Nos tempos finais da ditadura militar na Argentina o jovem fã de filmes musicais Luis Molina (Tonatiuh Elizarraraz) é preso junto com Valentin Arregui (Diego Luna), uma das pessoas que está fortemente envolvida com o grupo anti-repressão. Luis é convencido pela polícia a atuar como informante em troca de sua liberdade e passa a entreter Valentin com uma história de um filme chamado “O Beijo da Mulher Aranha”. A missão é ganhar intimidade dele para conseguir detalhes sobre os chefes da resistência.
O enredo latino fictício imaginado por Molina se passa em um vilarejo fantasioso inspirado pelos musicais da era de ouro em Hollywood. Ali, Aurora (Jennifer Lopez) é uma artista famosa e também é uma mulher incapaz de amar romanticamente. A personagem é uma homenagem ao arquétipo da "Femme Fatale" ao mesmo tempo que serve de espelho para o protagonista entender seus próprios sentimentos. Aos poucos vamos compreendendo que a adoração de Molina não é apenas uma coisa de um fã, mas uma projeção de seu próprio eu, do que ainda não foi alcançado, e a personagem do filme fictício se remete ao fascínio que ele tem pela estrela Ingrid Luna (também vivida por Jennifer Lopez) que também vive encontros inesperados quando revisita o vilarejo que nasceu. No lugar, conhece Armando (Diego Luna também encarna este personagem), quem se torna um interesse romântico, talvez o primeiro.
Crédito de Imagens: © 2025 Roadside Attractions. ALL RIGHTS RESERVED / Paris Filmes, Divulgação
Chita Rivera, atriz que viveu as personagens que aqui são de Jennifer Lopez, faleceu semanas antes do inicio das gravações deste filme. Ademais, a atriz brasileira Sônia Braga viveu estas mulheres fascinantes no longa de Hector Babenco, lançado em 1985
O roteiro de Bill Condon, que adapta o musical da Broadway inspirado no livro de "El beso de la mujer araña", de Manuel Puig, traça uma analogia interessante entre o entendimento de Molina como uma mulher transsexual e o despertar da paixão de Aurora/Ingrid, entrelaçando a relação de ambas as personagens ao protagonista masculino. Condon ainda conduz o filme e brinca com luz e cores para criar o contraste ideal entre as cenas da prisão e as cenas do musical - na prisão tudo é cinza, sujo e grotesco. No musical tudo é extremamente colorido e vívido, como um eterno sonho febril de verão. O escape da realidade como uma fuga da dor constrói a profundidade emocional que o longa precisa e ajuda o espectador a se conectar com o drama dos personagens e seus sentimentos mais íntimos. As cancões durante as cenas musicais são bem posicionadas e coreografadas e explicam aquilo que não pode ser dito diretamente, embora o espectador consiga sentir. Nesse caso, além de uma evidente homenagem e escolha artística, a música tem papel narrativo.
A medida em que o perigo avança e a relação dos protagonistas se torna mais íntima e perigosa. Luis explica para Valetin sobre a existência da mulher aranha (que Lopez também personifica), um ser que existe no vilarejo e que, de tempos em tempos, exige que uma mulher sacrifique seu amado para que a aldeia inteira seja salva. Metaforicamente falando essa personagem representa a barreira invisível que há entre eles, seja por questões de gênero ou pelos segredos que podem custar a vida de Valentin.
Trailer
Ficha Técnica
Título original e ano: Kiss of the Spider Woman, 2025. Direção: Bill Condon. Roteiro: Bill Condo - baseado no livro El beso de la mujer araña, de Manuel Puig, e também no Musical da Broadway Kiss of the Spider Woman, de Terrence McNally, John Kander e Fred Ebb. Elenco: Diego Luna, Tonatiuh Elizarraraz, Jennifer Lopez, Bruno Bichir, Josefina Scaglione, Aline Mayagoitia, Driton "Tony" Dovolani, Lucila Gandolfo, Federico Repetto, Lucas Barreiro. Nacionalidade: Estados Unidos da América. Trilha Sonora Original: Sam Davis. Canções: de John Kander e Fred Ebb. Direção de Fotografia: Tobias Schliessler. Direção de arte: Charley Beal. Figurino: Colleen Atwood e Christine L. Cantella. Edição: Brian A. Kates. Design de Produção: Scott Chambliss. Empresas Produtoras: Artists Equity, Mohari Media, Josephson Entertainment, Tom Kirdahy Productions, Nuyorican Productions, 1000 Eyes. Distribuição: Paris Filmes. Duração:
As películas com temática LGBT têm esse histórico de tragédias em seus atos finais, mesmo em produções oscarizados como "O Segredo de Brokeback Mountain" (Ang Lee, 2005) ou "Moolight" (Barry Jenkins, 2016). Recentemente tivemos o polêmico "Emilia Pérez" (Jacques Audiard, 2024) que além desse velho estereótipo trouxe a relativização de um problema social muito sério. Infelizmente, este filme, apesar de tratar de forma competente sobre opressão (seja a dos militares ou a opressão de gênero) derrapa em seus momentos finais.
Quando Molina percebe que o medo não é uma opção, ela cria a coragem necessária para fazer o sacrifício de ordem inversa ao da história fictícia que está contando. Ou seja, o ponto em que Aurora, escolhe confrontar a mulher aranha é também o ponto em que Molina decide arriscar o pouco que ela tem para retribuir a Valentin de alguma forma e dar um propósito a sua existência. A conclusão, no entanto, se perde em obviedades e toda a tensão anteriormente construída se desfaz para reforçar um triste estereótipo. Apesar disso, o filme brilha com o carisma de seus personagens e pelo cuidado ao tratar de temas tão importantes.
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