Distribuição: Paris Filmes

Nós, de Jordan Peele



A família Wilson está de férias em sua casa de campo quando se depara com uma ameaça que vem sob a forma de uma família exatamente como a deles. Para Add (Lupita Nyong’o) isso não é novidade. O medo de alguém que se parece exatamente como ela é algo que a acompanha desde a infância. A novidade aqui é que é ela, a mãe, quem vai proteger toda a família. Indo na contramão de todos os filmes de ação e terror, essa função não pertence ao pai. Add é quem pensa nas soluções e quem mais se põe em risco fisicamente para defender aqueles que ama.

Antes mesmo que os vilões sejam apresentados, Nós já vai acostumando o olhar do espectador aos ''duplos'' ao introduzir reflexos em espelhos e janelas, um casal de gêmeas, a sombra da família projetada com clareza na areia da praia. O paralelo está presente todo o tempo.

O filme é claro em sua mensagem de que somos nosso pior inimigo ao mesmo tempo em que tentamos projetar esse antagonismo na figura do outro. Contudo, os doppelgangers, ou seja, as cópias da família Wilson também apresentam características que conflitam com as de seus correspondentes. O pai (Winston Duke) é um homem brincalhão e o alívio cômico do filme. No entanto, seu duplo apresenta uma carranca triste e é o mais inexpressivo dos vilões. O duplo de Jason (Evan Alex) é piromaníaco, enquanto o garoto não consegue nem fazer faísca com seu brinquedo. E a pré-adolescente mal-humorada Zora (Sahahadi Wright Joseph) tem sua versão maligna como uma “monstrinha” que não tira o sorriso do rosto. Por último, a insegura e traumatizada Add vê sua face estampar segurança e confiança através de Red.
 Add e sua dupla (Lupita Nyong'o)

Todos os doppelgangers usam uma máscaras. Sejam elas reais ou uma expressão facial medonha impressa no rosto. Aliás, vale destacar que as atuações são o carro chefe do filme. Todo o elenco principal interpreta magistralmente as duas versões de si. Mas quem rouba os holofotes, é claro, é Lupita Nyong’o, capaz de nos fazer empatizar com o desespero de Add e temer a loucura de Red ao mesmo tempo.

Jordan Peele, também produtor e roteirista, se prova novamente um bom diretor. A tensão do longa é aumentada exponencialmente toda vez que vemos uma perseguição através de um plano fechado focalizando o rosto de um personagem, nos deixando alheios ao que acontece nos arredores. Além disso, ele é ótimo com simbologias. Seus coelhos, vagamente referenciados em seu primeiro filme, voltam em grande número trazendo a ideia da presa tola.

Mais uma vez Peele entrega ao público uma introdução arrepiante. E como ele sabe escolher trilha sonora! Outro artifício que ele usa pela segunda vez é o de colocar canções diegéticas como desculpa para se valer do recurso que a audiência já provou amar com Tarantino e tantos outros: o contraste da violência com ambientes e músicas alegres.



Todavia, o diretor não é imune a erros. A excelência de Nós está mais na construção interessante do seu horror e sua cinematografia do que na sua crítica social. A explicação apresentada no terceiro ato em nome dessa crítica incomoda. O terror seria muito mais eficiente se não soubéssemos a origem das criaturas do que quando tentam nos convencer de que elas derivam de um complô conspiracional do governo mal explicado. A crítica poderia muito bem se sustentar alicerçada só pelos simbolismos. A elucidação não convence e deixa muitas lacunas. Mas não é o suficiente para derrubar o filme.

No que tange a representatividade, Nós faz um trabalho ainda mais preciso que o predecessor do diretor, Corra!. (ler comentários aqui). A história de 2017 em que as consequências sociais e psicológicas do racismo estrutural são retratadas em um suspense com execuções, sequestro e hipnose é genial e importante. Entretanto, o protagonismo negro no entretenimento é necessário para além dos papéis de vítimas da escravidão e do preconceito. Ao olhar desacostumado dessa prática, parece estranho que um filme possa ter cinco protagonistas negros sem que haja uma temática racial. Porém é assim que se alcança o status que lhe deveria ser nato: o de normalidade.


Trailer

Ficha Técnica



Título Original: Us, 2019. Direção e Roteiro: Jordan Peele. Jordan Peele. Elenco: Lupita Nyong’o, Wiston Duke, Elizabeth Moss, Tim Heidecker, Evan Alex, Shahadi Wright Joseph. Gênero: Suspense, terror. Nacionalidade: Estados Unidos. Fotografia: Mike Goulakis. Edição: Nicholas Monsour. Design de Produção: Ruth de Jong Distribuição: Universal filmes. Classificação Indicativa: 16 anos Duração: 1h56m


HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Luana Rosa

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