Na era atual dominada pelas redes sociais, em que qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdo voltado ao público infantil, sem qualquer preparo ou curadoria, é inevitável olhar com certa nostalgia para as décadas de 80 e 90. Os desenhos animados e brinquedos que marcaram aquela geração eram permeados por imaginação, senso de aventura e um inconfundível espírito nerd/geek, criando universos ricos que ultrapassavam a tela e estimulavam a criatividade de crianças e adolescentes.
"He-Man e os Defensores do Universo" (1983–1985), série animada produzida pela Mattel em parceria com a Filmation, é um dos maiores exemplos desse fenômeno. A produção bebia de referências como "Conan, O Bárbaro"(Robert E. Howard, 1932) e outras obras de fantasia heroica, mas construiu uma mitologia própria que marcou uma geração. A trama acompanhava o Príncipe Adam que, ao lado de Teela e Duncan, defendia o reino de Eternia das constantes investidas do terrível Esqueleto e sua turma. Assim, sempre que empunhava a "Espada do Poder" e bradava o inesquecível “Eu tenho a força!”, Adam se transformava em He-Man, o herói mais poderoso do universo. Ao lado de seu fiel companheiro, o Gato Guerreiro, que em outras horas é conhecido como "Pacato", ele enfrentava os planos malignos de seu arqui-inimigo em aventuras que misturavam fantasia, ficção científica e muita ação, tornando-se um dos maiores ícones da cultura pop da década que fora lançado. O sucesso de He-Man extrapolou a televisão. A franquia gerou uma linha de action figures que revolucionou o mercado de brinquedos, ganhou histórias em quadrinhos, revistas, jogos eletrônicos e diversas produções audiovisuais. Em 1987, chegou aos cinemas com "Mestres do Universo", estrelado por Dolph Lundgren, uma adaptação que, apesar de suas limitações, conquistou status cult e até hoje é lembrada com carinho pelos fãs, graças às frequentes reprises na televisão aberta brasileira.
Para a alegria dos fãs e dos cinéfilos, Hollywood vem tentando trazer He-Man de volta às telas desde 2007, em uma nova adaptação em live-action capaz de reapresentar o universo de Eternia para as novas gerações. Ao longo desse período, diversos estúdios, diretores, roteiristas e atores passaram pelo projeto, que parecia nunca sair do papel. Foi apenas a partir de 2024 que a produção começou a ganhar contornos mais definidos. A escolha do elenco, a consolidação de um roteiro mais coeso e, principalmente, a chegada do diretor, produtor e animador Travis Knight deram ao filme a identidade que lhe faltava. Conhecido por trabalhos como "Kubo e as Cordas Mágicas"(2016) e Bumblebee (2018, Knight demonstra compreender a importância afetiva da franquia e a necessidade de equilibrar nostalgia e renovação, elemento essencial para o sucesso de um novo Mestres do Universo.
O jovem ator britânico Lucas Galatizine encarou a responsa de interpretar He-Man, após as saídas de Noah Centineo e Kyle Allen do projeto, em 2022. Ao seu lado estão dois dos personagens mais importantes da mitologia de Eternia. Camila Mendes interpreta a destemida Teela, enquanto Idris Elba assume o papel de Duncan, o lendário Mentor de Armas. O elenco ainda conta com a voz de Kristen Wiig para Roboto, além de personagens clássicos como Ariete, vivido por Jon Xue Zhang, Fisto, interpretado por Jóhannes Haukur Jóhannesson, Dian, por Christiaan Bettridge, e Mekaneck, por James Wilkinson. A magia de Grayskull fica sob a proteção da Feiticeira, interpretada por Morena Baccarin. Já os pais do Príncipe Adam, a Rainha Marlena e o Rei Randor, ganham vida nas interpretações de Charlotte Riley e James Purefoy, respectivamente. Os antagonistas e vilões da trama ganham destaque com Esqueleto, vivido por um quase irreconhecível Jared Leto, Ao seu lado estão a poderosa feiticeira Maligna, interpretada por Alison Brie, e seus principais aliados, como Mandíbula, que ganha interpretação de Sam C. Wilson, e Triclope, papel de Kojo Attah. A narrativa é quase a mesma dos desenhos e HQs. A narrativa permanece fiel ao material que consagrou a franquia. Assim como nos desenhos e nas HQs, o espectador acompanha a tentativa de Esqueleto de conquistar a Espada do Poder e subjugar Eternia, colocando o destino do reino nas mãos de seu maior defensor.
