 2025. Direçãode Ken'ichirô Akimoto e Yukinori Nakamura. RoteiroYûichirô Kido. Elenco: Ai Mikami, Natsuki Hanae, Mô Chûgakusei, Kana Hanazawa, Hiccorohee. Gênero: Adaptação, animação, scifi. Nacionalidade: Japão. Trilha Sonora Original: Yasuhiro Maeda. Direção de Arte: Tomotaka Kubo, Takanori Nakajima e Junji Ôkubo. Departamento de Animação: Hisato Tokumaru. Empresa ProdutoraStudio 4°C. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h26min.

HOJE NOS CINEMAS

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"O Morro dos Ventos Uivantes", de Emerald Fennell

 
Apresentar um clássico repaginado a uma nova geração, alterando parte do que a obra original entrega, pode ser um risco considerável para artistas contemporâneos. Esse é o caminho que a diretora inglesa Emerald Fennell escolhe seguir em O Morro dos Ventos Uivantes, uma adaptação livre do texto de Emily Brontë. A diretora do empolgante “Bela Vingança” (2020), contudo, revela traços muito importantes da época em que a obra foi escrita e publicada (1847): um tempo em que classe social e gênero ditavam as regras, mas também era situado pela escassez de alimentos e pela pobreza extrema, quando doenças se proliferavam rapidamente devido à falta de estrutura, água potável e higiene das famílias que viviam nas cidades ou no campo. A essência da história, o amor autodestrutivo entre Heathcliff e Cathy, vividos aqui pelos atores australianos Jacob Elordi e Margot Robie, ainda está presente. No entanto, perde parte das camadas da narrativa quando a adaptação opta por um recorte mais restritivo e se limita aos capítulos que envolvem o desabrochar da relação, uma agora que destaca o libido aflorado.

Para os leitores, as aspas no título já entregam aquilo que o filme evidencia desde seu trailer: o abandono do tom gótico em favor de uma abordagem mais sensual, algo pouco explorado em adaptações anteriores. Ademais, há uma exclusão clara de personagens, situações e acontecimentos. Para os cinéfilos que se recordam das versões passadas - como o filme de 1992, dirigido por Peter Kosminsky, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, ou a aclamada minissérie de 2009 do canal britânico ITV, protagonizada por Tom Hardy e Charlotte Riley - a mudança de tom também é evidente. A escolha estética do novo filme remete bastante às produções eróticas que ocupavam as madrugadas da TV aberta nos anos 90, estas últimas com grande embasamento na literatura de banca.

Nesta nova releitura, que a princípio pode parecer menor por não destrinchar tudo o que envolve os amantes atormentados, há também sensatez ao propor humanidade, instinto, desejo e vontades que habitam o imaginário e fazem parte da vida de homens e mulheres, mesmo em tempos antigos. O casting, assinado por Kharmel Cochrane, que já havia trabalhado com Fennell em “Saltburn” (2023), traz certa diversidade ao escalar a atriz asiática Hong Chau no papel da governanta "Nelly" e o ator britânico de origem paquistanesa Shazad Latif como "Edgar Linton", o segundo interesse amoroso de Cathy. Nesse aspecto, porém, Cochrane não acerta plenamente e acaba causando certo constrangimento ao parar por aí e ignorar a polêmica em torno das descrições de Heathcliff no rascunho original. Ali o personagem é frequentemente lembrado como um homem de pele parda ou escura, de origens ciganas. Talvez coubesse, como fez a adaptação de 2011, assinada por Andrea Arnold, com Kaya Scodelario e James Howson no elenco, a escolha de um ator negro para o papel.

           Crédito de Imagens: Photo Courtesy Warner Bros. Pictures. / © 2026 Warner Bros. Ent. All Rights Reserved
"Wuthering Heights" , título original em inglês da película, foi o único livro escrito por Emily Brontë. Ainda assim, a narrativa já inspirou mais de 30 adaptações ao longo dos anos, entre filmes e séries de televisão.


