Só Por Uma Noite, de Will Gluck

 
Em “Uma Noite de Crime”, de James DeMonaco (2014), filme que deu origem a uma enorme franquia e que também ganhou uma série de televisão entre 2018 e 2019, os norte-americanos têm uma única noite para expurgar toda a sua vontade de cometer crimes sem serem punidos. Assim, não importa se você tem ou não a ficha limpa: naquela noite, todos precisam lutar para sobreviver. As mensagens da produção podem ser diversas, mas o longa-metragem de terror fala bastante sobre essa era do ódio em que vivemos atualmente. Já o mais novo filme do diretor de Todos Menos Você” (2023), Will Gluck, exalta o afeto e se propõe a falar justamente o contrário. “Apenas Uma Noite” repensa a ideia do filme de DeMonaco como um momento em que a sociedade, na terra do Tio Sam, tem apenas um dia do ano para viver noites casuais, enquanto, no restante do tempo, somente os casados podem exercer livremente o direito de transar com seus parceirxs. Assim, solteirxs de todo o país, mas principalmente de Nova York, saem à caça de alguém para passar uma noite.

A narrativa nos apresenta o bonitão Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria na big apple, que não vê a hora de encontrar a noiva, Malika (Maya Hawke), para um jantar romântico e, quem sabe, fazer umas coisinhas a mais na noite liberada pelo governo para isso. Enquanto isso, em outro canto da cidade, a cantora de jingles hilários Allie (Monica Barbaro) se prepara para encontrar a amiga Jacinta (King Princess) e, juntas, tentarem achar um cara legal em alguma festa. Allie reforça para a amiga que não necessariamente pretende transar, mas que gostaria de encontrar uma conexão mais forte do que apenas uma noite com alguém. Ao mesmo tempo em que Owen leva um baita fora da noiva, que decide abrir a relação justamente naquele momento e sair para se divertir em uma noite casual com o vizinho, Allie também leva um toco da amiga. Jacinta é rápida no gatilho e encontra um par simplesmente ao ir ao banheiro, abandonando Allie, que rapidamente resolve voltar para casa. Porém, ambos acabam confessando a pessoas queridas o ocorrido e estas os incentivam a sair e buscar diversão. O homem é motivado pela mãe, Linda (Molly Ringwald), enquanto a mulher ganha um novo vestido e até um salto alto da jovem com quem divide o apartamento, Arya (Quintessa Swindell). Aliás, Arya, que é LGBT, não está exatamente preocupada em encontrar alguém para sair. A mãe de Troy (Mateo Roy), um garoto muito esperto e piadista que mora em frente ao prédio das duas, pagou para que ela o vigiasse durante esse dia completamente maluco na cidade. 

Quando Allie decide sair novamente, acaba dando de cara com Owen, mas não é de primeira que os dois vão se dar bem. A longa noite proporcionará encontros inusitados, desde uma ida à farmácia em uma corrida maluca por preservativos até um encontro tête-à-tête na delegacia, depois que ambos são ludibriados em dates que dão muito errado. Há ainda o momento em que os dois deixam de lado toda a correria dos encontros para simplesmente comer pizza juntos já no fim da noite. A verdade é que as horas vão passando, os encontros e reencontros vão acontecendo, e uma conexão fofa entre os dois começa a se estabelecer em meio a situações super engraçadas, nas quais todos estão cheios de tesão, mas também têm muito carinho para dar.

O roteiro de Travis Braun apareceu, em 2024, na “Lista Negra de Hollywood”, que reúne alguns dos melhores scripts ainda não produzidos. Dizem por aí que Gluck de uma pincelada no texto final, mas é Braun quem aparece como autor original da obra. O resultado é um filme leve, divertido e com humor na medida certa para fazer o espectador rachar o bico no cinema, ao mesmo tempo em que se envolve e se emociona com o casal sexy e fofissimo que se forma ao longo da história. A produção é da Universal Pictures e da Olive Bridge Entertainment, enquanto a Universal também é responsável pela distribuição do filme em inúmeros países.

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano: One Night Only, 2026. Direção: Will Gluck. Roteiro: Travis Braun. Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, King Princess, Molly Ringwald, Quintessa Swindell, Mateo Roy, Levar Burton, Pete Davidson, Bobby Cannavale, Este Haim, Ziwe, Charlie Gillespie, Ella Loudon, Jake Bakirdan, Flavor Flav, Okieriete Onaodowan, Keizo Kaji. Gênero: Comédia, Romance. Nacionalidade: EUA. Trilha Sonora Original: Este Haim, Christopher Stracey. FotografiaYaron Orbach. Edição: Robert Nassau e Tia Nolan. Design de Produção: Scott Kuzio. Figurino: Jacqueline Demeterio. Casting: Kathleen Chopin e John Ort. Empresas Produtoras: Universal Pictures e Olive Bridge Entertainment. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração: 01h42min.
É quase surreal a maneira como a comédia romântica retrata as reações das pessoas a partir do momento em que o relógio é acionado e o decreto que libera que as transas casuais entrem em vigor. De repente, toda a cidade passa a expor deliberadamente a própria libido e sai às ruas em busca de festas e de um parceiro para aquela noite. Com o exagero proposital dessas situações, o filme faz uma crítica leve e bem-humorada à vida moderna, em que homens e mulheres recorrem cada vez mais a aplicativos de namoro, pagos ou gratuitos, em busca de parceiros sexuais ou afetivos. Em determinado momento, inclusive, vemos Owen tentando encontrar alguém por meio de um app e percebendo, da pior maneira, a roubada em que acabou se metendo. 