Crédito de Imagens: © 2026 Amazon MGM Studios Content Services LLC / Giles Keyte.
O Brasil fez parte das ações para fãs com a presença do elenco na tarde do domingo do penúltimo domingo, 24 de maio, em São Paulo
Seguindo a clássica estrutura da jornada do herói, o filme apresenta o jovem Adam ainda em seus primeiros treinamentos, inseguro e constantemente tentando corresponder às expectativas do pai, o Rei Randor. A Guarda Real é comandada por Duncan, que acompanha de perto o desenvolvimento do príncipe, oferecendo-lhe conselhos e orientação, enquanto sua filha, Teela, se torna a pessoa que mais incentiva e ajuda Adam em seus treinos. Certo dia, Eternia é invadida por Esqueleto e seus seguidores, que tentam tomar a Espada do Poder. Para impedir que a relíquia caia em mãos inimigas, a Feiticeira a envia para a Terra junto com o pequeno garoto, pedindo apenas que ele a proteja e encontre o caminho de volta quando for seguro. No entanto, durante a travessia, o menino acaba se separando da espada, iniciando uma longa busca pelo artefato.
Anos depois, já adulto, Adam leva uma vida aparentemente comum. Carismático e sonhador, ele conta a história de seu reino perdido e da espada mágica para uma jovem durante o que parece ser um encontro romântico. A reação, porém, não é a que ele esperava: a garota não acredita muito no que escuta e vai embora rapidamente. Enquanto trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa, Adam continua obcecado pela missão de encontrar a Espada do Poder, pesquisando pistas na internet e compartilhando sua história com quem cruza seu caminho, para o espanto de colegas e conhecidos. É justamente durante uma conversa difícil com sua chefe que surge uma informação capaz de mudar seu destino.
Seguindo a pista, ele chega a uma pequena loja de quadrinhos e se depara com a espada exposta nas mãos de um manequim. Sem pensar duas vezes, recupera o objeto, mesmo que isso lhe renda uma boa dose de constrangimento, e a visita da polícia pouco tempo depois. Quando é levado à delegacia, uma criatura misteriosa começa a caçá-lo pelas ruas, interessada tanto nele quanto na espada. É nesse momento que Teela reaparece e o ajuda a escapar. Juntos, eles finalmente conseguem retornar a Eternia. Mas o reencontro com seu mundo natal não traz o descanso que Adam imaginava. Ao voltar para casa, ele descobre que a batalha decisiva já começou e que precisará assumir de vez o destino para o qual foi escolhido: empunhar a Espada do Poder, tornar-se He-Man e enfrentar Esqueleto para salvar o reino.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: Masters of The Universe, 2026. Direção: Travis Knight. Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee, Dave Callaham com argumentos de Adam Nee, Alex Litbak e Michael Finch - baseados nos personagens criados pela Mattel. Elenco: Nicholas Galitzine, Idris Elba, Camila Mendes, Jared Leto, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Jon Xue Zhang, Alison Brie, Sam C. Wilson, Charlotte Riley, James Purefoy, Morena Baccarin, Kristen Wiig, Artie Wilkinson-Hunt, Eire Farrell, Christiaan Bettridge. Com a participação de Dolph Lundgren. Gênero: Fantasia, Ação, Aventura, Scifi. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Daniel Pemberton. Fotografia: Fabian Wagner. Edição: Paul Rubell. Figurino: Richard Sale. Design de Produção: Guy Hendrix Dyas. Empresas Produtoras: Amazon MGM Studios, Escape Artists, Mattel Studios, Metro-Goldwyn-Mayer (MGM). Distribuidora: Sony Pictures Brasil. Duração: 02h20min.