A película se inicia com um enforcamento em praça pública. O destino trágico daquele que está amarrado é acompanhado por dezenas de pessoas ferozes, que clamam por punição. A pequena Cathy (Charlotte Mellington) não tira os olhos do morto. Em seguida, a câmera destaca o recorte das partes íntimas enrijecidas do falecido, e ela e Nelly (Vy Nguyen), sua dama de companhia, apenas poucos anos mais velha, correm de volta para casa: um casarão antigo no alto de um morro. Seu pai, o Sr. Earnshaw (Martin Clunes), é viúvo e também perdeu um filho, o que talvez explique sua decisão de comprar um menino de um cigano que passava pela cidade e agredia a criança. O pequeno Heathcliff (Owen Cooper) surge como um bicho do mato, e o senhor de Wuthering Heights entrega o garoto à filha como uma promessa de que ele será seu “pet”. Ele chega ferido, com marcas na cabeça, e é posto no sótão. Cathy o trata com desdém, mas tenta ensiná-lo a ler e passa boa parte do tempo o irritando, até que, pouco a pouco, laços começam a se formar e Heathcliff finalmente começa a falar. Certo dia, as crianças saem para brincar e acabam presas, esperando a chuva passar. O episódio rende a Heathcliff cicatrizes causadas pelas mãos do Sr. Earnshaw, e o garoto prefere apanhar para que nada aconteça a Cathy. Assume a culpa pela demora para retornar para casa.

Eles crescem juntos, vagam pelos campos e passam a se olhar de forma diferente, sobretudo depois que Cathy presencia os serviçais do pai, Joseph (Ewan Mitchell) e Zillah (Amy Morgan), em momentos íntimos. O que antes era irritação, implicância e brincadeiras infantis se transforma em paixão, desejo e contenção. Nelly chega a ter uma conversa com Cathy sobre Heathcliff, sabendo que ele está ouvindo, mas ele não escuta tudo: apenas a parte que o fere. A jovem confessa que eles não podem ficar juntos, pois o status e nome que faltam à ele mancharia a reputação dos Earnshaw. A fala, ouvida às escondidas, leva o rapaz a partir amargurado, com o coração estraçalhado e enciumado, ainda mais ao perceber a empolgação de Cathy com a chegada de novos vizinhos, entre eles o riquíssimo Edgar Linton e sua pupila, Isabella (Alison Oliver). Após um acidente enquanto bisbilhotava as propriedades refinadas dos Linton, Cathy é acolhida por eles e permanece alguns dias na casa.

A partida de Heathcliff e as novas conexões transformam a vida de Cathy. Logo, ela se vê casada com Edgar, usando vestidos pomposos que jamais teria condições de comprar. Enquanto isso, seu pai afunda cada vez mais no álcool e na miséria, algo que o leva a morte, inclusive. Anos depois, porém, Cathy, que nunca esqueceu seu primeiro amor, é atormentada pelo retorno dele. Heathcliff reaparece bem vestido, claramente com posses, a ponto de comprar a antiga casa de Cathy das mãos do Sr. Earnshaw. Essa virada revela que ele volta ao lugar não apenas para causar impacto com sua transformação, mas também para se vingar da amada e se casar com outra mulher, no caso, Isabella, atingindo igualmente Edgar, a quem vê como o ladrão de sua Cathy. Esse relacionamento conturbado entre os dois acaba se consumando em momentos que estão a sós e longe de todos. No entanto, aos poucos, Cathy, grávida de Edgar, percebe que Heathcliff e seu comportamento não lhe fazem bem, e o esposo também passa a exigir que ela se afaste do estranho homem.

Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Wuthering Heights, 2026. Direção: Emerald Fennell. Roteiro: Emerald Fennell - livremente adaptado do livro homônimo de Emily Brontë. Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver, Shazad Latif, Martin Clunes, Ewan Mitchell, Amy Morgan, Jessica Knappett, Charlotte Mellington, Owen Cooper, Paul Rhys. Gênero: Drama, . Trilha Sonora Original: Anthony Willis. Fotografia: Linus Sandgren. Edição: Victoria Boydell. Designer de Produção: Suzie Davies. Direção de Arte: Caroline Barclay. Figurinista: Jacqueline Durran. Empresas Produtoras: Lie Still, LuckyChap e MRC Film. Distribuidora: Warner Bros. Pictures. Duração: 02h16min.

O texto, também assinado por Fennell, investe na essência petulante de Cathy e nos mistérios, além do comportamento perverso, de Heathcliff. O público percebe que a dupla é atormentada por demônios próprios, e a retratação do relacionamento se alinha àquilo que muitos já viram ou leram em outras versões da história. O recorte, porém, reduz o tempo de sofrimento de ambos e das relações entrelaçadas nas quais acabam se envolvendo ao longo dos anos. No livro, a morte de Cathy ocorre em decorrência do parto; aqui, Fennell opta por alterar esse acontecimento. Isabella também chega a ser mãe na obra literária, e Heathcliff, que permanece vivo e assombrado por um amor que não se concretizou, passa a buscar formas cada vez mais cruéis de perseguir os Linton. A diretora não avança até esse ponto, e a audiência acaba perdendo essas camadas da trama, assim como sente a ausência de personagens, como Sr. Lockwood, ou ainda Hindley, o irmão de Cathy. Brontë erá avida leitora de Lorde Byron e Shakespeare, e de certa forma, isso impacta sua escrita e como seus personagens seguem seus destinos assombrados.

