A Divisão, de Vicente Amorim


A Divisão é a versão fílmica da série de mesmo nome dirigida por Vicente Amorim para o canal de streaming Globoplay. Os cinco episódios acontecem dentro da DAAS, a divisão anti-sequestro da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Com a chegada do trio de policiais rebeldes e corruptos Santiago (Erom Cordeiro), Ramos (Thelmo Fernandes) e Roberta (Natália Lage), a DAAS passa a tentar operar com inteligência em vez de força bruta, como era com a liderança do delegado Mendonça (Silvio Guindane).

O filme se inicia com um panorama do surto de sequestros que se deu no Rio no fim dos anos 90. O foco da narrativa é, portanto, mostrar como essa mudança de hábitos resultou no fim da onda desse crime na cidade. Para isso utiliza-se de um caso ilustrativo: a filha do deputado Venâncio Couto (Dalton Vigh). 

Assim como em Tropa de Elite (2007), talvez o maior filme brasileiro sobre a instituição policial, A Divisão usa da violência presente nos batalhões e delegacias para tentar criar algum tipo de crítica sobre como lidamos com a segurança pública no Brasil. Enquanto Tropa de Elite se perde no debate que tenta promover – algo que é melhor conduzido no segundo filme –, A Divisão deixa bem claro o que quer entregar. O filme de Vicente Amorim tenta criar contradições nas atitudes dos personagens para dar a eles algum tipo de profundidade, mas seu discurso é sempre transparente. 

O que pode parecer uma qualidade se o próprio filme não entrasse em contradição consigo mesmo. As contradições dos personagens, como as propinas recebidas no passado por Santiago, bastam-se aí e ficam cada vez piores. As mortes praticadas por Mendonça, por exemplo, são meios extremos, mas justificados pela luta contra o crime organizado no Rio de Janeiro. Mendonça é a figura representativa da retidão moral, aquele que não admite o que acha errado, mesmo que para isso precise matar alguns suspeitos.

Cena do filme

A base dessa narrativa é mostrar a podridão das corporações e como elas só funcionam na marginalidade, obrigando seus policiais à extorsão ou ao assassinato. Mas o filme não sustenta a crítica que pretende fazer e tenta focar-se na construção de um clima de ação com longas e numerosas cenas de tiroteio. Dessa forma, as contradições que tentam questionar o papel da polícia somem na tentativa de plasticidade e adrenalina das cenas de ação, deixando para o personagem do Chefe de Polícia Paulo Gaspar (Bruce Gomlevsky) a tarefa de apresentar as críticas em falas expositivas através de coletivas de imprensa.

A contradição rasa das personagens também é encontrada na estrutura do roteiro. A corrupção de Santiago, tão importante para a visão que seus colegas e a imprensa têm dele, é perdoada por ser o protagonista, já que outros personagens da trama também o são e com menos compreensão por parte do filme. Pode-se pensar que isso se dê pelos métodos violentos e manipuladores dessas personagens, mas Mendonça também o é e se torna o maior aliado do detetive All Star, apelido de Santiago dado por um chefe de facção por conta dos tênis do policial.


Todas essas são inconsistências comuns em filmes, especialmente os de ação e aventura onde o foco está em outro lugar. Mas o problema maior acontece com a própria direção de Amorim. O longa não desperta o interesse plástico das coreografias dos atores e das câmeras pelas vielas e casas abandonadas, tornando-se uma cópia saturada do que acontece no gênero há alguns anos. Mas também não existe mérito nas críticas feitas. Tudo é introduzido como se houvesse uma espécie de checklist de temas a serem abordados e que acabaram sendo jogados na tela. 

A Divisão é uma produção que se leva a sério demais, mas que, ao não atingir os lugares que pretende chegar, tenta disfarçar de filme de ação pipoca com algum fundo social. O problema em que se mete é até bastante comum em realizações cinematográficas: confundir o que se quer dizer com o que está sendo dito efetivamente. Não há crítica ao sistema de segurança pública quando bandidos e mocinhos agem da mesma forma, mas recebem tratamentos distintos por parte do filme. As contradições que buscam a profundidade só deixam mais raso tudo que a narrativa faz. Qualquer tentativa de problematizar se perde quando os bandidos menores perdem o rosto, quando se tortura e fuzila apenas uma massa de corpos. A desumanização de um dos lados desse confronto só opera para que eliminá-los não seja um problema.

A película termina e surgem os letreiros que afirmam que, a partir daquele momento, a taxa de sequestro foi zerada, enquanto a dos outros crimes continuou aumentando nesses 20 anos. Tudo o que filme diz se encontra nestas palavras que se exibem quando ele acaba. Dado que por si só deve ser um problema. 

Trailer


Ficha Técnica

Título original e ano: A Divisão, 2019. Direção: Vicente Amorim. Roteiro: Gustavo Bragança, José Luiz Magalhães, Rafael Spínola, Aurélio Aragão, Erik de Castro, Fernando Toste e Vicente Amorim. Roteiro final: Gustavo Bragança e José Luiz Magalhães. Elenco: Erom Cordeiro, Silvio Guindane, Natalia Lage, Thelmo Fernandes e Marcos Palmeira, Hanna Romanazzi, Vanessa Gerbelli, Dalton Vigh, Osvaldo Mil, Marcello Gonçalves, Bruce Gomlevsky, Paulo Reis, Augusto Madeira, Beatriz Saramago, Rafaela Mandelli, Cinara Leal, Guilherme Dellorto, Amaurih De Oliveira, Dério Chagas, Lucio Andrey, Helena Fernandes,Val Perré, Nill Marcondes. Gênero: Drama, Ação. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: Gustavo Hadba, ABC. Montagem: Danilo Lemos. Direção de Arte: Daniel Flaksman. Figurino: Cristina Kangussu. Trilha Sonora Original: Lucas Marcier e Fabiano Krieger. Supervisão de Efeitos Visuais: Marcelo Siqueira, ABC. Produtor de favelas: João Paulo Garcia. Produção: AfroReggae Audiovisual. Coprodução: Globo Filmes, Hungry Man e Multishow. Produção Executiva: Luis Vidal, Carolina Aledi, Fabiana Guzman, Marcelo Torres e Mário Diamante. Produção: José Junior. Patrocínio: Petrobras e Gávea Investimentos. Investimento: Investimage e BRB (Banco de Brasília). Apoio: Ambev, Afinal Filmes, CQS Advogados, Gol, Globoplay e Telecine. Distribuição: Downtown Filmes e Paris Filmes. Duração: 02h14min.

23 de janeiro nos cinemas   


Escrito por Maurício Ferreira

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