O roteiro é um dos grandes acertos do filme. Há um equilíbrio notável entre a nostalgia que consagrou a franquia e as sensibilidades da cultura pop contemporânea, atualizando seus personagens sem descaracterizá-los. He-Man, tradicionalmente visto como o arquétipo do herói invencível, símbolo de força física e bravura, surge aqui como um protagonista mais humano, vulnerável e ainda em formação. Adam é apresentado como um jovem sensível, cheio de dúvidas, sonhos e inseguranças, características que o tornam mais próximo do público e que, de maneira sutil, contrapõem a ideia de uma masculinidade baseada apenas na força e na invulnerabilidade. Essa releitura funciona justamente porque não abandona a essência da obra original. Pelo contrário, o filme tem a coragem de abraçar aquilo que fez da série animada um fenômeno: seu universo extravagante, seus personagens maiores que a vida e o espírito despretensioso das aventuras fantásticas dos anos 80. Em vez de tentar esconder essas origens, a produção as celebra, encontrando um ponto de equilíbrio entre homenagem e renovação.
As atuações de Nicholas Galitzine, Camila Mendes, Idris Elba, Jared Leto, Alison Brie e Morena Baccarin revelam um elenco afinado, que compreende a proposta do filme e respeita a essência dos personagens clássicos. Cada intérprete encontra o tom certo entre o exagero característico da fantasia oitentista e a humanidade necessária para tornar essa nova versão relevante para o público atual. Para os fãs brasileiros, a produção ainda ganha um sabor especial com a presença das atrizes de dupla nacionalidade Camila Mendes e Morena Baccarin no elenco. Afinal, He-Man sempre teve uma relação única com o Brasil, onde a animação se transformou em um verdadeiro fenômeno cultural. O sucesso foi tamanho que o herói ganhou até uma música oficial em português, eternizada na voz do Trem da Alegria, uma lembrança afetiva que permanece viva na memória de toda uma geração.
A direção de Travis Knight é um dos grandes trunfos do filme. O cineasta trata seus personagens com respeito e autenticidade, compreendendo que o verdadeiro poder de He-Man nunca esteve apenas em sua força física, mas na nobreza de seus ideais. Essa sensibilidade fica evidente em momentos marcantes embalados por canções como "Boys Don't Cry", da banda The Cure, e "The Man", do The Killers, cujas letras dialogam de maneira surpreendente com as emoções vividas pelos personagens ou com as cenas. A trilha sonora composta por Daniel Pemberton acompanha a narrativa com vigor, potencializando os momentos mais importantes da jornada de Adam e as grandes sequências de ação. Já a canção-tema interpretada pela banda inglesa The Darkness (escute aqui) captura com precisão o espírito grandioso e irreverente de Mestres do Universo, reforçando a atmosfera épica e nostálgica que permeia toda a produção.
Visualmente, a produção impressiona bastante. Figurinos, cenários e direção de arte trabalham em perfeita sintonia para construir uma Eternia grandiosa e cheia de personalidade. Os efeitos visuais merecem destaque por não dependerem exclusivamente do CGI: o filme combina recursos digitais e efeitos práticos de forma equilibrada, conferindo textura e credibilidade ao universo fantástico.
Mesmo ultrapassando duas horas de duração, a narrativa mantém um ritmo envolvente e nunca se torna cansativa. A sessão é marcada por momentos de pura celebração, com reações espontâneas do público diante de participações especiais, sequências de ação empolgantes e cenas pós-créditos que deixam claro que essa nova fase da franquia ainda tem muito a oferecer. É o tipo de aventura que desperta aplausos, sorrisos e a sensação de que a magia de Eternia continua viva.
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