As referências cinematográficas que Fennell usa para ampliar sua visão do enredo são inúmeras: “…E o Vento Levou” (Victor Fleming, 1939), “Drácula de Bram Stoker” (Francis Ford Coppola, 1992), “Romeu + Julieta” (Baz Luhrmann, 1996), entre muitas outras. O design dos sets, o figurino e a direção de arte são vitais para construir essa percepção carnal, feminina e cheia de experimentações. Há um olhar visivelmente empoderador e moderno, principalmente nas escolhas feitas para construir e caracterizar Cathy, ainda que algumas soem à frente de seu tempo. As atuações são pontuais, e a beleza dos atores contribui para o encantamento pelos personagens. Jacob Elordi é o astro do momento (há quase quatro anos) e vem conquistando bons papéis em séries e filmes de gêneros variados. Neste ano, conseguiu indicação por sua interpretação da criatura em “Frankenstein”, de Guillermo del Toro. Margot Robbie tem equilibrado bem sua carreira e vale lembrar que apareceu em um drama de época como Rainha Elizabeth I em “Duas Rainhas” (Josie Rourke, 2018). Ambos já trabalharam outras vezes com Fennell: Robbie produziu seus filmes e foi sua colega de cena em “Barbie” (Greta Gerwig, 2023), enquanto Elordi aparece em “Saltburn” e neste longa, sinalizando uma parceria que se consolida com os anos.

A trilha sonora do filme, assinada por Anthony Willis, aposta em sons retumbantes em momentos que nem sempre parecem se encaixar. Além disso, a popstar Charli XCX é responsável por canções temáticas pensadas especificamente para o filme. Algo que não compete com o clássico emblemático “Wuthering Heights”, de Kate Bush, lançado em 1978, mas que, de certa forma, dialoga com a juventude.

O apelo visual aqui é criativo, talvez já uma marca registrada da diretora, e sua condução consegue eternizar a humanidade de Cathy e Heathcliff, mesmo sem entregar uma obra-prima.

12 de Fevereiro nos Cinemas

domingo, 8 de fevereiro de 2026

LOL: Se Rir Já Era! - 5º Temporada | Assista no Prime Video

 
 
A quinta temporada de “LOL: Se Rir, Já Era!” já está disponível no Amazon Prime Video. O programa, que em seus primeiros anos foi apresentado por Tom Cavalcante, agora traz o comediante também como participante do jogo, ao lado de Fabiana Karla, Gregório Duvivier, Flávia Reis, Luciana Paes, Rafael Linfante, Igor Guimarães, Estevam Nabote, Ed Gama e Suzy BrasilFábio Porchat, vencedor da edição de 2025, assume nesta temporada o posto de host. Flávia Reis e Ed Gama, que já conquistaram o título anteriormente, ela em 2021 e ele em 2023, também retornam ao programa. O elenco reúne nomes que já passaram por diferentes edições. Igor Guimarães e Estevam Nabote participaram da primeira temporada, assim como Flávia. Suzy Brasil esteve na mesma edição que consagrou Ed Gama. Fabiana Karla atuou como co-host em 2023, enquanto Luciana Paes e Gregório Duvivier voltam após participação na temporada anterior. Rafael Linfante é o único representante da edição de 2022.

Para proporcionar ao público a experiência de assistir à série em uma sala de cinema, o streaming levou convidados de alguns estados do Brasil para uma sessão especial. Na ocasião, foi possível conferir dois episódios da hilária produção e acompanhar a entrada dos participantes na casa, que, aliás, é um dos momentos mais divertidos do início do programa. E, logo depois, conferir o desenvolvimento do jogo e descobrir quem foram os primeiros eliminados. 

