A Sapatona Galáctica

 
A animação australiana “A Sapatona Galáctica” é uma divertida, e assumidamente irreverente, versão queer de Guerra nas Estrelas. Mas, ao contrário da pomposa saga criada por George Lucas, aqui não há discursos solenes sobre Bem versus o Mal nem a grandiloquência épica típica do gênero. O foco está na jornada íntima de uma jovem que atravessa o cosmos tentando reconquistar a ex-namorada e, ao mesmo tempo, aprender a se aceitar. Entre batalhas espaciais estilizadas e muito humor afiado, o filme aposta em piscadelas sexuais e ironias debochadas para transformar a ficção científica em uma comédia romântica intergaláctica cheia de personalidade.

Das diretoras e roteiristas Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, a animação vem conquistando público e crítica por onde passa. No Brasil, recebeu o "Prêmio Félix de Melhor Filme Internacional" no Festival do Rio 2025 e também venceu o mesmo prêmio, desta vez pelo voto do público, no MixBrasil 2025. Sua trajetória internacional já havia começado em alta: na estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, no ano anterior, onde o filme conquistou o "Teddy Award" de "Melhor Longa-Metragem", além de acumular diversos outros reconhecimentos em festivais ao redor do mundo.

Com uma roupagem pop, cômica e despretensiosa, seu sucesso comercial, porém, pode talvez ser podado por conta da temática queer. Infelizmente, em muitos países do mundo, a simples menção a personagens LGBTQIAPN+ impede a exibição de películas, podendo gerar prisões ou consequências piores para quem tenta burlar as proibições. No Brasil, a audiência, mais adulta ou mais jovem, ainda tem a oportunidade de assistir filmes com essa temática nos cinemas, seguindo a classificação. Cabe uma luta constante dos amantes do cinema e das liberdades individuais para que este direito nunca seja coibido.


Trailer



Ficha Técnica

Título Original e Ano: Lesbian Space Princess, 2025. Direção e Roteiro: Emma Hough Hobbs e Leela Varghese. Elenco de vozes originais: Shabana Azeez, Bernie Van Tiel, Jordan Raskopoulos, Madeleine Sami, Sam Matthews, Annie Schofield, Stephanie Daughtry, Broden Kelly, Mark Samual Bonanno, Arlen Velez, Zachary Ruane. Gênero: Animação, Comédia. Nacionalidade: Austrália. Trilha Sonora Original: Michael Darren. Edição: Ben Fernandez. Designer de Produção: Emma Hough. Efeitos Visuais: Jeremy Kelly-Bakker. Animadora: Emma Hough. Empresas Produtoras: We Made a Thing Studios. Distribuidora: Synapse Distribution. Duração: 01h27min.


A princesa espacial Saira (voz original de Shabana Azeez), uma jovem indiana de 23 anos, é abandonada pela namorada tóxica Kiki, uma caçadora de recompensas, que coleciona namoradas por onde passa. Na cama com várias outras mulheres, Kiki (Bernie Van Tiel) é sequestrada pelos vilões héteros da galáxia. Eles pretendem, com esse rapto, que Saira entregue a eles a arma lendária da realeza a troco da liberdade de sua amada, que permitirá que seja acionado um poderoso imã de garotas. Incapazes de namorar por conta própria, os incéis empedernidos precisam urgentemente deste artefato.

Saira, ainda apaixonada por Kiki, atravessa meio universo para resgatar a amada. Na companhia de uma nave espacial inteligente e de uma roqueira gótica bissexual, que resgatou de um planeta abandonado, a princesa passa por muitas aventuras, aprendendo a se amar e se respeitar. Até que chega ao planeta covil dos héteros, e sua ex-namorada tóxica quase põe tudo a perder.


Crédito de Imagens: We Made a Thing Studios / Synapse Distribution, Divulgação
Emma Hough Hobbs é uma das diretoras do filme e também é a animadora do filme e fica ainda a cargo da edição.

Quase, porque a animação é uma comédia com final feliz para a insegura Saira, que se descobre uma mulher confiante e plena. Neste ponto, o filme é um maravilhoso, gostoso e colorido bolo de camadas. Tem o substrato de uma aventura de ficção científica, com naves espaciais inteligentes, muitas raças alienígenas e vários cenários de planetas exóticos, uma autêntica "Guerra nas Estrelas", só que queer. Há a camada de piadas sexuais, muita sacanagem, com lésbicas sensuais e que realmente se amam e fazem sexo, semelhante aos quadrinhos underground das décadas de 70 e 80, estilo encontrado na revista Heavy Metal ou Chiclete com Banana. E tem, como cereja principal do coquetel, a sensível luta de uma pessoa queer para se amar, se aceitar e desabrochar, independente de relações complicadas ou de heterossexuais preconceituosos.

Aliado a um traço nostálgico e fotografia muito colorida, além de várias músicas pop, a animação é um refrigério a tantos filmes gays sofridos e com finais infelizes. Com desfecho otimista e alegre, A Sapatona Galáctica é uma excelente escolha para uma exibição de cinema descompromissada, alegre e cheia de orgulho queer!

Nota: 7/10

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

Escrito por Marcelino Nobrega

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