Pinóquio, de Igor Voloshin

 

O italiano Carlo Collodi publicou seu livro “Pinóquio” em 1883, sete anos antes de sua morte, fato que ocorreu, inclusive, no auge de sua fama. A história se tornou um clássico e já conta com mais de vinte adaptações para o cinema, que transitam entre animações (como o clássico homônimo da Disney, de 1940, dirigido por Norman Ferguson, T. Hee e Wilfred Jackson), stop motion (como o filme de 2022 lançado pela Netflix, sob a direção de Guillermo del Toro) e versões em live action (sendo a mais recente o longa de 2022 da Disney, dirigido por Robert Zemeckis).

Na trama original, o carpinteiro Geppetto sonha em ter um filho e, ao esculpir um boneco, o nomeia de Pinóquio. Por um toque mágico da Fada Azul, seu desejo de paternidade se realiza quando o boneco ganha vida. No entanto, Pinóquio continua sendo um boneco de madeira, bastante diferente dos demais meninos da região. Seu crescimento é permeado por aventuras guiadas por um comportamento travesso, desobediente e impulsivo, muito semelhante ao de uma criança de verdade. O menino de madeira acaba sendo manipulado e lançado em armadilhas por personagens que representam como a vida humana funciona quando a mentira e a manipulação entram em cena. O “pseudo garotinho” também se mete em enrascadas e deixa de ir à escola ao se envolver com más companhias, e seu destino reage a essas escolhas, fazendo-o enfrentar graves consequências, como passar fome, ser preso e até ser transformado em burro. Um elemento emblemático da trama é que, ao mentir, o nariz de madeira de Pinóquio cresce. A fábula criada por Collodi conduz o leitor a acompanhar o personagem aprendendo, da forma mais dura, o que é ter responsabilidade, ser honesto e se esforçar para alcançar seus sonhos. Esse caminho nebuloso, no entanto, também o leva a bons lugares. Ao se transformar, o amor de Pinóquio por Geppetto o faz repensar sua própria história e agir para se tornar verdadeiramente bom, pois, no fundo, ele sempre foi um garoto ingênuo e de boa índole.

Partindo da história original, o cinema russo, uma indústria em plena ebulição, que tem apresentado ao mundo inúmeras produções de qualidade, traz sua própria versão da trama, com diversas alterações em relação ao material original, sem deixar de fazer alusão à fábula sobre como os seres humanos podem evoluir e crescer, ainda que passando por tantas inúmeras dificuldades, muitas vezes, auto infligidas. Aqui, o filme dá voz a três baratas, Alejandro (voz de Nikolay Drozdov), Toni (voz de Anton Shastun) e Giovani (voz de Ivan Dmitrienko), e estas tomam a rédea de conceder a Geppetto (Aleksandr Yatsenko) o sonho de ser pai ao usar uma chave mágica da Madame Tartaruga (Svetlana Nemolyaeva). O utensílio leva o homem a um quarto com uma voz falante onde ele tem a chance de fazer um desejo e um pedaço de madeira no chão se torna Pinóquio (voz de Vitaliya Kornienko). O garoto se mete em inúmeras confusões e até se envolve com uma trupe de teatro bem malandra liderada por Karakas Barabas (Fedor Bondarchuk). Aliás, a forma com que Pinóquio e Geppetto se desconectam por parte dessa aventura é bem distinta das outras adaptações e mostra um homem talvez ainda mais frágil perante as ameaças que enfrenta do mundo. Não temos o Grilo falante, como em outros filmes, mas as três baratinhas amigas farão essa conexão com o garoto por sua jornada, ainda que com outras nuances e não tão fortes quanto a original.

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano: Buratino, 2026. Direção: Igor Voloshin. Roteiro: Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev baseado na obra clássica de Carlo Collodi. Elenco: Vitaliya Konienko, Aleksandr, Fedor Bondarchuk, Viktoriya Isakova, Aleksandr Petrov, Anastasiya Talyzina, Mark Eydelshteyn, Stepan Belozyorov, Ruzil Minekaev, Lev Zulkarnaev, Svetlana Nemolyaeva, Nikolay Drozdov, Anton Shatun, Ivan Dmitrienko. Gênero: Fantasia, Familia, Aventura. Nacionalidade: Russia. Trilha Sonora Original: Aleksey Rybnikov. Fotografia: Maxim Zhukov. Design de Produção: Irina Belova e Vladislav Ogay. Figurino: Nadezhda Vasileva. Empresas Produtoras: Art Pictures Studio, NMG Studio, Studio Plus e Vodorod. Distribuidora: Paris Filmes. Duração: 01h42.

A principal referência do filme é a obra de 1976, dirigida por Leonid Nechaev, “Priklyucheniya Buratino”. Trata-se de uma adaptação musical baseada no livro do escritor russo Aleksey Tolstoy, “As Aventuras de Buratino ou A Chave de Ouro” (1936). Tolstoy concebeu sua versão do clássico inicialmente com a intenção de apenas traduzir a história para o russo, no entanto, o projeto acabou ganhando autonomia criativa e se transformou em uma releitura livre, com mudanças significativas em relação à narrativa original. O personagem rapidamente conquistou popularidade entre o público soviético e se consolidou como um dos ícones mais marcantes da literatura infantil russa.

Crédito de Imagens: Art Pictures Studio, NMG Studio, Studio Plus e Vodorod - Paris Flmes, Divulgação
A trilha sonora de Aleksey Rybnikov para o filme de 1976 “Priklyucheniya Buratino” foi rearranjada para caber no longa e impressiona pela 


A proposta ousada e criativa da película se arrisca a ser diferente e, talvez por trazer tantas modificações em relação à trama original, não conquiste a todos, mas certamente dialoga com aqueles que apreciam adaptações mais autorais e diversas. Ainda assim, o filme apresenta um enredo envolvente e preserva alusões ao processo de aprendizado vivido por Pinóquio ao longo de sua jornada.

Igor Voloshin assina a direção, mas é também roteirista e produtor em sua carreira, e já soma mais de vinte trabalhos ao todo. Seu projeto mais recente é também uma versão russa de “O Mágico de Oz”, lançada no Brasil em 2025. Tecnicamente, seu novo filme impressiona: há grande qualidade nos figurinos, no design de som, no CGI do personagem central, assim como nas baratinhas, além de um cuidado evidente com os efeitos visuais como um todo. O elenco se destaca pela atuação potente de atores como Fedor Bondarchuk, que interpreta um psicopata extremamente calculista, construindo um vilão com história de fundo, o que o torna uma figura ao mesmo tempo fascinante e perturbadora. A dublagem de Vitaliya Kornienko também merece destaque, ao dar vida a um Pinóquio expressivo e cheio de falhas. Já Aleksandr Yatsenko entrega uma performance melancólica e humilde, e esta versão de Geppetto se mostra tão marcante quanto a de Tom Hanks no filme de Robert Zemeckis (2022).

A dica é: ouse conhecer o cinema russo, mesmo com o áudio original dublado, apreciar as canções apresentadas pelo filme e se permitir explorar novos caminhos dentro do audiovisual.

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

Escrito por Bárbara Kruczyński

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