“Tu já viste o juiz anular um gol porque o jogador está reclamando? Tem que ir lá e meter outro gol!”
Fenômeno absoluto do “‘rap’ ostentação”, o artista brasiliense Gustavo da Hungria Neves ressente-se, nalgumas entrevistas, por ter sido alvo de críticas, no início da carreira, por ter a pele mais clara e por abordar, em suas letras, a ode ao consumismo. Num de seus primeiros sucessos, a faixa “Bens Materiais”, ouvimos, por exemplo: “Vaidade, consumismo no shopping, na avenida/ As mina vira fã, fica louca, pira/ Mas nada é simples, sempre batalhando/ Se a vida fosse fácil eu não nascia chorando/ Trabalhar pra caramba no batente, no sacode/A vida é muito dura só pra quem é muito mole”. Dá para entender, a partir disso, qual a orientação política do artista, não é?
Pergunta lançada, vamos para a análise da biografia aguardadamente “chapa-branca” lançada sobre ele: personificado (muito bem) por Gabriel Santana, Gustavo, antes de assumir o seu sobrenome como nome artístico, é mostrado na escola, sendo alvo do desdém de seus colegas de classe. Antes de ser expulso da escola de vez, ele esforça-se para compor rimas, na esperança de chamar a atenção de algum empresário. Para isso, contará com a ajuda de seu amigo Gabiru (Ramon Brant), envolvido em diversas contravenções no ambiente em que vive, alijado de muitos benefícios sociais…
Habitantes da região administrativa da Ceilândia, tanto Gustavo quanto Gabiru lidam com as dificuldades típicas das classes menos favorecidas: o pai de Gustavo está constantemente bêbado e sua mãe idosa, Rachel (Taty Godoi), trabalha como faxineira, mesmo sofrendo de hérnia de disco; Gabiru, por sua vez, comete alguns furtos para pagar uma dívida com um criminoso local, além de ser contratado para executar um desafeto de seu credor. Não consegue, entretanto…
É quando surge uma das principais debilidades de “Hungria – A Escolha de um Sonho” (2026, de Izaque Cavalcante & Cristiano Vieira), a indefinição, por parte dos realizadores, quanto à tônica biográfica do roteiro: quando apresentam os percalços do cantor, em suas tentativas inicialmente frustradas de encetar concertos improvisados, até que o filme é simpático. Mas os dois ‘flashbacks’ conduzidos por Gabiru são constrangedores: seja aquele em que ele descreve, com zombaria, como reagiu a uma revista policial, seja na situação que conduz ao seu próprio assassinato, deveras previsível e abordado de maneira quase circunstancial.
Crédito de Imagens:Cayac Produções e Stud10 Filmes, Divulgação
O longa contou com pré estréia no Brasilia International Film Festival, em 01 de maio, dentro da Mostra Competitiva do Festival e levou prêmio de melhor filme pelo Juri Popular
Por falar em algo constrangedor, pode-se dizer o mesmo, infelizmente, da maioria das situações familiares de cariz melodramático, como quando Rachel passa mal e é internada num hospital público, quando ela descobre que o filho utilizou o dinheiro que ela pensava estar investido em aulas de inglês nas sessões de gravação de um CD, ou quando o pai de Gustavo apressa-se em oferecer carona para comparecer numa boate, no início de sua fama. O pior: nos créditos finais, a mãe e a irmã de Hungria declaram que tudo o que aconteceu “foi por causa de Deus”. Urgh!
Demonstrando que os roteiristas (e o próprio artista) são conscientes da tendência reacionária do personagem real, há uma cena em que, quando alguém reclama que as canções de Hungria são desprovidas de crítica social, ele e seus amigos erguem os dedos médios e repetem, à exaustão “foda-se, foda-se, foda-se”, no que parece ser um mantra comum do artista, pois aparece em mais de um momento. A associação pentecostal não é gratuita, afinal. Voltamos à pergunta do primeiro parágrafo…
Em termos estritamente cinematográficos, “Hungria – A Escolha de um Sonho” possui as debilidades aguardadas num filme com orçamento reduzido e, em seus atributos técnicos e lingüísticos, fica refém das anedotas compartilhadas pelo biografado, como a situação em que, sem dinheiro para hospedar-se e alimentar-se em Goiás, eles roubam duas embalagens de macarrão instantâneo num armazém e o esquentam no chuveiro elétrico de uma pousada, de onde saem sem pagar. Após tantos vexames, Gustavo comprova a assertividade de uma frase que ele repete várias vezes “estou humilhando-me agora para nunca mais precisar me humilhar novamente”. A lógica da ambição aquisitiva é dominante, de maneira indisfarçada: o “sonho” do subtítulo tem a ver com os delírios aquisitivos do jovem que larga a escola às custas dos esforços da mãe, até encontrar o sucesso, a partir da reiteração de fórmulas vendáveis, relacionadas à enumeração daquilo que o dinheiro pode comprar. Nos grandes eventos dos quais participa, hoje em dia, Hungria Hip Hop costuma dividir o palco com artistas sertanejos e envolveu-se em polêmicas esperadas, por supostamente estar entre apoiadores do bolsonarismo. É isso: ele, “o ‘playboy’ do ‘rap’” conseguiu – e o filme ensina como!
Trailer
Ficha Técnica:
Título Original e Ano: Hungria - A Escolha de Um Sonho, 2026. Direção: Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira. Roteiro: Jonah Costa e Cristiano Vieira. Elenco: Gabriel Santana, Ramon Brant, André Ramiro, Taty Godoi, Marcelo Pelucio, Hungria, Marcos Pigossi. Gênero: Drama, Biografia. Nacionalidade: Brasil. Decoração de Set: Rafaelly Godoy. Casting: Marcelo Pelucio. Roteiro e Departamento de Continuidade: Ana Portela. Produtor: Bruno Yamaguchi. Empresas Produtoras: Cayac Produções e Stud10 Filmes. Distribuidora: Stud10 Filmes. Duração: 01h44min.
EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

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