O Olhar Misterioso do Flamingo, de Diego Céspedes


Flamingo é uma travesti (Matias Catalán) que vive em uma decadente região mineradora no deserto do Atacama, em 1982. Adoentada pela AIDS, ela zela com todas as forças pela filha adotiva, Lídia (Tamara Cortés), de 12 anos, abandonada ainda bebê na porta de seu trabalho: o bordel de Mama Jibóia (Paula Dinamarca). Enquanto enfrenta escaramuças com a vizinhança e vive uma relação de amor e ódio com o amante Geovane (Pedro Muñoz), também contaminado, Flamingo resiste ao estigma de uma época em que o vírus era um mistério, e os mineiros acreditavam que o contágio ocorria pelo simples olhar das travestis. Dessa premissa, brotam complexidades que transformam o que parece um drama comum em uma poderosa e singular tragédia latino-americana.

"O Olhar Misterioso do Flamingo", dirigido pelo diretor e roteirista chileno Diego Céspedes, é um amálgama de lirismo e violência, de realismo e mistérios, um faroeste no estilo realismo mágico, que relembra os escritores Gabriel Garcia Marquez e Camila Sosa Villada. Ganhador do prêmio "Un Certain Regard",  no festival de Cannes 2025, e do prêmio de "Melhor Filme Latino-Americano", do Festival de San Sebastian 2025, é um vislumbre misterioso, mas que não transmite doenças, e sim um encantamento fabular sem tamanho.

Crédito de Imagens: Quijote Films, Les Valseurs, Weydemann Bros. Irusoin Wrong Men North, Arte France Cinéma, Arte France / Imovision - Divulgação
O longa passou por mais de dez festivais e tem cerca de sete prêmios e 16 indicações.

Lídia é a protagonista da estória. Seu amadurecimento, após um acontecimento trágico envolvendo a mãe, é a luta de uma menina para entender o mundo, a realidade, aprendendo a suportar as tristezas e alegrias da vida. Pois o longa-metragem não é só tristeza, mesmo com as travestis do bordel assoladas por aquela doença terrível, na eṕoca sem cura. Há espaço para o amor, o carinho, o lirismo. As sequências envolvendo o primeiro amor da criança, da Mama Jibóia se casando no ocaso da vida, das putas brincando com os clientes no bordel, são mágicas e impregnadas daquele assombro que é a realidade contraditória dos países latino-americanos.

A realidade, porém, não se exime de aparecer. As sequências de violência envolvendo aqueles corpos dissonantes são terríveis. Para alguns, o destino certo é a morte. Mas elas não desistem de viver. As sequências no bordel são crivadas de gargalhadas, festas, companheirismo. Mas a homofobia campeia aquele entorno de cordialidade, e, para alguns, o olhar misterioso dos que ousam diluir a fronteira dos gêneros tem que ser silenciado com punhais ou pistolas.

Trailer



Ficha Técnica
Título original e ano: La Misteriosa Mirada Del Flamenco, 2025. Direção e Roteiro: Diego Céspedes. Elenco: Tamara Cortés, Matías Catalán, Paula Dinamarca, Claudia Cabezas, Luis Dubó.  Gênero: Drama. Nacionalidade: Chile, França, Alemanha. Direção de fotografia: Angello Faccini. Direção de Arte: Nicolás Roses. Som: Ingrid Simon. Música: Pierre Cattoni. MontagemMartial Salomon.   Produção: Ander Barinaga-Rementeria, Xabier Berzosa, Fanny Florido. Empresas Produtoras: Quijote Films, Les Valseurs, Weydemann Bros. Irusoin Wrong Men North, Arte France Cinéma, Arte France. Distribuição: Imovision. Duração: 108 min. Classificação: 16 anos.
 
Para Lídia, resta sair do deserto, é sua única chance de sobrevivẽncia. A morte está levando todos que conhece. Mas no deserto da memória, ainda há momentos místicos de reencontro. Na mágica da realidade, o amor ainda vence. Até para reencontrar Flamingo, num desvão de estrada, em um abraço final.

O diretor Céspedes realiza aqui seu primeiro longa-metragem. Antes conduziu os curtas "El verano del león eléctrico", vencedor da Cinéfondation em Cannes, no ano de 2018, e "Las criaturas que se derriten bajo el sol" (2022). Seu filme era a indiciação oficial do Chile ao Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" de 2026, mas infelizmente não passou pela seleção final, o que não foi uma injustiça, pois é prova da excelente qualidade dos filmes não falados em língua inglesa deste ano. A obra pode projetar ansiedade  pelos próximos filmes deste diretor, que desconstrói os limites entre os gêneros fílmicos, colocando como protagonistas corpos pouco vistos no cinema.

Nota: 9/10

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Marcelino Nobrega

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