Os Sobreviventes - Depois do Terremoto | Assista nos Cinemas


“Lá fora, as pessoas estão brigando entre si: elas deveriam ser mais solidárias, umas em relação às outras”! 

A excelência técnica do cinema sul-coreano atingiu reconhecimento de público e crítica, entre os lançamentos contemporâneos, de modo que, além de arrebatar prêmios nos principais festivais mundiais, os filmes produzidos neste país são também capazes de obter volumosas bilheterias. É o que merece acontecer com este “Sobreviventes – Depois do Terremoto” (2023, de Um Tae-Hwa), uma superprodução que traz à tona tanto os impressionantes efeitos especiais dos filmes sobre catástrofes quanto os dilemas morais relacionados às situações-limites de sobrevivência… 

Após um interessantíssimo prólogo sobre a tendência ao confinamento em apartamentos cada vez mais altos – o que denota uma irrevogável condição privilegiada de classe, em comparação às pessoas que vivem amontoadas em bairros residenciais tradicionais –, uma tragédia inexplicada faz com que toda uma cidade seja destruída, exceto por um opulento complexo predial, a “utopia de concreto” do título internacional. E, neste ambiente, os moradores precisarão delimitar várias regras de convivência, a fim de continuarem vivos em condições árduas, como baixas temperaturas e a escassez de alimentos… 

Neste contexto, encontramos o casal Min-Seong (Park Seo-Joon) e Myeong-Hwa (Park Bo-Young), que vive no sexto andar. Ele é servidor público e ela é uma enfermeira que enfrentou um aborto espontâneo, recentemente. Ao se depararem com a paisagem urbana destruída e amplamente calamitosa, eles fazem uma averiguação rápida de quanta água e comida ainda possuem e se esforçam para não sucumbirem à malevolência das pessoas que os circundam, que chegam a decidir em votação a expulsão dos desabrigados que imploram para ficar no vão do único prédio que permanece firme na cidade…

Depois de abrigar uma senhora e uma criança, após a insistência benevolente de sua esposa, Min-Seong testemunha a formação de uma comissão de controle e vigilância no prédio, em que o imperioso Yeong-Tak (Lee Byung-Hun) é eleito delegado e, de maneira violenta, não apenas expulsa os desabrigados – a quem ele chama de “baratas” – como recruta esquadrões de busca entre os homens de dezesseis a sessenta anos de idade, para que saqueiem as áreas devastadas circunvizinhas, em busca de algo que possa ser aproveitado entre os moradores do prédio. Temos uma primeira crítica social através do roteiro (co-escrito pelo diretor), baseado na ‘webtoon’ “Pleasant Bullying”, de Kim Sung-Nyung

Créditos: Climax Studio e BH Entertainment / Paris Filmes
O longa foi a escolha da Coréia do Sul em submissão na categoria de ''Melhor Filme Internacional'' no Oscar 2024

Numa sacada bastante inventiva, Geum-Ae (Kim Su-Young), a presidenta da Associação de Mulheres do prédio onde estão confinados os personagens, expõe as principais normas da comissão de controle e vigilância, olhando diretamente para a câmera e, assim, fazendo com que o espectador se torne cúmplice (e, ao mesmo tempo, juiz) das decisões tomadas em grupo. A partir daí, somos levados a imaginar como nos comportaríamos frente a acontecimentos semelhantes. E, obviamente, as tendências à corrupção logo serão detectadas, bem como a desconfiança quanto aos caracteres daqueles que alegam zelar pelo bem-estar coletivo. 


Através de ‘flashbacks’, conhecemos as motivações escusas de Yeong-Tak, além de descobrirmos como ele tornou-se morador daquele luxuoso apartamento, o que faz com que a chegada de uma inquilina até então desaparecida, a jovem de cabelo rosado Hye-Won (Park Ji-Hu), configure uma ameaça aos seus desígnios controladores. Os atos deste delegado, na insistência pela entoação de ‘slogans’ e gritos de guerra, emula os determinismos fascistas, na maneira como conclama os seus asseclas a considerarem-se melhores que os demais habitantes, por estarem reunidos numa área em que gozam de direitos de propriedade. E, curiosamente, algumas das pessoas que aparecem como mendicantes são justamente moradores de outros ambientes ainda mais privilegiados que, em momentos anteriores ao desastre, tratavam com rispidez os sobreviventes. As críticas sociais são abundantes e muitas vezes direcionadas a personagens que pareciam inicialmente simpáticos, mas que revelam-se progressivamente pérfidos. 


A duração estendida do filme (duas horas e dez minutos) faz com que, em determinado momento, as situações fiquem repetitivas e os desmandos de Yeong-Tak tornem-se exagerados ou caricatos, como quando ele invade, de maneira vilanaz, os quartos de pessoas que ele considera suspeitas de estarem abrigando “baratas”. A fotografia do filme é muito bonita na aplicação de tons crepusculares, em conjunção com uma direção de arte acachapante, em que um único complexo predial se destaca em meio a tantos escombros. Ainda que não seja explicitamente esperançoso – pois o desastre inicial, ao não ser esclarecido, torna-se passível de ocorrer novamente –, o desfecho do filme possui uma válida mensagem humanista, na exortação à capacidade intrínseca dos homens em reorganizarem-se em sociedade. Porém, até que isso aconteça, diversos obstáculos materiais e imateriais precisarão ser superados: trata-se de uma superprodução oriental que não deve em impacto aos melhores ‘blockbusters’ hollywoodianos! 

Trailer


Ficha Técnica
Título original e ano: Konkeuriteu yutopia, 2023.Direção: Tae-hwa Eom. Roteiro: Tae-hwa Eom e Lee Shin-ji - baseado no webtoon ''Pleasant Outcast -  Part II'', de Kim Soong-nyung. Elenco: Park Seo-joon, Lee Byung-hun, Park Bo-young, Kim Sun-young, Park Ji-hu, Na Chul, Kim Do-yoon, Kim Hak-sun, Nam Jin-bok, Kwak Min-gyu, Kim Dong-gon. Gênero: Drama. Nacionalidade: Córeia do Sul. Fotografia: Cho Hyoung-rae. Edição: Han Mee-yeon. Som Direto: Kim Hyun-sang. Trilha Sonora Original: Kim Hae-won. Design de Produção: Cho Hwa-sung. Distribuição: Paris Filmes. Duração: 02h10min.

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Escrito por Wesley Pereira de Castro

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