“Tu só dormes, o dia inteiro. Não levanta nem para comer. Isso é depressão!”
O sucesso de uma ficção científica – tanto técnica quanto discursivamente – tem a ver, entre outros aspectos, com a adoção de uma direção de arte que, a despeito do orçamento financeiro investido, consiga passar a impressão, para o espectador, de que aquilo que estamos vendo, mesmo quando reconhecível, em termos de cenários e ambiências, diz respeito a algo distinto, geográfica ou temporalmente. No caso deste filme, o resultado é assaz proveitoso: a cidade de Porto Alegre – conforme mostrada, com uma separação violenta entre os bairros pobres e ricos, numa distopia vindoura – revela-se assustadora!
Em “Futuro Futuro” (2025, de Davi Pretto), acompanhamos o vagar de um personagem amnésico – mais precisamente, que sofreu um processo de “deflação neurológica” – que, por não saber o seu nome, é apelidado K (Zé Maria Pescador), em razão de uma cicatriz misteriosa num de seus ombros. Ele freqüenta aulas de readaptação imagética, conduzidas pela abnegada professora Joana (Carlota Joaquina), numa conjuntura em que as pessoas tornaram-se dependentes de aparelhos provedores de simulações provocadas por Inteligência Artificial. Um desses, o Oráculo, é cedido aos pobres, depois de abandonado pelos ricos, e causa uma espécie de vício…
Acolhido pelo sexagenário Sílvio (João Carlos Castanha), K tem vislumbres de um casal transando diante de um polvo, num prédio privilegiado, mas não sabe do que se trata. Ele alimenta-se com aquilo que Sílvio provém para si e, num instante inaudito, depois de uma festa, ambos fazem sexo, numa das cenas homoeróticas mais espontâneas do cinema contemporâneo.
À medida que convive com Sílvio. K tenta compreender a sociedade caracterizada por inúmeras privações, em que ele está inserido: água e energia elétrica são comumente suspensas, principalmente quando chove e, por algum motivo, o estranho curso no qual ambos estão inscritos é interrompido, mediante votação da comunidade, visto que o prédio em que as aulas acontecem foi direcionado para acolher pessoas que perderam as suas residências e pertences devido às enchentes no território gaúcho. Eis mais um detalhe impressionante de aproveitamento terrorífico de algo que acontece na realidade, transferido para a ficção!
Crédito de Imagens: Vulcana Cinema., Leonardo Feliciano - Atelier W e Cajuína Audiovisual
A produção teve sua estreia mundial no 59º Festival de Karlovy Vary, na mostra competitiva Proxima, e recebeu quatro prêmios no 58º Festival de Brasília, incluindo Melhor Filme.
Dirigido de maneira precisa e marcado por detalhes citadinos que denunciam a hipertrofia da gentrificação – vide os cartazes colados nas paredes e muros. Exemplo: “troco limpeza por cigarros!” – “Futuro Futuro” serve-se da fotografia atordoante de Leonardo Feliciano, atravessada por abundantes tons rubros, e por um desenho sonoro que faz com que o público experimente o mesmo desnorteamento sentido por K. Até que uma reviravolta tramática conduz o enredo para outra perspectiva: de repente, K (re)encontra o casal que vira tantas vezes em suas alucinações.
Por algum motivo, o protagonista, mesmo sujo e com uma visível expressão de despertecimento, consegue transitar entre os bairros pobres e ricos e, neste segundo caso, penetra numa festa que celebra a possibilidade de fim do mundo, anunciada pela queda de um asteróide. Ele interage com o casal Isaac (Higor Campagnaro) e Antonieta (Clara Choveaux), além de se deparar com um polvo que “muda de cor quando está sonhando”. Os delírios imagéticos de K, agora, passam a ser contaminados por preâmbulos apocalípticos, de modo que a sua construção personalítica deve estar associada, daqui por diante, a uma opção volitiva de classe: seria o momento de voltar à convivência com Sílvio, não obstante os perigos de invasão policialesca a que a residência dele é constantemente submetida? .
Trailer
Ficha Técnica
Título original e ano: Futuro Futuro, 2025. Título em inglês: Future Future. Direção e Roteiro: Davi Pretto. Elenco: Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro, Olivia Torres, Silvia Duarte, Ida Celina, Alex Pantera, Carlos Azevedo, Daniel Machado, Elaine Segura, Fabielly Klimberg, Gabriela Greco, Iluska Moura, Li Pereira, Luciano Abreu, Robson Duarte e Sandro Marques. Gênero: Drama, Lo-fi, Sci-fi. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Leonardo Feliciano. Montagem: Bruno Carboni, EDT. Direção de Arte: Dayane Paz. Figurino: Gabriela Güez. Caracterização: Juliane Senna. Música Original: Rita Zart e Carlos Ferreira. Desenho e Mixagem de Som: Tiago Bello. Som Direto: Tomaz Borges. Produção: Paola Wink e Jessica Luz. Formato: DCP, 2K, 24FPS, FLAT 1.85, 5.1, Color. Locações de filmagem: Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Produção: Vulcana Cinema. Coprodução: Atelier W. Financiamento: FSA, BRDE, ANCINE, FAC RS. Patrocínio: BNDES. Distribuição: Atelier W e Cajuína Filmes. Laboratórios e Mercados: Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias — FICCI — WIP IBEROAMÉRICA. Duração: 86 minutos.
Dentre os vários méritos encontrados neste filme, um deles – metonimizado pelas descrições sinópticas supracitadas – é a instauração de perguntas não respondidas, que fazem com que elaboremos teorias responsivas/explicativas a partir de eventos do presente. Da mesma maneira que acontece nos mais célebres trabalhos de ficção científica, “Futuro Futuro” chama a atenção para os problemas progressivos da contemporaneidade, exortando os vínculos relacionais entre pessoas com necessidades semelhantes, que podem ser dirimidas através do apoio mútuo. A trilha musical de Carlos Ferreira e Rita Zart é primorosa, confirmando a excelência de um longa-metragem adulto, advertente e sensorialmente fascinante. Uma das mais inventivas produções brasileiras dos últimos anos!
A obra chegou aos cinemas em 26 de Julho de 2026.






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