"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", longa-metragem com direção de Chloé Zhao (Nomadland, 2020) é baseado no livro homônimo escrito por Maggie O’Farrell, publicado em 2020. O filme propõe uma abordagem intimista e sensível sobre o processo criativo por trás de uma das obras mais célebres de William Shakespeare, o clássico “Hamlet”. O roteiro é assinado pela própria O’Farrell, em parceria com Zhao, e logo em seus momentos iniciais a narrativa apresenta uma explicação simbólica: os nomes “Hamnet” e “Hamlet” eram utilizados de forma intercambiável na época, funcionando como uma chave de leitura para a história que se seguirá. Assim, somos transportados para o interior da Inglaterra do século XVI, onde conhecemos Agnes, uma mulher profundamente conectada à natureza. A jovem carrega uma águia no braço e, por sua postura e saberes pouco convencionais, torna-se alvo de comentários e desconfianças dos moradores do vilarejo, que a enxergam como uma possível bruxa. É a partir dessa figura feminina forte e enigmática que a obra constrói sua atmosfera contemplativa e emocional.
Jessie Buckley (A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal), no papel de Agnes, é a alma do filme e faz jus ao favoritismo na categoria de "melhor atriz" no Oscar 2026 ao entregar uma das performances mais avassaladoras do ano com toda a complexidade que um personagem pode conter. Utilizando bastante os olhos para comunicar emoções e fazendo uso de uma linguagem corporal impecável ao compor a aura exotérica por trás de sua personagem, sem jamais renunciar a sua humanidade ao abordar o instinto materno e suas dúvidas em relação ao futuro.
Há um uso primoroso de locações externas e paisagens naturais, marca registrada da obra de Zhao. Ao mesmo tempo em que a câmera se abre para a vastidão da natureza, a fotografia de Lukasz Zal imprime um forte senso de intimismo tanto nas cenas externas quanto nas internas, criando um diálogo sensível com os temas do roteiro. Ao acompanhar uma família do interior, o drama consegue abordar questões profundamente universais, equilibrando escala e emoção com rara precisão.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Hamnet, 2025. Direção: Chloé Zhao. Roteiro: Maggie O'Farrel e Chloé Zhao - baseado no livro homônimo escrito por O'Farrell. Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Sam Woolf, Shaun Mason, Bodhi Rae Breathnach, Olivia Lynes. Gênero: Drama, adaptação, tragédia. Nacionalidade: EUA, Reino Unido. Trilha Sonora Original: Max Richter. Fotografia: Lukasz Zal. Figurino: Malgosia Turzanska. Designer de Produção: Fiona Crombie. Direção de Arte: Tim Blake. Edição: Affonso Gonçalves e Chloé Zhao. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 02h05min.
Ao escolher Paul Mescal para o papel de Will, a produção está reforçando um typecasting de “homem em sofrimento” para o qual o ator já se provou anteriormente bastante competente (Pessoas Normais, Lenny Abrahamson, 2020) e dessa forma ele entrega um personagem incompreensível na medida certa ao mesmo tempo em que constrói sua figura de pai. A dualidade entre ser um progenitor para sua família ou ser um artista para si mesmo é o conflito central da narrativa e fio condutor de todos os acontecimentos e ações dos personagens.
Quando Agnes e Will se esbarram na floresta pela primeira vez fica claro que ambos têm personalidades e visões de mundo completamente diferentes. Porém todas essas diferenças ao invés de afastar funcionam como um ímã e ajudam a construir o elo invisível entre eles. Essa é, inclusive, uma das temáticas do filme: a compreensão do que seria o amor e qual o alcance deste sentimento em nossas vidas.
William sente a necessidade constante de deixar a família no campo e se dedicar ao teatro. O conflito entre o papel de pai e artista assombra e o corrói aos poucos. Toda escolha é uma renúncia e toda renúncia gera consequências.
Quando Agnes têm uma filha gravemente acometida pela peste e precisa do suporte do companheiro, ele simplesmente não está lá e isso causa nela uma sensação desoladora de abandono: um trauma que ela carrega por ter perdido a mãe quando criança. Quando a tragédia mórbida se abate sobre a família, o trauma de Agnes e a dualidade de Will colidem com força total e velhas feridas se abrem. No centro dessas dores está Hamnet (Jacobi Jupe), único filho homem do casal. Nesse contexto as irmãs de Hamnet, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), e, principalmente, Judith (Olivia Lynes), ajudam a construir e reforçar o clima exotérico da narrativa criando o tom mórbido e trágico que envolve a família.
Crédito de Imagens: © 2025 FOCUS FEATURES LLC. ALL RIGHTS RESERVED.
Filmado em sequência e com locações no Reino Unido, o filme tem produção de Steven Spielberg, Sam Mendes, Chloé Zhao e Maggie O'Farrell
A película ganha novas camadas ao refletir sobre a complexa relação entre arte e artista. Não há dúvidas de que as melhores histórias são aquelas que narram o ser humano em conflito consigo mesmo. William extravasa suas dores as transformando em arte, revivendo diariamente seu trauma, quase que se autoflagelando ao mesmo tempo em que tenta dar significado às suas escolhas e à tragédia inerente de estar vivo que faz parte da existência de todos. A arte, nesse contexto, é uma tentativa de dar significado à perda. Uma tarefa que é certamente muita árdua.
Todas as civilizações e pessoas já tentaram explicar vez ou outra o que é o amor e o que significa o luto, mas não existe uma explicação precisa. Por que casais perfeitos não prosperam e casais improváveis passam uma vida juntos? Por que pessoas inocentes morrem enquanto pessoas más vivem por muitos anos? Não há uma explicação racional para essas questões, o amor simplesmente está onde está. A vida e a morte são eventos completamente aleatórios. E se apoiando nessa conclusão, o filme entrega uma cena final arrebatadora ao som de “In The Nature of Daylight”, de Max Richter. Acontece então o casamento perfeito entre roteiro, trilha e direção para criar um ato final emocionante que sintetiza todas as discussões e temas ao mesmo tempo que propõe fortes reflexões ao espectador.
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