Kardec, de Wagner de Assis


Com roteiro de L. G. Bayão (Irmã Dulce, Minha Fama de Maue Wagner de Assis, 'Kardec' não é uma obra cinematográfica que atinge qualquer público, mas sim um específico. No caso, os de religião espírita, obviamente. E a sua grande cartada é que poderá agradar também os que não seguem exatamente nenhum tipo de doutrina mística. O conteúdo é baseado ainda na obra de Marcel Souto Maior, 'Kardec - A Biografia' e é dirigido por Assis.

Isto porque o longa aborda a vida de um educador e cientista que como tal, era bastante cético quanto a assuntos cristãos. Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec, além de educador, foi também tradutor, escritor, pedagogo, professor, linguista, filósofo e discípulo do reformador educacional Johann Heinrich Pestalozzi. Nascido a 3 de outubro de 1804, em Lyon, na França, e falecido em 31 de março de 1869, aos 64 anos de idade, já na capital Parisiense, Kardec viu o mundo se transformar diante de seus olhos.

A trama que chega esta semana aos cinemas brasileiros retrata uma época sombria no território francês dita como 'pós revolução' onde a sociedade estava passando por momentos conturbados, com intensa agitação política e social. Os antigos ideais e a tradições que garantiam a hierarquia dos monarcas, aristocratas e até mesmo da Igreja Católica foram abruptamente derrubados pelos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Trailer
 
Em meio a todo este contexto histórico, muito bem situado no filme, temos o estudioso Hypolite (Leonardo Medeiros) passando por uma crise financeira, entre 1835 e 1840, e iniciando aulas particulares para garantir seu sustento. Nascido em uma família de orientação católica, no ano de 1832, mais precisamente no mês de fevereiro, desposou Amélie Gabrielle Boudet (Sandra Coverloni), a quem considerava sua alma gêmea, sua estrela.

Medeiros encarna este grande homem com maestria e se entrega por inteiro ao personagem. Corveloni mostra dedicação e está belíssima no papel. Segundo depoimento de Professor Rivail (citado em Obras Póstumas), em 1854, ele ouviu falar pela primeira vez no fenômeno das mesas girantes através de seu amigo Fortier, um magnetizador. A princípio não deu atenção ao fato e só em maio de 1855 sua atenção se voltou para o assunto e resolveu frequentar as reuniões e pesquisar sobre a escrita mediúnica e a comunicação com o mundo invisível.
 Amélie (Coverloni) e Kardec (Medeiros)

Orientado por um espírito familiar, o professor Rivail inicia os trabalhos de decodificação e este mesmo espírito o informa que em vidas passadas seu nome foi Allan Kardec, nome que ele adotaria e sob o qual publicaria as obras que viriam a ser as bases de uma Doutrina.

A cinebiografia descreve com sutileza todo processo por qual Kardec passou e como suas dúvidas e questionamentos pessoais foram importantes para direcioná-lo. A transformação do cético Rivail em Kardec". O saber do nascimento, morte e renascimento fizeram com que ele sustentasse como lei o fato de querer 'progredir'. E o impacto de seus estudos em uma sociedade fechada e totalmente dominada pelos dogmas da igreja foram muito fortes. Assim, seu árduo trabalho foi considerado devido a uma extensa pesquisa, seguindo métodos e sendo analisado pelos teóricos da época, a fim de provar que o mundo dos espíritos realmente existia e assim houve a necessidade de se publicar o Livro dos Espíritos.

O Auto da Fé, ocorrido na Espanha, em 9 de outubro de 1861, onde obras espíritas foram queimadas em praça pública por ordem do Bispo de Barcelona se baseou em uma fala autoritária que dizia que "a igreja católica é universal, e os livros tem ordem contrária à fé católica,logo, não poderia ser consentido que aquele saber conseguisse perverter a moral e a religião de outros países."

Na época, Kardec chegou a comentar que "graças a este zelo imprudente, todo mundo, na Espanha, ouviria falar no Espiritismo e quererá saber o que é e isto é tudo que desejamos. Podem então queimar livros, mas não se queimam as ideias; as chamas das fogueiras as superexcitam em lugar de abafá-las. As ideias, aliás, estão no ar, e não há Pirineus com tamanho suficiente para detê-las, e quando uma ideia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la''.


A produção explora um tema riquíssimo e sabe caminhar. Ademais possui um elenco primoroso e uma fotografia com tons entre os esverdeado e o bege evocando deslumbre e elegância. As locações conseguem com maestria nos transportar para a França de Napoleão com a pompa das classes mais abastadas em contraste a pobreza rondando as ruas. O figurino traça bem essa linha histórica e o público ira se encantar com a riqueza de detalhes e cuidado com a obra apresentada. Assim, a direção entrega um resultado final digno não só de um público.

Não recomendado para menos de 12 anos.
Ficha Técnica
Título original e ano: Kardec, 2018. Direção: Wagner De Assis. Roteiro: L.G. Bayçao e Wagner De Assis - baseado no livro de Marcel Souto Maior 'Kardec - A Biografia'. Elenco: Guilherme Leonardo Medeiros, Sandra Corveloni, Piva, Genézio de Barros, Guida Vianna, Jukia Konrad, Charles Fricks, Licurgo Espinola, Letícia Braga, Julia Svacina, Dalton Vigh e Louise D'Tuani). Gênero: Biografia, histórico. Nacionalidade: Brasil. Trilha Sonora Original: Trevor Gureckis. Fotografia: Nonato Estrela. Montadora: Marília Moraes. Diretor de Arte: Cláudio Amaral Peixoto e Helcio Pugliese. Figurinista: Kika Lopes e Rosângela Nascimento. Sonoplasta: Evandro Lima. Engenheiro de som: Evandro Lima. Distribuição: Sony Pictures. Duração: 01h50min.
16 de Maio nos cinemas.
Visite a página oficial do filme no FACEBOOK: https://www.facebook.com/KardecFilme/

Escrito por Helen Nice

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