Embora o casal que está prestes a se formar também queira extravasar sua energia sexual, existe, da parte de ambos, um desejo maior de estabelecer uma conexão verdadeira com alguém. Owen está arrasado com a atitude da noiva, enquanto Allie realmente quer encontrar um amor. Em uma conversa, ela revela que considera muito raro duas pessoas realmente se conectarem em uma relação casual e que, muitas vezes, acaba se sentindo vazia depois desses encontros. A moça também acaba caindo em alguns golpes justamente por tentar enxergar o melhor nas pessoas. É somente quando o dia de liberdade sexual está chegando ao fim que ela percebe que, durante todo aquele tempo, estava construindo algo muito mais genuíno com Owen. A descoberta conversa diretamente com o desfecho do filme e com as resoluções para os arcos dos dois no ato final.

O texto também consegue apresentar diferentes tipos de encontros de casais e as maneiras como eles se relacionam uns com os outros. Há um desejo despertado por uma conversa triste, outro por uma conversa política e outro simplesmente pela liberdade espontânea proporcionada por aquele dia. Assim, com muita leveza, o longa nos faz rir das mil e uma situações em que os dois protagonistas se metem. A proibição do sexo naquela Nova York, de certa forma conservadora, também tenta jogar verde e  mostrar que alguns problemas, como a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças, foram reduzidos nesse universo. Ao mesmo tempo, porém, a narrativa ressalta o quanto aquelas pessoas estão cheias de vida, desejo e vontade de se relacionar. Lembrando como homens e mulheres, similares a Owen e Allie, querem mais do que apenas uma transa: querem construir uma conexão verdadeira e, quem sabe, formar um casal. Isso, entretanto, não diminui o desejo sexual nem a força vital dos outros personagens que aproveitam a noite de maneiras diferentes.

Portanto, fica claro que a busca por romance é o grande tema do filme. Isto porquê por trás de toda a loucura, do desejo e da liberdade sexual daquela noite, existe uma provocação sobre algo que parece estar cada vez mais raro: a conexão verdadeira entre duas pessoas

                                           Crédito de Imagens: © Universal Studios. All Rights Reserved.
O filme foi rodado em Nova York entre setembro e dezembro de 2025, e a cidade acaba sendo muito mais do que um simples cenário: ela ganha vida ao acompanhar e direcionar os personagens ao longo de suas jornadas.
 
O casting de Kathleen Chopin e John Ort é grandioso e bastante diverso. Não apenas pela escolha certeira dos protagonistas, Callum Turner e Monica Barbaro, mas também por reunir coadjuvantes de peso, como Maya Hawke e a estrela dos filmes oitentistas Molly Ringwald. Os personagens de Mateo Roy e Charlie Gillespie também funcionam muito bem como alívios cômicos e garantem boas risadas ao longo da trama. A participação dupla de Este Haim, baixista da banda Haim, também é um agrado. Ela não apenas aparece como atriz, interpretando uma recepcionista na entrada de uma boate, como também assina a trilha sonora ao lado de Christopher Stracey. A música, aliás, desempenha um papel importante na trama. Allie é cantora, mas carrega medo e vergonha de se apresentar no palco, ao mesmo tempo em que admira profundamente o cantor interpretado por Gillespie. E é justamente aí que o casting de Callum Turner ganha uma camada curiosa: na vida real, o ator é casado com a cantora Dua Lipa. Uma dessas coincidências que tornam a escolha ainda mais interessante. Além disso, o filme apresenta uma trilha sonora recheada de nomes como Robyn, Air Supply, Sara Bareilles, Winona Fighter, Arlo Parks e King Princess, que também integra o elenco. As músicas ajudam a construir a atmosfera da história e acompanham bem os diferentes momentos vividos pelos personagens.

Will Gluck, que vem do estrondoso sucesso de “Todos Menos Você”, segue aqui uma fórmula bastante conhecida e eficiente das comédias românticas: o casal que está destinado a se formar passa por uma verdadeira maratona de desencontros, situações absurdas e encontros inesperados até finalmente encontrar o caminho um para o outro. O sucesso anterior do diretor também ganha uma espécie de menção honrosa no filme, com a aparição de fotografias de Glen Powell e Sydney Sweeney em alguns momentos. Gluck também revelou que, embora o filme apresente nudez, ela foi utilizada de maneira mais moderada. Segundo o diretor, a intenção seria não afastar as novas gerações, que, segundo ele (e a internet), parecem estar transando menos. É uma declaração curiosa e que conversa diretamente com a própria proposta do longa, que brinca justamente com uma sociedade em que o sexo é, ao mesmo tempo, extremamente desejado e rigidamente controlado.

No fim dessa, talvez, longa leitura, a dica é simples: junte as amigas, os amigos, esposas, esposos, namoradas, namorados, ou quem você quiser, e se jogue no cinema. Apenas Uma Noite é aquele tipo de entretenimento despretensioso que funciona especialmente bem quando a intenção é rir, se envolver com um casal fofo e simplesmente aproveitar algumas horas de cinema.

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Bárbara Kruczyński

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