A Música da Minha Vida, de Gurinder Chadha


Na Inglaterra de 1987, o jovem de origem paquistanesa Javed (Viveik Kalra) descobre as músicas do cantor norte-americano Bruce Springsteen e encontra a sua própria voz. Junto ao amigo Roops (Aaron Phagura), cria forças para lutar contra um destino programado desde o seu nascimento por sua cultura. Ademais, o contexto sócio-político em Bury Park, na região de Lutton, é igual a todo o resto do país e passa por uma crise econômica ferrenha que anda não só deixando imigrantes, mas também ingleses desempregados.

A trama é baseada em fatos reais e também advêm da obra do Sarfraz Manzoor "Greetings from Bury Park — Race, Religion and Rock and Roll", fã declarado de Springsteen. Inclusive, o longa tem total aprovação de músico e foi selecionado para o Festival de Sundance, no início do ano, onde recebeu uma recepção calorosa.

A Warner Bros Pictures lança o filme hoje em telas nacionais e vale muito a pena conferir.

Trailer

Ficha Técnica

Título original e ano: Blinded By The Light, 2019. Direção: Gurinder Chadha. Roteiro: Paul Mayeda Berges, Gurinder Chadha e Sarfraz Manzoor - Inspirado pelas canções de Bruce Springsteen e baseado no livro de Manzoor 'Greentings From Bury Park: A Memoir'. Elenco: Viveik Kalra, Rob Bryddon, Nell Williams, Nikita Shazia, Frankie Fox, Tara Divina, Dean-Charles Chapman, Aaron Phagura, Meera Ganatra, Kulvinder Ghir, Hayley Atwell, Sally Phillips. Gênero: Música, Comédia,Drama. Nacionalidade: Estados Unidos e Reino Unido. Trilha Sonora Original: A.R. Rhaman. Fotografia: Ben Smithard. Edição: Justin Krish. Design de Produção: Nick Ellis. Direção de Arte: Grant Bailey. Figurino: Annie Hardinge. Distribuição: Warner Bros Pictures BR. Duração: 01h58min.
Viver em uma região hostil meio a skinheads liderando marchas pela supremacia nacional e a rejeição de imigrantes por si só, não é fácil, mas Javed também está chegando a fase adulta e precisa decidir se seguirá o futuro que o seu pai Malik (Kulvinder Ghir) quer para ele ou se deixará as palavras darem rumo à sua vida. O jovem sonha ser escritor e desde criança escreve poemas em seu pequeno diário. Naqueles primeiros momentos, encontrou compreensão e afeto no vizinho Matt (Dean Charles Chapman - que você deve ter visto na série Game of Thrones) e o dois viviam muito grudados, apesar das inúmeras diferenças. 

Único filho homem, em um família onde não só ele como as irmãs terão que se casar a partir da escolha do patriarca, Javed se vê frustrado frente ao que lhe espera. Na escola, encontra na professora de literatura (Hayley Atwell) incentivo para persistir lutando por seus sonhos e através do novo amigo Roops a inspiração que lhe faltava: as músicas de Bruce Springsteen. 


E quando estas chegam aos seus ouvidos: tudo se transforma. Ele se sente acolhido, incluso, forte e não mais um qualquer que os ingleses podem botar para correr. Ao se esforçar na escrita, chama atenção não só da senhorita Clay, professora de literatura, como também da jovem ativista Eliza (Nell Williams) e percebe que terá que fazer o dobro de trabalho para que alguém além delas o note como escritor. 


O que chama atenção na construção da narrativa, em especial, é como as amarrações são feitas. A apresentação da família, das origens e das obrigações que o jovem terá de seguir. Tudo isso dosado a emoção que ele sente quando não pode deixar que sua vida seja consumida por um conservadorismo exacerbado e até mesmo uma perseguição horrenda dos skinheads neonazistas da vizinhança e também de colegas de escola. Seu encontro amoroso em tela com a versão inglesa de Cindy Lauper é outra boa entrega do enredo já que o jovem precisa encarar a família inglesa tradicional da moça e se desprender da ideia de que nunca conseguiria uma namorada como o vizinho garanhão Matt. O roteiro também não esquece de trabalhar as diferenças daquele com este último e a possibilidade da quebra dessa amizade. 

A trama também se pauta no contexto histórico da época, mostrando a dura realidade vivida por todos no Reino Unido enquanto o governo conservador da Primeira-Ministra Margaret Thatcher defendia a economia a partir do pensamento do liberalismo clássico e desempregava milhões. Alinha isso ao final da administração Reagan, nos Estados Unidos, que também não foi lá essas maravilhas todas, e traz para dentro do filme um peso politico enorme no plano de fundo.

Para os não adeptos ao rock empolgante de Bruce Springsteen, basta saber que ao final dos anos 80 ele já era considerado 'coisa de velho' para os cabeças fechadas, pois iniciou sua carreira em 1969. Contudo, o músico de espirito livre e fala intrigante, sempre deixou clara suas posições frente ao que a classe trabalhadora tem de passar no seu dia a dia (até assistimos a uma entrevista curta durante o filme onde isto fica explicito). Os dilemas pessoais de Bruce são então transmitidos em suas canções e, como acontece com inúmeros cantores ao redor do mundo, a mensagem chega forte no peito dos angustiados que se identificam. Ainda assim, não é algo depressivo ou exagerado, mas sim um mega empurrão para atiçar a força interior de cada um e é por tal conexão que os conflitos vividos pelo protagonista conseguem ter resoluções mais consistentes.


O filme não anda exatamente como um musical, mas insere as músicas nas cenas e com isso dá um sentido completo para cada um desses takes. Mas há sim aquele momento alegre e engraçado onde veremos os personagens dançarem e cantarem como em outros típicos musicais, todavia apenas dublando o cantor homenageado. O tom cômico aqui é ótimo, aliás, e vem em muitos momentos pela distinta família de Javed, seu pai, sua mãe e até sua irmã Shazia (Nikita Mehta). Este só sai de cena para dar espaço aos dramas da família frente a crise e o desemprego de Malik. 

Assistimos as transformações do personagem central ao passo que ele vai se aprofundando na obra de Springsteen. O figurino de todos em cena (cabelos cheios de laquê, cortes malucos e calças largas), não se altera, apenas o de Javed. Este que aliás fica cada vez mais fã de jeans, blusa branca e camiseta flanela. A direção de arte também é ótima em criar um 'final dos anos 80' com muita precisão.
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O destaque no filme fica para todos do elenco familiar do protagonista, e na certa os atores Kulvinder Ghir e Viveik Kalra são os que têm os melhores bate-bolas. A mãe do garoto, vivida por Meera Ganatra, também agrada bastante. Rob Brydon, ator que vive o pai de Matt, é outro que faz excelente perfomance.

A diretora,  Gurinder Chadha, foi a realizadora do também divertido Driblando O Destino, um dos longas de destaque do inicio de carreira da atriz Keira Knightley que exalta a força das meninas que gostam de futebol na Inglaterra, independente se são de famílias imigrantes ou inglesas. Aqui ela explora ao máximo todas as camadas da história e no faz repensar a complexidade que é crescer meio a tantas imposições e limitações.


Vá assistir de alma e peito aberto e pode ser que o filme lhe toque bastante. *A cópia assistida não trazia legendagem as canções e há um claro equivoco da distribuidora em não o fazer, pois a compreensão por completa da trama que trabalha com música depende muito dessas traduções. 

#Imperdível !

Avaliação: Quatro canções em direção a maturidade (4/5).

HOJE NOS CINEMAS

See Ya!

B-

Escrito por Bárbara Kruczyński

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