Trailer


Ficha Técnica
Título Original e Ano: LOL - Laughing Out Loud!, 2025. Direção: Claudia Alves. Roteiro: Fernanda LeiteDaniella FernandesBeth Moreno, Bruna Sampaio, Cecília BastosCintia PortellaCarolen MenesesGalba GogóiaLivia La GattoLuli RomanoNatália BalbinoPedro Sardaux, Roberta Melo, Ulisses Mattos e Victor Ahmar. Apresentação: Fábio Porchat. ElencoTom Cavalcante, Gregorio Duvivier, Igor Guimarães, Rafael Linfante, Ed GamaEstevam NaboteFabiana KarlaFlavia Reis, Suzy Brasil, Luciana Paes, Ronaldinho Gaúcho.  Empresa produtora: Formata. Produtores:  Daniela Busoli e Leonardo Lessa Lopes. Produção: Amazon MGM Studios. Duração por episódio: 30min. Classificação: 14 anos.
Ed e Suzy, que chegaram a disputar o mata-mata na edição em que participaram, já entram em cena com força total. Aos poucos, os reencontros vão acontecendo e revelam afinidades e amizades fora do jogo, como as de Ed e Nabote ou Gregório e Rafael. Igor, por sua vez, é quem mais passa por poucas e boas quando uma frase dita por ele em sua edição - “Você gosta mais da Pepê ou da Neném?” - se volta contra ele. Isso acontece justamente porque uma das participações especiais é da própria dupla, que brinca com o meme criado pelo comediante no passado. Igor também resgata suas frases aleatórias, faz piadas zoando a idade de Tom Cavalcante e recorre até ao famoso “gemidão do zap”. Nesse início, o público assiste a um desfile de piadas com forte teor sexual, muitas delas potencializadas pela performance de Suzy Brasil. A drag comediante, inclusive, consegue fazer Fabiana Karla se desconcentrar e rir por um leigo pedido de foto de Suzy ao lado de Luciana Paes. 

                                                                      Crédito de Imagens: Amazon Prime Video Brasil - Divulgação
O comediante ganhador sempre deve indicar uma ONG para receber o prêmio em dinheiro 

Os artistas do riso mostram habilidade ao usar frases, acessórios e até revelações pessoais como armas capazes de provocar o tombo do adversário. Ed Gama, por exemplo, surge com um corte de cabelo idêntico ao de Ronaldo Fenômeno na Copa do Mundo de 2002, arrancando reações imediatas. Em meio a isso, os participantes, que já vinham fugindo uns dos outros, precisam mais uma vez correr, encarar a parede, o chão ou até as costas de alguém e, contra todas as probabilidades, tentar manter o rosto completamente sério.

Algo ainda mais intrigante para os participantes desta vez é dividir a cena com Tom Cavalcante. Dono de personagens clássicos como "João Canabrava" e "Pit Bicha", o comediante ainda surge imitando Tiririca de um jeito capaz de derrubar qualquer um no jogo. Não à toa, como define Nabote“Grande Tom, é como jogar com Pelé.”

                                             Crédito de Imagens: Amazon Prime Video Brasil - Divulgação
                    
Os seis episódios da temporada já estão disponíveis para divertir toda a família 


Flávia Reis é a primeira a bater a panela e se destaca nas trapalhadas, colocando em risco a concentração de mais de um participante. Enquanto isso, Ed dispara piadas, Luciana aposta no choque ao exibir partes íntimas e Porchat resolve movimentar o jogo ao incentivar todos a usarem dentaduras e criarem esquetes bastante divertidas. Nabote e Ed, por serem amigos de longa data, resgatam cantorias de outros trabalhos, deixando o clima ainda mais tenso, afinal, basta um deslize para alguém rir. E pode ser que até um deles ganhe um cartão amarelo neste momento.

Igor sobe ao palco acompanhado de um convidado, e as caracterizações circenses o colocam como o palhaço Amendoim, ao lado de um colega que, curiosamente, tem o mesmo nome de Nabote, detalhe que, por si só, já provoca subidas de sobrancelhas. A isso se somam piadas bobas e propositalmente confusas, formando um número caótico e difícil de resistir. O clima entrega mais possíveis risadinhas e, não demora, Porchat dispara o alarme: já são quatro participantes com um pé na porta de saída com apenas dois episódios.

Ed Gama reage rápido ao bater a panela e encarna um "Seu Longuinho" modernoso, que faz aula de jump para ajudar quem perdeu a carteira. Luciana Paes, por sua vez, aposta em um jogo de adivinhação criativo, inteligente e cheio de imaginação. Quando Gregório Duvivier decide se apresentar, surge com uma abordagem mais pop, remetendo ao cozinheiro do filme da Disney "Ratatouille" (Brad Bird e Jan Pinkava, 2007). E o público já sabe: surpresas sempre podem acontecer, como na temporada anterior, quando ele apareceu nu em pleno programa.

Fica então a pergunta: com tantas feras em cena, quem será que leva a melhor no final?



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