Anaconda, de Tom Gormican


Os leitores mais jovens talvez ainda não tenham atravessado a temida crise da meia-idade. Já aqueles com um pouco mais de estrada certamente conhecem bem essa lâmina invisível: a espada que atravessa o peito e acusa, sem piedade, tudo aquilo que não foi vivido. É a adaga que sussurra que os anos passaram rápido demais, que os sonhos da juventude ficaram pelo caminho e que a vida, generosa no tempo que ofereceu, não foi plenamente aproveitada. Esse sentimento de perda, real ou imaginado, costuma rondar todos que encostam na simbólica barreira dos quarenta anos. Cada ser humano sofredor, no entanto, reage à sua maneira. No caso de um grupo de amigos de infância, vindos do Estados Unidos, a resposta foi tão improvável quanto reveladora: enfiar-se no coração da Amazônia e filmar, com orçamento quase inexistente, uma releitura de Anaconda, o clássico trash de horror de 1997, dirigido por Luis Llosa, e estrelado por Jennifer Lopez, Jon Voight, Ice Cube, Owen Wilson, Eric Stoltz e, claro, cobras gigantes capazes de engolir não só pessoas, mas também qualquer resquício de bom senso.

A partir dessa premissa, o diretor Tom Gormican entrega em 2025 a comédia Anaconda, uma metaficção afiadíssima que brinca sem pudor com o próprio cinema e com a lógica dos estúdios de Hollywood. O resultado é uma sucessão de gargalhadas provocadas por uma comicidade assumidamente absurda: uma anaconda gigantesca que mata todo mundo, sobrevive a absolutamente tudo e parece invencível, até cruzar o caminho de um grupo de amigos quarentões determinados a arrebentá-la… e ainda registrar tudo em filme. No fim das contas, Anaconda fala menos sobre monstros e mais sobre o próprio cinema, essa arte que se reinventa sem cessar. O vilão pode até sucumbir, mas a imagem permanece: na sequência seguinte, ele inevitavelmente ressuscita, porque no cinema, como nos sonhos mal resolvidos da meia-idade, nada morre de verdade.

Comentários brincalhões à parte, o diretor americano Tom Gormican, também responsável por "O Peso do Talento" (2022), estrelado por Nicolas Cage interpretando a si mesmo e por Pedro Pascal como um chefão do narcotráfico absolutamente apaixonado por cinema, demonstra novamente sua habilidade rara de brincar com a própria linguagem cinematográfica. Gormican é exímio em criar metaficções irônicas e hilárias sobre a sétima arte, dialogando diretamente com o cinema clássico, os estúdios de Hollywood e, ao mesmo tempo, com o universo digital contemporâneo. Não por acaso, suas cenas ultrapassam a tela e se eternizam como memes nas redes sociais. Afinal, quem nunca viu, ou compartilhou, a icônica imagem de Nicolas Cage carrancudo ao lado de um sorridente Pedro Pascal dentro de um carro? Essa cena foi criada por esse diretor pós moderno.

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A comédia é um reboot direto para o filme de 1997 sobre o mistico animal gigantesco que perambula sobre a Amazônia, mas em 2024 a China também fez um remake do clássico, porém seguindo o gênero do terror

O reboot de 2025 segue exatamente esse caminho e tem tudo para gerar uma nova safra de memes. Alguns deles, inclusive, protagonizados pelo nosso Selton Mello (Brasil, sil, sil), que interpreta Santiago, um brasileiro completamente amalucado cujo único e verdadeiro amigo é… uma anaconda. É ele quem auxilia a equipe estado-unidense nessa jornada insana de filmar um longa-metragem no meio da selva amazônica. O resultado é uma comédia pastelão, repleta de correrias, trapalhadas, participações especiais e cenas pós-créditos simplesmente imperdíveis. Aqui, Hollywood opera no modo que conhece melhor: criando um filme acessível a todos e todas, engraçadíssimo e autoconsciente, com um roteiro afiado que não tem medo de rir de si mesmo.

A trama gira em torno desse um grupo amigos que, ainda adolescentes, realizou um filme escolar no estilo Quentin Tarantino, repleto de palavrões cabeludos e violência exagerada. Como era de se esperar, a direção da escola não aprovou nada daquilo, e da obra restou apenas uma única cópia. Anos depois, já quarentões, esses amigos se reencontram no aniversário de Doug McCallister (Jack Black), o diretor do projeto estudantil, hoje sócio de uma empresa de vídeos de casamento. Entre risadas e nostalgia, eles se encantam ao se rever jovens, cheios de sonhos e pretensões artísticas. É nesse momento que surge Ronald Griffin (Paul Rudd), um ator fracassado em Los Angeles, trazendo uma proposta tentadora: ele afirma ter comprado os direitos de Anaconda (1997) e convence o grupo a viajar ao Brasil para filmar uma nova versão totalmente independente, reunindo toda a turma. Ao plano se juntam Claire Simons (Thandiwe Newton), antiga namorada de Ronald, e Kenny Trent (Steve Zahn), que enfrenta problemas de dependência química. Entre resistências e impulsos nostálgicos, o grupo acaba aceitando a aventura.

Na selva amazônica, novos personagens entram em cena, com destaque absoluto para Santiago (Selton Mello em um papel deliciosamente exagerado). Sua relação de amizade com a cobra é um dos grandes achados cômicos do filme. Soma-se a isso a presença de uma mulher misteriosa, Ana, interpretada pela atriz portuguesa Daniela Melchior, seus perseguidores mal encarados e, claro, uma anaconda gigantesca que vai deixando um rastro de mortes pelo caminho.

Trailer



Ficha Técnica

Título original e ano: Anaconda, 2025. Direção: Tom Gormican. Roteiro: Tom Gormican e Kevin Etten - baseado no texto original de Hans Bauer, Jim Cash e Jack Epps Jr. Elenco: Jack Black, Paul Rudd, Thandiwe Newton, Steve Zahn Selton Mello, Daniela Melchior, Ice Cube, Uone Skye, Rui Ricardo Diaz, John Billingsley, Sebastian Sero, Diego Arnary, Dan Silveira, Anna Francesca Armenia, Jarred Blakiston, John Voce, Jennifer Lopez. Nacionalidade: Estados Unidos. Gênero: Comédia, Aventura, Terror, Metaficção. Trilha Sonora Original: David Fleming. Fotografia: Nigel Bluck, Richard Bluck, Matt Toll. Edição: Craig Alpert e Gregory Plotkin. Designer de Produção: Steven Jones Evans. Figurino: Alice Babidge. Direção de Arte: Marta Mussett. Empresas Produtoras: Columbia Pictures, Fully Formed Entertainment, TSG Entertainment. Distribuidora: Sony Pictures Brasil. Duração: aprox. 100 min. Classificação indicativa: 14 anos. 

Então preparem-se para muita diversão com essa comédia pastelão completamente absurda, e encantadora justamente por isso. As aparições da anaconda e as mortes esdruxulas funcionam como a cereja do bolo em uma aventura que, no fundo, fala sobre amizade, frustrações da meia-idade e a força do cinema como espaço de reinvenção. O elenco brilha, o roteiro oferece piadas generosas e o filme se consolida como um terreno fértil para memes.

Fica o alerta: não espere veracidade. O longa foi filmado na Austrália, anacondas daquele tamanho não existem e absolutamente tudo é fake. Mas essa mentira escancarada é, no fim das contas, a essência do cinema, uma ilusão bem contada que diverte, provoca gargalhadas e nos lembra por que seguimos voltando à sala escura.

NOTA: 8/10

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

Escrito por Marcelino Nobrega

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