Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, de Destin Daniel Cretton

 

Se com “Vingadores Guerra Infinita” e “Ultimato” a Marvel teve a ousadia de sair de sua zona de conforto e nos entregar algo com um nível de dramaticidade nunca antes visto em mais de uma década da saga e, com “Viúva Negra” nos trouxe uma trama mais adulta e complexa, ao nível de uma boa obra de espionagem, é com “Shag-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” que temos a total certeza de que o estúdio começou a se reinventar e a apostar em coisas inovadoras, e isso se transpõe a cada segundo em seu mais recente lançamento.

Com estreia em território nacional marcada para esta quinta-feira, 02 de setembro, o personagem título, é um jovem chinês (Simu Liu) que teve parte de sua vida em completa reclusão por conta do seu rigoroso pai, e agora leva uma vida normal em São Francisco, ao lado de Katy (Awkwafina), sua melhor amiga. Após um brutal ataque, ele se vê obrigado a revelar seu passado a Katy, além de ter a certeza de que seu progenitor nunca foi o humanitário que dizia ser. Logo, Shang-Chi se vê obrigado a enfrentar este passado de frente e se rebelar contra a organização dos dez anéis.


O roteiro entrega uma obra coesa ao explorar a colisão do ocidente com o oriente, principalmente quando o personagem precisa regressar as suas origens regada de disciplina, e apresentar uma cultura nova a sua amiga, assim como também trabalha com muita sutileza conflitos de gerações, a negação do início da vida adulta, ou ainda dramas familiares responsáveis por traçar novos destinos não apenas no personagem central, mas assim como em todos que orbitam ao seu redor.

Por mais que toda a trama tenha foco em um papel masculino, são as mulheres quem roubam a cena e entregam personagens empoderadas, mais do que simples rostinhos carismáticos, e cada qual a sua maneira explora os mais diferentes tipos de jornadas. Com Katy temos a jovem descompromissada que se vê diante de um futuro destino ao qual jamais sonhou viver. Xialing é a durona irmã de Shang, uma mulher forte e destemida que precisou tomar as rédeas de sua própria vida ao se ver abandonada pela própria família. Já na personagem Jiang Nan, tia de Shang, temos a doçura daquelas que sempre tentaram manter a família por perto, ao mesmo tempo em que temos uma rigidez grande diante dos desafios. E todas elas, quando juntas, trazem uma feminilidade que qualquer outro filme deixaria cair no clichê e passariam despercebidas.


Temos em tela uma trama cativante do início ao fim, que transpõe em cada frame um encontro perfeito do Universo Marvel com cultuadas obras como “O Tigre e o Dragão”, “O Clã das Adagas Voadoras” e até mesmo o recente live-action da Disney “Mulan”, que se apropria de uma narrativa mais lúdica, sem deixar a realidade de lado, para nos apresentar culturas distintas da nossa. Tal encontro gera até um certo espanto, pois em muitos momentos o espectador pode chegar a esquecer que está assistindo a um filme de super-heróis, e ao termino é simbólica a sensação de redenção da própria Disney em não ter esperado para nos presentear com “Mulan” na tela grande, além de presenciar um grandioso retorno dos filmes de artes marciais.

Com cenas de ação que enchem os olhos, a direção de Destin Daniel Cretton apresenta lutas que fogem da estética comum que qualquer filme de pancadaria apresentaria, para dar lugar a belíssimas sequencias que mais parecem um balé minuciosamente coreografado e executado com exímia delicadeza. Quando isso se funde com uma estonteante fotografia e um design de produção caprichado que introduz uma paleta de cores vivas e a todo tempo contrastante com paisagens e cenários grandiosos, temos algo jamais visto em mais de 10 anos de MCU, uma verdadeira poesia visual que explode aos nossos olhos, trazendo um encantamento que chega a emocionar, principalmente no ato final, que pode vir a emocionar o espectador.


O elenco dispensa qualquer comentário, assim como a própria trama traz diferentes gerações, neste quesito não seria diferente, já que temos nomes como Michelle Yeoh, Tony Leung Chiu-Wai e até Ben Kingsley ao lado de Simu Liu, Meng’er Zhang e Florian Munteanu, além de Awkwafina, que vem despontando e conquistando seu espaço a cada nova produção na qual aparece, e aqui, ela transita com maestria entre o drama e a comédia, fugindo de piadas banais, entregando alivio cômico com muita naturalidade e garantindo boas risadas.

Trailer

Ficha Técnica

Título original e ano: Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, 2021. Direção: Destin Daniel Cretton. Roteiro: Dave Callaham, Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham- baseado nos quadrinhos de Steve Englehart e Jim Stalim. Elenco: Simu Liu, Awkwafina, Michelle Yeoh, Fala Chen, Andy Le, Wah Yuen, Paul W. He, Tony Leung Chiu-Wai, Ben Kingsley, Meng’er Zhang e Florian Munteanu. Gênero: Ação, Aventura, Fantasia. Nacionalidade: EUA, Australia. Trilha Sonora Original: Joel P West. Fotografia: Bill Pope. Edição: Elísabet Ronaldsdóttir, Nat Sanders, Harry Yoon. Figurino: Kym Barret. Direção de Arte: Jan Edwards, Laurie Faen, Michael E. Goldman, Richard Hobbs e Jacinta Leong. Produção: Walt Disney Pictures, MARVEL Studios e Fox Studios Australia. Distribuição: Walt Disney Studios. Duração: 02h12min.

Ao termino de pouco mais de 114 minutos de projeção, que conta com uma edição primorosa, percebe-se a trama tão fluida que se houvesse mais tempo nem sentiríamos, isto porque a sensação é de que, assim como “Pantera Negra”, onde fomos apresentados aos costumes e a cultura africana transposta em figurinos, locações, diálogos e até mesmo trilha sonora, a superprodução cumpre o seu principal papel que é trazer a diversidade para dentro do mainstream e trabalha isso com muita cautela e sutileza nos proporcionando uma viagem por dentro da cultura chinesa, o que por si só já faz valer o ingresso. Mas como diriam os haters “Quem lacra, não lucra”, aliás, o “lacre” vem com tanta leveza e elegância que até essa turma ai é capaz de sair da sessão com um sorriso de orelha a orelha. Não esqueçamos ainda da ansiedade que vem se criando em torno da diversidade ainda mais pulsante que será exibida em “Eternos”, afinal, seremos apresentados a uma gama de etnias, incluindo um personagem indiano e uma latina, além de um triângulo amoroso complexo, e não espera-se nada inferior a “Shang-Chi” e “Pantera Negra”, principalmente se tratando de Chloe Zhao no comando do barco.

Vale mencionar que “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” possui duas cenas pós-créditos que fazem o coração disparar, pois diante de tempos tão difíceis, que nos afastou das salas de cinema, são elas que nos trazem um pouco de esperança por tempos melhores e, que de fato, a Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel está acontecendo, e com ele teremos uma grande mudança, uma que, aparentemente, trará o melhor das adaptações dos quadrinhos.

2 de setembro nos cinemas.

Escrito por Paulo Costa

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