Eu, Capitão, de Matteo Garrone | Assista nos Cinemas


O veterano Matteo Garrone (Gomorra, 2008) emplacou com ''Eu, Capitão'' a sua primeira obra a ser indicada a um Oscar. Centrado na jornada de dois adolescentes senegaleses de dezesseis anos que querem chegar à Itália ilegalmente, o filme conta uma história do jeito que a Academia gosta: com crítica social, aventuras edificantes e lições de amizade, perseverança e bondade.

Seydou e Moussa são primos e vivem próximos. Embora vivam em um contexto claramente pobre, os dois têm teto, comida, estudo, trabalho e famílias que zelam por eles. Esta jornada  não entra na lista de emigração por miséria, guerra ou outra calamidade. O que motiva os garotos a buscar a Europa é o sonho de se verem famosos com a música que fazem em um local com maiores oportunidades.

O colonialismo não se dá só na exploração das terras e da mão de obra, mas também no controle dos sonhos, através da propaganda massiva e do controle de narrativa. Ver dois jovens saudáveis e criativos só conseguirem pensar em um futuro próspero fora de seu país e de seu continente de origem é duro e triste. Essa obsessão pelo velho continente está muito bem ilustrada na forma como os rapazes vestem camisas de times de futebol europeus o tempo inteiro.

Trailer

Ficha Técnica
Título Original e Ano: Io Capitano, 2023. Direção: Matteo Garrone. Roteiro: Matteo Garrone, Massimo Ceccherini, Massimo Gaudioso, Andrea Tagliaferri. Elenco: Seydou Sarr, Moustapha Fall, Issaka Sawadogo, Hichem Yacoubi, Doodou Sagna. Gênero: drama, suspense, guerra. Nacionalidade: Itália, Bélgica, França. Trilha Sonora Original: Andrea Farri. Direção de Fotografia: Paolo Carnera. Desenho de Produção: Dimitri Capuani. Montagem: Marco Spoletini. Produção: Matteo Garrone, Paolo Del Brocco. Empresas Produtoras: Archimede, Rai Cinema, Tarantula e Pathé. Distribuição: Pandora Filmes. Duração: 121 minutos
Sem perspectiva e tendo acumulado o pagamento de seis meses de trabalho, a dupla parte escondida de suas mães rumo à Líbia, primeiramente. Com passaportes falsos e agentes da polícia da fronteira subornados, os meninos pagam para um atravessador que promete levá-los de carro até seu destino. No entanto, são largados no meio do Deserto do Saara e, junto com os vários outros passageiros, têm que terminar o trajeto a pé. É quando esbarram com uma máfia que impede a passagem daqueles que não entregarem tudo o que têm. Como Moussa tenta esconder o dinheiro dos dois, é levado preso. Seydou consegue ir um pouco mais adiante, onde é capturado por outra máfia que tortura aqueles que não indicam parentes que podem ser extorquidos em troca da integridade de seus entes queridos.

A cada empecilho desses, muitos colegas de jornada ficam para trás. Mortos, feridos, presos ou abandonados sem nada. Parece haver apenas dois grupos de pessoas: os que acreditam no sonho de uma vida melhor na Europa e aqueles que se aproveitam desse desejo desesperado. Em certos momentos, o sofrimento, o esforço e a luta dos personagens chegam a ser espetacularizados. Embora o filme teça comentários sobre a realidade europeia ser distante do sonho e tenha uma tese crítica sobre a imigração, incomoda o fato dos vilões serem apenas os aspectos do lado africano do oceano, não sendo mostrado em nenhum momento a face europeia da maldade.

                                                                   Créditos: Archimede, Rai Cinema, Tarantula, Pathé / Pandora Filmes
''Io Capitano'', título original da produção, já conta com o total de 22 indicações em festivais e premiações ao redor do globo. No Festival de Veneza, em 2023, recebeu cerca de 12 prêmios. Entre eles, o ''Silver Lion'' de melhor direção para Matteo Garrone.

A força da obra está em seus dois protagonistas. O carisma dos atores está estampado em cada cena. Sua ingenuidade nos cativa e nos comove. Porém, o interessante é ver essa característica apenas nos personagens. Quando a ingenuidade contamina também o roteiro, a trama se torna pouco crível. Certas coisas, como o reencontro dos dois, não são devidamente explicadas e soam boas demais para serem verdade. 

Isso se imprime também na conclusão do longa. Por mais que o final seja dúbio e que saibamos que ainda há muitos obstáculos pela frente na vida de Seydou, não muda o fato de que há um clima de esperança e vitória com a chegada na costa Italiana. Como se a Europa realmente fosse uma conquista a ser alcançada. Mais uma vez a ingenuidade do personagem e do filme se misturam. 

Escrito por Luana Rosa

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